Há alguns dias, numa das redes sociais, li muitos comentários adjetivando negativamente Esquenta, de Regina Casé, na Globo. Lamentei. Boa parte das opiniões falava de feiura, mal gosto e coisas mais em torno do que na tela aparecia. Era o dia que apareceu aquela moçada do Leleks, que pôs da rede o vídeo do funk Lek Lek Lek. Gurizada da periferia, magrela, vestindo roupa multicolorida pois o "preto emagrece", como disseram.
No Esquenta, acredito, passa boa parte do que está emergindo de um Brasil fora dos padrões, sem compromissos prévios, sem a aura do convencional, daquilo que tenha glamour. Mas é o Brasil. É esse mesmo país que gerou MC Naldo (acima, em foto de divulgação), entrevistado da 3por4 deste fim de semana. Naldo, como os meninos funkeiros, como Casé e suas atrações do pagode ao funk, da batucada à saliência quase erótica das coreografias do funk, são (e como!!) a nação brasileira. Ela não vive só de bossa nova ou rock'n roll Zona Sul.
Esse também é o país do forró, da guitarrada, do arroxa. É a terra do brega - do som ao sentimento. No papo, Naldo fala de como no Rio já é unanimidade com sua mistura de funk e hip hop, mas ainda lhe torcem os olhos no resto do país. É essa parte do país que acha o Esquenta "um horror", "descartável", "feio". Desconhecem, ou evitam, a verdadeira força do que temos: a miscigenação, a mistura, as periferias que viram centro de inovação, de reinvenção. Naldo é o estandarte do país que, vencendo na batalha, quer ser pop, quer ser popular e ser aceito por todos.
No fim, estas são "Querelas do Brasil" como já descreveram Maurício Tapajós e Aldir Blanc na música imortalizada por Elis. Só que, na época, era um embate entre o Brazil (dos gringos) e o Brasil (nosso). Agora é um Brasil (novo rico, deslumbrado, separatista e preconceituoso) não querendo aceitar o Brasil pobre, criativo, que ginga e quer ser pop.
Ah, sim: e Regina Cazé, ceio, tem erguido o abacaxi do Chacrinha com muita competência. E, para os desaviados, vale lembrar que o programa tem consultoria do Hermano Vianna, que é uma das cabeças pensantes mais espertas do país. Dito isso, vamos rebolar?!