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Guia para professores: a entrevista dos meus sonhos

13 de novembro de 2012 0

Mesmo sem nos darmos conta, recorremos a algum tipo de entrevista quase diariamente. Todos nós, em algum momento, já fizemos perguntas sobre um tema ou sobre uma pessoa sobre a qual necesitamos saber mais. Já “entrevistamos” um encanador para saber o que acontece com o cano de água do banheiro, um médico para saber mais sobre uma doença, um colega de escola que utiliza um novo método didático ou uma amiga para saber mais sobre uma pessoa que ela acaba de conhecer. A entrevista é “um diálogo entre dois ou mais indivíduos em relação a um determinado tema, pessoa ou acontecimento”.

De todas as entrevistas da vida cotidiana, a entrevista jornalística é a que nos interessa agora: aquela que busca explorar o pensamento, as ideias, os sentimentos, as opiniões e a vida de um personagem público e famoso que, a partir do seu esforço e trabalho, conseguiu chegar ao lugar onde está.

A entrevista é a arte de aprender a partir dos outros. A entrevista jornalística busca conhecer a pessoa. Antes de julgá-la ou avaliá-la, trata-se de descobri-la.

Para isso, existem certas etapas às quais nos referimos a seguir.

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Decida quem será o entrevistado

13 de novembro de 2012 0

Em primeiro lugar é necessário dizer quem será o/a entrevistado/a. A decisão dependerá de algumas variáveis – que podem ser debatidas em grupos – e de alguma investigação inicial:

a.  Área de interesse: É importante que os alunos reflitam sobre a área que lhes interessa para sua entrevista: esportes, música, arte, televisão, política, direitos humanos, jornalismo, etc. Com frequência, a escolha do personagem começa com o campo social que os estudantes têm interesse em explorar.

b.  Alcance geográfico do personagem: É conveniente pensar sobre o alcance que  esperam que o(a) entrevistado(a) tenha. Será internacional? nacional? estadual? municipal? Essa dimensão pode ajudar a eleger quem será o personagem a ser entrevistado.

c.   Impacto: É conveniente que os alunos reflitam também sobre  o impacto que podem gerar diferentes entrevistados/as. Há personagens que atraem mais a opinião pública que outros, e essa pode ser uma variável  para a eleição.

d.  Uma historia especial: Para decidir quem o grupo entrevistará é fundamental conhecer algo da vida desse personagem. Deve tratar-se de uma história de vida de esforço, trabalho, empenho, superação e dedicação, que tenha permitido ao entrevistado chegar ao lugar onde chegou.

Para poder definir esses aspectos, é importante investigar. Trabalhem em grupos para distribuir as diferentes tarefas entre vocês!

Investigar o(a) entrevistado(a)

É fundamental explorar a vida das pessoas que estão sendo cotadas para a entrevista. As fontes incluem livros, revistas, jornais, internet e a conversa com outras pessoas que possam oferecer informações acerca do possível entrevistado. Cada uma das pessoas do grupo pode explorar uma fonte de informação diferente. Busquem conhecer bem o personagem, assim, poderão decidir _ entre todos _ quem será o entrevistado.

Investigar o tema

Conhecer o(a) entrevistado(a) é essencial, mas também é importante saber qual é o tema sobre o qual essa pessoa é referência. Investigar em jornais, livros, internet e revistas (incluindo tudo o que tenha sido escrito sobre o tema) ajuda a preparar uma melhor entrevista e checar as informações em diferentes fontes. Mais uma vez, distribuam as fontes de consulta entre os integrantes do grupo.

É importante investigar a maior quantidade de fontes possível. Dessa maneira, o grupo poderá checar e comparar as informações reunidas. Algumas fontes são mais confiáveis que outras. Utilizem somente aquelas em que se possa confiar; seja porque são fontes especializadas no assunto ou personagem, seja porque são pesquisadores acadêmicos ou porque são reconhecidas por sua seriedade e responsabilidade ao informar.

Definido o(a) entrevistado(a), os alunos terão concluído o primeiro passo.

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Preparando as perguntas

13 de novembro de 2012 0

O segundo momento é a formulação do questionário.

A entrevista é uma forma de diálogo, não de interrogatório. Não se trata de julgar o personagem. O objetivo das perguntas é conhecer a pessoa.

Em primeiro lugar, reflitam e debatam em grupos o que mais lhes interessou na investigação que acabaram de realizar sobre a pessoa escolhida.

Algumas entrevistas giram em torno de um aspecto do trabalho do personagem; outras entrevistas buscam explorar o personagem em sua vida diária (como no seu cotidiano).

