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Posts do dia 8 abril 2009

Apresentação

08 de abril de 2009 0

Gilmar Marcílio convidou-me para fazer um texto de apresentação de seu livro O Mundo É o Que É, que será lançado hoje, às 20h, no Shopping Iguatemi Caxias. Ei-lo:

 

Tecer significâncias

Palavras aliviam as dores do mundo? Não creio. Mas, com certeza, elas vão enunciando os estados da alma. Palavras registram a sensação do frio, o calor do verão, o frescor do jardim, os devaneios do espírito, a dor da solidão, a angústia do imponderável. Mas as palavras não são a temperatura do tempo, as sensações do cotidiano, a sôfrega espera dos dias que seguem.

Esse dilema, essa dicotomia entre mundos diferentes, paralelos, porém complementares, organiza o fluxo das narrativas dos poetas, escritores e cronistas. No decorrer da história, as palavras insistem em contar as coisas do mundo. Vã empreitada, pois apenas roçaram a possibilidade de interpretá-lo em seu momento. Solitárias, as palavras nunca serão o mundo ou a verdade plena.

Se é quase inglória essa tentativa de descrever por completo a aventura humana nestes séculos e séculos, por que insistem os escribas? Talvez para fazer unguentos em suas próprias feridas, tentando aplacar suas inquietações, divagando sobre o quão incomensurável é flanar sobre o mesmo vôo do beija-flor ali, entre os ibiscos, na manhã ensolarada, na primavera prazenteira.

E, como viver só é possível fechando um pouco os olhos, tal qual nos ensina Gilmar Marcílio num dos textos desta bem-vinda coletânea, pra que insistir no alinhavo de letras em sílabas, arrematando vocábulos, costurados em períodos que tentem fazer o interlocutor vislumbrar a imagem intangível desta experiência inveteradamente solitária? Por uma bem-aventurada solidariedade de pares.

Na crônica faina de descrever as coisas do mundo, este que é o que é, Gilmar Marcílio vai tecendo contundências no vácuo das incontáveis inconstâncias: a poesia de Goethe e de Chico, a amorosidade contida nos pequenos gestos, as grandes distrações que tiram a elegância do convívio nestes tempos de poucas falas e muitas faltas. Em suas frases, enuncia aos que ainda tentam ler possibilidades nesta aventura de estar sendo ou ter sido, desbravando o devir. Seus textos clamam atitudes. Para muitos, soam como vaticínios. Revés do ousado, ode do inquieto.

Eis que, na filigrana de cada escrito, o autor fere o lenho, rasga o linho, desencadeando tessituras. É como se chafurdasse a goiva sobre a bruta madeira mundana e abrisse sulcos para, na razão inversa do entalhe entintado, fazer brotar o novo, uma caligrafia-revelação. Oportuna metáfora para tentar dar sentido ao indomável gesto do autor: em cada uma das crônicas, ele grava um pouco de sua maestria para filosofar sobre a terceira margem da vida. Ou, no viés dos espelhos, de rever e revisitar as significâncias do mundo.

É então e assim que Gilmar Marcílio consegue descrever as epifanias cotidianas, emoldurando as tais sofridas palavras em novas telas, com inesperadas nuances e desafiadoras apropriações, numa sina corajosa de sobreviver a cada ponto final.

 

Postado por Carlinhos Santos,