A popularidade do movimento na web não garante grande adesão às passeatas. No 7 de Setembro em Porto Alegre, cerca de 10 pessoas compareceram à manifestação.
Giuliana de Toledo, Idiana Tomazelli e Mônica Reolom
Febre na ferramenta de microblogging Twitter, o movimento Fora Sarney expande suas atividades no “mundo físico” e tenta quebrar o rótulo de “revolução de sofá”. Depois de manifestações como a que levou 500 pessoas à Avenida Paulista, em São Paulo, o simbólico 7 de Setembro, data da Independência, foi escolhido para levar protestos às ruas em 18 cidades brasileiras. Em Porto Alegre, o pequeno número de participantes no feriado surpreendeu a organização: “Na primeira passeata foram trezentas pessoas, e na segunda, cem”, conta Moah Sousa.
Fora Sarney reúne poucos em Porto Alegre no 7 de Setembro
“Isso não é nem uma manifestação pacífica, é uma covardia”. Assim definiu o engenheiro Gilmar Roth, 52 anos, ao constatar os poucos que o acompanhavam no protesto em Porto Alegre. Somente cerca de dez pessoas compareceram ao Fora Sarney marcado para as nove horas da manhã, em frente à Câmara Municipal.
Clique aqui para conferir a galeria de fotos da manifestação.
Vestidos de preto, os manifestantes carregaram faixas pela Avenida Loureiro da Silva após o desfile militar. Ao longo do percurso, receberam aplausos dos que antes assistiam à parada, mas não conseguiram reunir mais pessoas na plateia.
Para um movimento organizado através da internet, o perfil dos manifestantes de Porto Alegre surpreende: a maioria dos que compareceram ao 7 de Setembro não era composta de jovens, como normalmente acontece em passeatas.
O número pequeno de manifestantes no feriado decepcionou a organização, que já conseguira juntar até 300 pessoas em Porto Alegre, segundo os cálculos do grupo. Para o organizador Moah Sousa, jornalista de 52 anos, o protesto nas ruas é decisivo para forçar a saída de Sarney. Para ele, a internet é uma ferramenta que ocupa o papel do antigo panfleto para divulgar as manifestações. “Só na internet não funciona, tem que ter manifestação física para dar resultado”, opina.
A pouca adesão no feriado, no entanto, não desanima o movimento na Capital. Segundo Moah, outras manifestações devem ser marcadas após um balanço do 7 de Setembro com representantes de outras cidades. Para o jornalista, a sequência de escândalos serve de motivação para os participantes dos protestos. “O governo continua fornecendo combustível para as manifestações”, justifica.
Confira no mapa abaixo o local da manifestação:
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O desafio de ir às ruas
O que pode ser considerado um movimento de sucesso na internet, com mais de 13 mil seguidores no Twitter e repercussão da mídia, o Fora Sarney, no entanto, enfrenta dificuldades para reunir grande número de pessoas nas ruas. Os eventuais riscos que envolvem a participação em protestos físicos é um dos fatores que explica a diferença de público. “O investimento que as pessoas fazem no Fora Sarney via Twitter é muito pequeno em termos de tempo e esforço”, analisa Marcelo Träsel, professor de comunicação digital da PUCRS.
Ao mesmo tempo em que a internet facilita a adesão, o abandono da causa também pode ser mais simples, já que a cobrança do grupo é menor do que nos movimentos tradicionais. “É bastante esperado que no Twitter tenha um número muito grande de pessoas que se manifestem. Agora, o número daqueles que se dispõem a participar de uma ação mais coletiva, pública, de manifestação, tende a ser bem menor”, avalia Marcelo Kunrath Silva, professor de Sociologia da UFRGS.
Confira aqui um trecho da entrevista com Marcelo Silva.
A relação tolerante do brasileiro para com os escândalos da política também contribui para a desmotivação em participar de movimentos como o Fora Sarney. “A corrupção no Brasil tem um grau de naturalização, ou seja, é algo instituído. Todo mundo espera que o político roube”, diz Silva. O desfecho de casos como o Fora Collor – em 1992, protestos pediram o impeachment do então presidente Fernando Collor de Melo, que atualmente ocupa uma cadeira no Senado – pode ter contribuído para uma descrença no resultado de manifestações. “A população brasileira é muito crítica, mas uma crítica cética não mobiliza ninguém, pelo contrário”, define o sociólogo.