Para formular as perguntas, será necessário definir que aspectos vocês desejam aprofundar.

As perguntas em uma entrevista são tão importantes (ou mais) que as respostas. Por isso, é preciso pensar bem nelas.


E como preparar a entrevista? Vejamos cada passo separadamente.

Aqui vão algumas recomendações para elaborar as perguntas:

· Pensem em perguntas abertas para colher a maior quantidade de informação do entrevistado. As perguntas abertas são aquelas que começam com: Como, O quê, Quando, Onde e Por quê.

· Façam perguntas que gerem respostas pessoais, convidando o entrevistado a dar sua opinião ou visão sobre o que desejam saber.

· Formulem perguntas claras, que não induzam as respostas.

· Façam perguntas que levem o leitor a compreender por que se trata de uma história de vida interessante, de esforço ou trabalho.

· Evitem perguntar algo ao entrevistado que já tenha sido abordado centenas de vezes em outras entrevistas. Verifiquem as informações importantes sobre o entrevistado que tenham sido publicadas ou veiculadas em algum lugar. Utilizem esse histórico para criar perguntas originais.

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Durante o encontro: começo

13 de novembro de 2012 0

a. Comecem a entrevista com perguntas simples até ganhar a confiança do entrevistado. Construir uma boa relação com o interlocutor pode levar alguns minutos no início.

b. Se o(a) entrevistado(a) fala muito rápido e vocês têm dificuldade de tomar nota, podem perdir gentilmente a ele(a) que fale um pouco mais devagar. É melhor que façam isso logo no início da entrevista, para que não afetem o desenvolvimento do diálogo.

c. Gravar a entrevista evita a perda de informações. É conveniente pedir a permissão do entrevistado antes de ligar o gravador.

d. Ainda que gravem ou filmem a entrevista, é importante tomar nota de tudo que lhes pareça importante. Às vezes a tecnologia pode falhar e, quando se percebe, já é tarde demais. Por isso, tenham sempre à mão lápis e papel.

e. Escutem as respostas com atenção. Vocês devem estar sempre prontos para fazer uma nova pergunta aproveitando as novas informações que o entrevistado vai oferecendo ao longo da conversa. As perguntas feitas de “improviso” são fundamentais porque transformam a entrevista em um verdadeiro diálogo.

f. Enquanto vão tomando nota e antes de terminar a entrevista, sublinhem as frases do entrevistado que lhes pareçam mais importantes. Isso vai facilitar o trabalho de escrever o seu texto após a conversa.

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Antes da despedida

13 de novembro de 2012 0

a. Quando terminarem as perguntas que vocês prepararam, é oportuno perguntar ao(à) entrevistado(a) se há algo mais que ele(a) queira acrescentar e que vocês não tenham perguntado.

b. Vocês podem perguntar ao(à) entrevistado(a) se há algum aspecto da conversa que ele(a) queira aprofundar um pouco mais.

c. Agradeçam ao (à) entrevistado(a) pelo tempo disponível para atendê-los.

d. Peçam ao(à) entrevistado(a) seu e-mail e telefone. Talvez vocês venham a precisar entrar em contato com ele(a) novamente para fazer alguma pergunta complementar ou esclarecer alguma questão que não tenha ficado suficientemente clara. Vocês também podem enviar para o(a) entrevistado(a) o resultado final da entrevista após a publicação.

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Depois da entrevista: eleger a informação

13 de novembro de 2012 0

Agora que terminou a entrevista, é necessário pensar como ela será colocada no papel. O primeiro passo, então, será selecionar que informação, entre todo o material que vocês obtiveram, será útil. Possivelmente, nem tudo o que foi conversado seja interesante; assim, será necessário priorizar as informações que se deseja incluir no texto final. Essa seleção de temas nunca é fácil.

Aqui vão algumas recomendações que podem ajudá-los nesse processo:

-  Quando escreverem a matéria, há duas posibilidades a serem escolhidas: a primeira é redigir uma breve introdução sobre a pessoa que foi entrevistada e sobre os temas que foram abordados, e passar diretamente para as perguntas e as respostas. A segunda opção é intercalar entre as perguntas e as respostas, dados sobre os gestos e as expressões do personagem ao longo da entrevista. Também podem contar sobre o local onde foi feita a entrevista e tudo que ajude o leitor a situar-se nessa cena. É interessante que o texto não seja uma mera transcrição do diálogo. Busquem criar no leitor a sensação de que ele estava presente durante a conversa.

