
Basho um santo em mim, diria o polaco Paulo Leminski. E ele exige reverência, silêncio, prédica, bula, modo de fazer e modo de assistir. Baixou um teatro no na Mostra Contemporânea de de Dança. E ele veio apresentar aos iniciados e não-iniciados o trabalho do Núcleo de Pesquisas em Linguagens Híbridas, de São Paulo.
Uma das informações que “Hagoromo, o Manto de Plumas” trouxe para o público do Festival de Joinville é a da mistura de linguagens, o tal hibridismo, conceito recorrente na produção contemporânea. Nesta montagem, junta-se teatro e dança, inovando estratégias de produção de movimento, imagens, cenas, na perspectiva de um novo com características dos dois primeiros, mas carregado de outras metáforas corporaos, outras falas estéticas.
A dança circunspecta, normatiza, é saudada como um ritual, tal qual é considerado pela cultura oriental. Do lado de cá do planeta, tanta cerimônia pode soar tediosa ou recurso de hermetismo. Mas, é fato, o programa ensinava ao público alguma das coisas que ali se veria: a fábula sobre o encontro da dureza e da leveza, das trocas, do respeito aos pactos de generosidade e respeito à ancestralidade.
Cruzando esta fronteira do “modo de fazer/modo de ver”, o trabalho sugere outro estado de contemplação e de fruição do que ali se consegue ver entre brumas e claridade ínfima. A luz que ilumina Hagoromo, o Manto de Plumas tem a delicadeza do farfalhar das asas do beija-flor, o brilho tênue de uma chama ínfima, a leveza do suspiro de uma libélula. Adentrando a este universo do que por muitos é considerado sagrado, há espasmos da carne, soam os sinos zen, brotam acordes pungentes de trombetas e flautas, aquieta-se o espírito. E por que o divino foi ali representado, dança-se!