Apesar do número pequeno de pessoas nas ruas, em comparação com a adesão na internet, Träsel acredita que o movimento no Twitter, por si só, já consiga chamar atenção da mídia. Por ser um espaço que concentra muitos jornalistas, o microblog consegue “agendar” temas da imprensa. “Acho que isso é o que preocupa os políticos”, observa. A criação de uma página do Senado para responder reportagens contra Sarney poderia ser um efeito dessa repercussão, segundo ele. Träsel, no entanto, é cauteloso ao avaliar os possíveis efeitos da “revolução de sofá”: “A gente nunca vai saber, na verdade, até que ponto as mídias sociais influenciam nesse caso”.
Clique aqui para ouvir um trecho da entrevista com Marcelo Träsel.
A cultura brasileira de manifestação nas ruas também seria um entrave para que uma “revolução de sofá” consiga resultados palpáveis na política. “No Brasil e na França é muito tradicional a manifestação, as pessoas precisam ir para a rua”, explica Silva. O panorama, contudo, pode mudar no futuro: “A internet hoje ainda não está incorporada na nossa cultura política. Talvez isso vá avançar com a universalização e com a disseminação”, prevê.
Fora Sarney pelo Brasil no 7 de Setembro e a repercussão na mídia
Além de Porto Alegre, outras 17 cidades brasileiras tinham manifestações Fora Sarney planejadas para o 7 de Setembro, conforme o site oficial do movimento. Os protestos repercutiram na mídia nacional.
Em Brasília, 150 manifestantes, de acordo com a Polícia Militar, protestaram próximos ao palanque onde o presidente Lula assistia ao desfile de 7 de Setembro. Segundo matéria do Estadão, o grupo permaneceu até o fim do evento e chegou a enfrentar os policiais. O site do jornal O Globo conta até que um dos estudantes que participava da manifestação foi agarrado pelo pescoço por um PM.
No site de Zero Hora, o principal jornal do Rio Grande do Sul, foi noticiado o protesto ocorrido em Brasília durante o desfile militar. Contudo, não foi encontrada nenhuma informação sobre a manifestação em Porto Alegre na lista de notícias do site.
Em São Paulo, cerca de 300 pessoas reuniram-se na Avenida Paulista para pedir a saída do presidente do Senado. O protesto ocorreu por volta das 15h e, segundo o site do Estadão, não chegou a atrapalhar o trânsito na capital paulista.
Na cidade de Recife, os manifestantes do Fora Sarney juntaram-se a quem participava da 15ª edição do Grito dos Excluídos. Contudo, os pedidos pela destituição de Sarney e pelo fim do Senado foram feitos apenas por integrantes dos partidos PSOL e PSTU e pelos integrantes da central sindical Conlutas.
Outras notícias veiculadas sobre as manifestações:
No desfile de Sete de Setembro, estudantes protestam contra Sarney – Folha Online
Esquadrilha da fumaça divide atenção com manifestação contra Sarney – Correio Braziliense
Manifestações contra Sarney marcam o 7 de Setembro – Estadão
Jovens protestam contra Sarney em desfile de 7 de Setembro – Band
Entenda o Fora Sarney
José Sarney (PMDB-AP) é acusado de irregularidades na administração do Senado, contratação de parentes e desvio de dinheiro público por meio de uma fundação que leva o seu nome. Onze pedidos de investigação contra Sarney já foram arquivados pelo presidente do Conselho de Ética do Senado, senador Paulo Duque (PMDB-RJ).
Para reivindicar a saída de Sarney da presidência do Senado, o movimento Fora Sarney adotou a estratégia de espalhar notícias e mensagens de protesto acompanhadas pela tag #forasarney no Twitter. Um site, uma rede social e comunidades no Orkut e no Facebook também foram criadas para organizar o movimento e combinar protestos.
Para participar
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