- Logo que a entrevista terminar escrevam, em grupo, um primeiro rascunho com base nas informações de que vocês se recordam. Isso é interessante de ser feito imediatamente após o fim da entrevista porque vocês, seguramente, recordarão melhor os detalhes e porque aquilo que vocês lembrarem dela será o que, ao final, será publicado.

- Leiam, escutem (se tiverem gravado) ou assistam (se filmaram) a todo o material antes de tomar alguma decisão.

- Analisem que aspectos da entrevista são mais importantes e interessantes. Utilizem aquilo que lhes pareça mais significativo sobre o(a) entrevistado(a) e que ajude a compreender por que ele(a) foi escolhido(a) como exemplo de uma boa história de vida.

- Pensem e sempre tratem de se colocar no lugar dos leitores que talvez não conheçam o entrevistado ou entrevistada. Desse modo, o que for atrativo, de novo, para vocês, também será interessante para os demais.

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Escrever a versão final

13 de novembro de 2012 0

Se vocês já selecionaram as informações que serão usadas na entrevista, podem começar a escrever a notícia/matéria a partir da estrutura que desejam.

A seguir, apresentamos algumas sugestões:

- Reflitam com seus companheiros: o que faz esta entrevista atraente para os outros leitores? Conseguimos transmitir a história de vida do personagem? O que agregariam? O que eliminariam?

-  Leiam o texto que escreveram em voz alta para checar se não há orações grandes demais ou confusas. A leitura em voz alta ajuda muito nisso.

-   É importante pensar muito bem em como escrever o início e a conclusão da entrevista. O começo é o que prende o leitor e o estimula a seguir lendo. O fim é a última imagem que o leitor vai conservar da entrevista e o que possivelmente ele vai lembrar por mais tempo.

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Depois da entrevista: editar o texto

13 de novembro de 2012 0

Se vocês já tiverem escrito a entrevista, estarão prontos para editá-la. O trabalho de edição consiste em assegurar-se de que a versão final do texto seja clara e compreensível. Chegou o momento de revisar a redação e os erros ortográficos. Debatam sobre a edição com seus colegas. Pensem sempre no leitor que vai ler a entrevista.

A versão final deve ser clara e atrativa para todos. Quando tiverem terminado de editar o texto e antes de enviá-lo, é interessante mostrar o trabalho para uma pessoa que não seja da equipe, para que ela faça uma avaliação isenta da entrevista e lhes diga o que pensa dela.

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"Eu sou gaúcho"

31 de agosto de 2012 2

Entrevista concedida a alunos finalistas do concurso realizado por Zero Hora em abril de 2012.

UMA VIDA À PAIXÃO DE PESQUISAR A CULTURA POPULAR

Porto Alegre, cidade bem ao sul do Brasil no estado do Rio Grande do Sul (RS), foi palco de uma guerra sangrenta e separatista do século XIX (1835-1845), chamada Revolução Farroupilha.

Mesmo cientes de terem perdido essa guerra, a honra de pertencer a este povo idealista por igualdade e liberdade se mostrou anos depois – em 1947 – com jovens estudantes, os quais buscaram elementos na dança, na música e nos costumes para preservar e recuperar a cultura e tradição gaúcha, valorizando-a no contexto da cultura brasileira do século XX, invadida por novos conceitos vindos dos EUA.

Esse grupo, liderado por João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, na época com 20 anos, cria um Departamento de Tradições Gaúchas no Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre e recebe o significativo convite para montar uma guarda de gaúchos pilchados em honra ao herói da Revolução Farroupilha, David Canabarro. Esse feito é hoje conhecido como o Grupo dos Oito, ou Piquete da Tradição.

No ano seguinte, em 1948, Paixão criou o CTG “35″ (Centro de Tradições Gaúchas). Daí à Europa foi um salto: em 1958 surge a oportunidade de divulgar nossas tradições. Danças e músicas gaúchas foram apresentadas aos franceses em palcos de teatros e televisão em Paris. Depois, levou suas origens a Roma, a Inglaterra, à Escócia entre outros. Hoje, já são 4 mil CTGs espalhados pelo mundo e 8 milhões de participantes.

O amor a terra fez Paixão, hoje com quase 85 anos de idade, entregar sua vida à pesquisa da cultura popular e trazê-la viva até os dias de hoje. “Para sermos conhecidos no mundo, temos que conhecer e divulgar nossas raízes.”

1. Como o Senhor definiria o próprio João Carlos (Paixão Côrtes) na época do Colégio Júlio de Castilhos em 1947?

O “pago”, lugar onde se nasceu, é muito importante, porque coloca cada ser numa autenticidade da terra – as lembranças da infância e da juventude. Na época de 47, o importante era saber quem era Napoleão, as pirâmides, as Sete Maravilhas do mundo, isso era cultura importantíssima, mas saber de nossas origens, dos ancestrais, da nossa cultura não era importante. A realidade era norte-americana e europeia. Então, quando éramos jovens, nos revoltamos contra isso, buscando na escola um jeito de nos expressar para a sociedade.

2. Como surgiu a ideia de formar os CTG’s? O senhor imaginava que, com essa atitude, iria revolucionar a cultura gaúcha?

A ideia de formar o CTG ocorreu no colégio Julio de Castilhos: éramos oito colegas e amigos; nos encontrávamos em minha casa – era nosso galpão. Sobre minha liderança, foi criado o “Departamento de Tradições Gaúchas” do Colégio Júlio de Castilhos, isto em 1947. Eu já procurava alguma coisa, através da escola, que substanciasse o meu conhecimento aos desafios da lida no campo. Foi no meio escolar que encontrei a maneira de ver nossa tradição.

3. Com o avanço da tecnologia, o Senhor acha que, hoje, a cultura gaúcha pode ficar esquecida ou que o nacionalismo pode colaborar para a sua expansão?

Existe uma tomada de consciência, saber ou não saber, você tem que ter consciência das suas heranças, das suas tradições; existe a pesquisa, a documentação científica e o culto. Cultos são os símbolos: o símbolo da pátria, a bandeira, o canto, todos são naturais do Rio Grande do Sul; ser gaúcho é um estado de alma, espírito e conceito que se forma pelas vivências regionais, pela comunidade, pela importância política e social, educacional; é por isso que nós temos orgulho de dizer EU SOU GAÚCHO. O fato de ter nascido aqui nos traz heranças do passado e eu posso dizer que sou gaúcho, não pelo fato de ter nascido no Rio Grande do Sul, e sim por ter buscado a nossa cultura.

4. Como em tudo, há sempre pessoas que vão contra nossas ideias. De que maneira o Senhor encarou o momento em que as pessoas desprezaram suas ideias para renovação cultural que se deu após a criação do Movimento Tradicionalista? O que lhe ajudou a superá-lo?

A época era um pouco diferente dos dias atuais, o mundo era diferente e as posturas também eram diferentes; nós não podemos comparar as coisas, nós só podemos situá-las e, para isso, tem que ter fundamento e pesquisa, documentação. Sem ela, nada é duradouro; não existia, em 1947, a postura de encarar com respeito e seriedade o movimento tradicionalista que se tem hoje, mas isso se deve à documentação.

Havia uma razão de ser, de consciência, nos questionávamos de como no RS não havia registros sobre danças típicas, nem sobre os costumes daqui, mas elas existiam no Paraguai, no Uruguai, na Argentina…

Eu tive, então, que procurar minhas origens para saber o que eu sou. Saímos (Barbosa Lessa e eu) em busca dessas informações com um gravador de 10 quilos e perguntávamos aos mais velhos como eram aquelas danças, as roupas… Assim, em 1948, criei o CTG “35” – (Centro de Tradições Gaúchas). Hoje, existem 4 mil CTGs no mundo; 8 milhões de pessoas fazem parte desses CTGs e eu estou vivo aqui, concretizando um sonho de ser entrevistado e poder transmitir isso para vocês.

5. Como o Senhor percebe a semelhança do nosso folclore com o da América Latina? A indumentária gaúcha inspirou ou foi inspirada em algum modelo de outro país e o que ela mostra aos estrangeiros do povo gaúcho?

Nada mais universal, nada mais regional do que o folclore. O mundo é universal e um só. As combinações – maneira como elas se manifestam – são regionais.

A bombacha, por exemplo, tem origem com os árabes, mas ela é também gaúcha, porque, mesmo sendo universal, se adaptou ao modo de vestir do gaúcho.

Todas as peças, tanto masculinas como femininas, são adaptáveis, são circunstanciais, são funcionais para a atividade profissional na comunidade em que se vive. Todas as roupas têm uma função de ser e toda atividade tem uma funcionalidade. O homem rural tem uma visão mais ampla da extensão territorial estando a cavalo e esse homem precisa da bombacha para ter agilidade, enfim, para se adaptar à vida profissional no campo.

6. O Senhor se tornou um dos expoentes da cultura gaúcha e do Movimento Tradicionalista do Sul, ou seja, buscou nas raízes fatos que já estavam “esquecidos” pelos gaúchos? Como foi essa reformulação do RS?

Não foi, continua sendo. Nós estamos ainda nos descobrindo, essa é a verdade. Simões Lopes Neto, considerado o patrono da literatura regional, responsável por grandes contos, morreu há 100 anos e nunca seu trabalho tinha sido tão reconhecido como agora. Estamos recentemente nos descobrindo e sabemos que há muitos fatos importantes para a cultura a serem desvendados.

7. Como as suas músicas e seus mais de 60 livros tiveram poder de fazer as pessoas se interessarem e pesquisarem mais sobre a cultura gaúcha?

Existe algo que é inato ao mundo, em qualquer parte do mundo, em qualquer parte do universo: chama-se consciência, despertar da consciência, da importância da cultura, da sua identidade e da importância que você representa no mundo. Eu tive uma missão: a de levar, a de dizer de onde eu vinha e que mensagens trazia às novas gerações de outros países.

Agora está se despertando a consciência, porque existe pesquisa e documento. O Movimento Tradicionalista é uma decorrência da cultura através de um estudo científico; os valores da importância universal estão na ciência e é ela que vai lhe dar a sabedoria.

8. Antes as mulheres não tinham autoridade e, hoje, por exemplo, já existem mulheres que são patroas de CTG’s. O que o Senhor pensa disso?

A história não sou eu, eu vivi uma parte da história: mulher não entrava em galpão, mulher ficava 10 ou 15 metros de distância dele, lugar em que se circunscrevia toda a vivência das soluções pastoris do Rio Grande do Sul: soluções políticas e sociais. A mulher era importantemente a grande dona da casa; como ocorreram muitas revoluções no RS, o homem saiu para lutar e ficou a mulher como dona da estância. Assim, ela comandava todas as atividades, mas isto era em razão da ausência dos homens. Hoje, a sociedade evoluiu. Dessa forma, a mulher conquistou, com sua inteligência e dignidade, a ter direitos de participar nos CTGs como igual.

9. Paixão Côrtes, o Senhor é um herói das tradições, uma pessoa que gerou oportunidades, criando o CTG 35 e disseminando a tradição gaúcha. Como o Senhor se sente ao saber que o CTG Aldeia dos Anjos de Gravataí – RS – participou de um concurso internacional na França em 2011 e, agora, mais uma vez, o fundador tradicionalista – o pai dos CTGs – será lembrado na Europa?

No início da entrevista, eu disse que era importante conhecermos nossa origem, o que somos, o que representamos, o que transmitimos, então, o CTG Aldeia está numa importância de intercâmbio universal entre as culturas e as expressões de outras regiões.

Antes não se saía daqui, quem saiu pela primeira vez em 1958 fui eu, ficamos cinco meses em Paris fazendo grandes espetáculos em teatros e na TV francesa, enfim, esse foi o início do intercâmbio, depois foram outros grupos de outros centros de tradições para concursos, mas uma coisa é representar e outra coisa é viver. E eu vivi.

10. Com todo o conhecimento obtido e pela autoridade do tradicionalismo gaúcho, como o Senhor definiria o gaúcho em uma frase?

É a frase que vocês iniciaram: EU SOU GAÚCHO, não mais do que isso, já basta.

Estudantes da Fundação Bradesco, de Gravataí: Brenda L. Schmitt, Laura Bazotti Vicente, Camila Silva da Silveira, Henrique Mrás,Pedro Bandeira dos Santos, Bárbara Coelho Ferreira e Professora Lídia Maria Stumpf

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A arte de esquecer, o desafio de lembrar

31 de agosto de 2012 0

Entrevista concedida a estudantes finalistas do concurso realizado por Zero Hora em abril de 2012:

Entrevistado: Ivan Izquierdo, neurocientista

A vida se faz saborosa pelas lembranças que nela são acumuladas. Idosos deliciam-se contando causos de sua juventude; são revividas as emoções sentidas a cada evocação de recordações. Contudo o funcionamento da memória foi por muito tempo envolto por mistérios. Ivan Izquierdo, neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, dedica-se a desvendar esses mistérios há mais de 20 anos, sendo pioneiro em diversas pesquisas. Já lecionou na atual Unifesp, UFRGS e atua hoje na PUC-RS. É o brasileiro com o maior número de citações em trabalhos internacionais. Sua vida repleta de feitos grandiosos na área da medicina representa, portanto, um feito grandioso também para o Rio Grande do Sul, escolhido pelo renomado doutor. Veja a seguir uma entrevista na qual Ivan discorre sobre a sua vida, sua vinda ao Brasil, seu trabalho e seus interesses.

1. Qual a sua trajetória de vida acadêmica? Quando houve a decisão de ir para a área de pesquisa na medicina?

ENTREI NA UNIVERSIDADE EM 1955, QUANDO TINHA SIDO DERRUBADO UM GOVERNO DITATORIAL NA ARGENTINA E ESTAVAM RETORNANDO DO EXÍLIO OU DA ATIVIDADE PRIVADA VÁRIOS DOS PRINCIPAIS CIENTISTAS DO PAÍS. ENTRE ELES, UM PRÊMIO NOBEL E OUTRO QUE VIRIA A SÊ-LO POUCOS ANOS DEPOIS, AMBOS NA ÁREA DE PESQUISA MÉDICA. ERA UM MOMENTO ESPECIAL DE MUITO ENTUSIASMO PELA CIÊNCIA E PELO CONHECIMENTO EM GERAL. CREIO QUE ESSE ENTUSIASMO ME CONTAGIOU E JÁ NO 3º ANO DA MEDICINA ENTREI NESSA ÁREA. UM OU DOIS ANOS MAIS TARDE SENTI QUE NÃO PODERIA ME DEDICAR A OUTRA COISA.
2. Se não tivesse sido médico, o que o senhor seria?

ANTES DE ENTRAR NA MEDICINA PENSEI SERIAMENTE EM ME DEDICAR À FÍSICA NUCLEAR. LOGO DESISTI PORQUE SOUBE QUE ERA UMA ATIVIDADE MUITO CONTROLADA PELOS GOVERNOS, MUITO SECRETA E, PORTANTO, DIFÍCIL DE PRATICAR COM LIBERDADE. POR OUTRO LADO, ADORAVA (E ADORO) A MÚSICA; NA ÉPOCA TOCAVA BASTANTE BEM O VIOLÃO. PENSEI TAMBÉM EM SER ESCRITOR; JORGE LUIS BORGES EXERCIA (E EXERCE) UM FASCÍNIO GRANDE EM MIM. ESCREVI  VÁRIOS CONTOS NA  ADOLESCÊNCIA, ALGUNS ATÉ RAZOÁVEIS.
4. O senhor é muito consultado em relação ao seu trabalho com a memória. Incomoda-o essa exclusividade de perguntas?

ACOSTUMEI-ME; HOJE PENSO QUE É PARTE DE MEU TRABALHO RESPONDER ÀS PERGUNTAS DO PÚBLICO.
5. Há várias publicações de sua autoria em circulação. Qual a sua relação com a literatura e a escrita? É um prazer pessoal?

COMO DISSE, COMECEI A ESCREVER CONTOS E ENSAIOS NA ADOLESCÊNCIA. DEPOIS CONTINUEI ESPORÁDICAMENTE, EM “SURTOS”, AO LONGO DA VIDA.  AQUILO QUE COMEÇOU COMO UM SIMPLES PRAZER OU PASSATEMPO VIROU, COM OS ANOS, UMA NECESSIDADE.


6. O que significa como cientista ser citado em muitos trabalhos? O senhor tem muitas citações?

AS CITAÇÕES DOS TRABALHOS SÃO UMA MEDIDA DO IMPACTO OU DA IMPORTÂNCIA DELES.  HÁ QUASE 20 ANOS QUE SOU O CIENTISTA MAIS CITADO DA AMÉRICA LATINA. ISSO QUER DIZER QUE MUITA GENTE PELO MUNDO AFORA LÊ E MENCIONA OS TRABALHOS CIENTÍFICOS QUE EU PUBLICO. ISSO ME DÁ SATISFAÇÃO; AJUDA A COLOCAR A AMÉRICA LATINA NO MAPA.

7. Há um limite de informações retidas pelo cérebro?

TALVEZ SIM; AFINAL, O CÉREBRO É FINITO.  PORÉM, NINGUÉM ALCANÇOU ESSE LIMITE NEM ACHO QUE ALGUÉM VENHA A ALCANÇÁ-LO NUNCA. O CÉREBRO HUMANO TEM 80 BILHÕES DE NEURÔNIOS; CADA UM FAZ SINAPSE (FAZ CONTATO) COM OUTROS 1.000 OU 10.000.  O NÚMERO DE COMBINAÇÕES POSSÍVEIS É FINITO, MAS ENORME.  E AS MEMÓRIAS SE FAZEM E SE GUARDAM EM SINAPSES.
8. Qual a relação entre os cinco sentidos – tais como olfato, audição – e as memórias?

AS MEMÓRIAS SÃO FRUTO DAS EXPERIÊNCIAS, OU SEJA, DE EVENTOS EM QUE APRENDEMOS ALGO, ADQUIRIMOS MEMORIAS.  AS EXPERIÊNCIAS ENVOLVEM A PERCEPÇÃO DO MUNDO QUE NOS RODEIA ATRAVÉS DOS SENTIDOS.  OU DO MUNDO INTERIOR: OUTRAS MEMÓRIAS, PENSAMENTOS, ETC.

9. Em uma pessoa acometida por um AVC, em que áreas cerebrais que atuam na memória tenham sido afetadas, seria possível utilizar a neuroplasticidade para regenerar a capacidade memorativa? O senhor pode explicar o processo da neuroplasticidade?

A PALAVRA NEUROPLASTICIDADE É UTILIZADA EM NEUROCIÊNCIA PARA DENOTAR O FATO DE QUE AS CÉLULAS NERVOSAS PODEM SE MODIFICAR COMO RESULTADO DOS ESTÍMULOS OU DAS EXPERIÊNCIAS.  A IMPRENSA LEIGA, POR ALGUM MOTIVO, PASSOU A DENOMINAR “NEUROPLASTICIDADE” AO FATO DE QUE ALGUNS NEURÔNIOS SE REPRODUZEM.  PORÉM, OS NEURÔNIOS QUE CONSEGUEM FAZER ISTO SÃO POUCOS, E PRINCIPALMENTE NA PRIMEIRA INFÂNCIA.  NA SUA IMENSA MAIORIA, OS NEURÔNIOS QUE TEMOS NA IDADE ADULTA OU NA VELHICE SÃO OS MESMOS COM OS QUAIS NASCEMOS.  A MAIORIA DOS NEURÔNIOS DE UM SER HUMANO DE 80 ANOS TEM, ENTÃO, 80 ANOS.

PODE EXISTIR, SIM, RECUPERAÇÃO DAS FUNÇÕES CEREBRAIS  ATRAVÉS DAS  MODIFICAÇÕES PRODUZIDAS NOS NEURÔNIOS PELOS ESTÍMULOS OU PELAS EXPERIÊNCIAS.  OS NEURÔNIOS PODEM MUDAR SUA FORMA E TAMBÉM SUAS FUNÇÕES ORIGINAIS.  ISTO PERMITE A RECUPERAÇÃO DAS MESMAS DEPOIS DE LESÕES, PRODUZIDAS POR AVCs OU OUTROS FATORES (TRAUMAS, etc.).  ISTO É MAIS FÁCIL NOS SUJEITOS MAIS JOVENS E, NA MEDIDA QUE A IDADE AVANÇA, FICA  MAIS DIFÍCIL.  EU CONHECI, HÁ MUITOS ANOS, UMA CRIANÇA QUE PERDEU UM HEMISFÉRIO CEREBRAL POR UM DISPARO DE REVÓLVER QUANDO TINHA UM ANO.  AOS 12, O OUTRO HEMISFÉRIO TINHA, AOS POUCOS  “USURPADO” TODAS AS FUNÇÕES DO HEMISFÉRIO QUE FALTAVA, INCLUSIVE A FALA, E A CRIANÇA ERA DIFÍCIL DE DISTINGUIR DE OUTRA NORMAL.  QUANDO ADULTO ESSE MENINO FOI DIRETOR DE ORQUESTRA.  JÁ NOS AVCs, QUE ATACAM EM GERAL PESSOAS MAIS VELHAS, NÃO SE OBSERVA SEMELHANTE CAPACIDADE DE RECUPERAÇÃO.  A RECUPERAÇÃO DEVE-SE À CAPACIDADE QUE TÊM OS NEURÔNIOS MAIS JOVENS DE CRIAR NOVOS AXÔNIOS E DENDRITOS OU RAMIFICAÇÕES DOS MESMOS. AXÔNIOS SÃO OS PROLONGAMENTOS DOS NEURÔNIOS QUE SE DIRIGEM A FAZER CONTATO SINÁPTICO COM OUTROS. DENDRITOS SÃO OS PROLONGAMENTOS QUE OS NEURÔNIOS POSSUEM PARA FAZER SINAPSE COM OS AXÔNIOS.


10. Os videogames e computadores exercem alguma influência no funcionamento cerebral? Se sim, positiva ou negativa?

SIM, ESTIMULAM.  PORTANTO, SALVO ABUSOS, SUA INFLUÊNCIA EM GERAL É POSITIVA. OS ABUSOS PODEM CAUSAR UM QUADRO PATOLOGICO CHAMADO DEPENDÊNCIA.  OS MECANISMOS DESTA NÃO SÃO MUITO DIFERENTES DAS DEPENDÊNCIAS DAS DROGAS DE ABUSO.


11. Sabe-se que a memória enfraquece à medida que envelhecemos. Por que esse processo acontece? Há algo que possamos fazer para combatê-lo?

DESDE QUE TEMOS UM ANO DE IDADE NOSSOS NEURÔNIOS VÃO MORRENDO DIA A DIA.  COM OS ANOS, ESSA PERDA NEURONAL PODE CAUSAR, SE FOR SUFICIENTEMENTE EXTENSA, ENFRAQUECIMENTO DAQUELAS FUNÇÕES NERVOSAS EM QUE ELAS PARTICIPAM.  A MEMÓRIA É AFETADA, MAS TAMBÉM A PERCEPÇÃO PELOS DIVERSOS SENTIDOS, A CAPACIDADE MOTORA, AS ATIVIDADES NERVOSAS REGULADORAS DO TONUS DA BEXIGA E DO RETO, ETC. MUITAS DOENÇAS, PRINCIPALMENTE INFECÇÕES MAS TAMBEM DOENCAS DEGENERATIVAS (PARKINSON, ALZHEIMER), O CONSUMO DE ALCOOL E DE OUTRAS DROGAS, E ALGUNS TÓXICOS AMBIENTAIS, CAUSAM DANO AOS NEURONIOS, O QUE SE SOMA AO EFEITO DA PERDA NATURAL DESTES.

A MEMÓRIA NÃO É A FUNÇÃO CEREBRAL QUE MAIS DECLINA COM A IDADE NAS PESSOAS SADIAS. HÁ MUITOS IDOSOS NO MUNDO EXERCENDO IMPORTANTES ATIVIDADES EXECUTIVAS, ARTÍSTICAS OU INTELECTUAIS QUE GOZAM DE EXCELENTE MEMÓRIA.  COM A IDADE SOFREM MAIS OUTRAS FUNÇÕES CEREBRAIS: OS REFLEXOS, POR EXEMPLO; RARAMENTE VEMOS ESPORTISTAS DE BOM NÍVEL, POLICIAIS OU BOMBEIROS DE MAIS DE 40 ANOS, ETC.

A MELHOR FORMA DE COMBATER OS EFEITOS DO ENVELHECIMENTO É PREVENI-LOS ATRAVÉS DE UMA DIETA SADIA, PELO CULTIVO DA ATIVIDADE FÍSICA E MENTAL (LER, PRINCIPALMENTE, QUE É A ATIVIDADE QUE MAIS EXERCITA E, PORTANTO, MAIS ESTIMULA DIVERSOS TIPOS DE MEMÓRIA).

12. Existem faixas de áudio destinadas a serem reproduzidas durante o sono, as quais prometem a memorização de diversos temas. É, de fato, possível aprender dormindo?

HÁ EXATAMENTE 50 ANOS (1962) EU MESMO ESTUDEI ISSO, NO LABORAT[ORIO DE UM AMIGO URUGUAIO, GRANDE CIENTISTA, QUE TRABALHAVA EM LOS ANGELES.  NA ÉPOCA, HAVIA VARIOS PESQUISADORES PELO MUNDO AFORA QUE ESTUDAVAM ESSE TEMA. DO CONJUNTO DOS RESULTADOS DE TODOS SURGIU A CONCLUSÃO DE QUE NÃO E POSSIVEL APRENDER NADA OU QUASE NADA DURANTE O SONO, PRINCIPALMENTE PORQUE OS SENTIDOS, ATRAVES DOS QUAIS PERCEBEMOS O MUNDO QUE NOS RODEIA, ESTÃO INATIVADOS.  O OUVIDO TAMBÉM.
13. Muitas pessoas já experimentaram a sensação de ter vivido uma mesma situação anteriormente (déjà vu). Há uma explicação científica para essa ocorrência?

HÁ 40 OU 50 ANOS ATRIBUÍA-SE UMA CONOTAÇÃO PATOLOGICA AO “DEJÀ VU”.  HOJE JÁ SE SABE QUE NADA MAIS É DO QUE UMA MEMORIA FALSA, NA QUE CONFUNDIMOS ALGO PARECIDO COM  ALGUMA COISA OU LUGAR QUE JÁ VIMOS, COM A COISA OU O LUGAR EM SI.  O VELHO E GRANDE FILME DE HITCHCOCK, “VERTIGO” (UM CORPO QUE CAI) GIRA EM TORNO DESSE TEMA. NO QUE DIZ RESPEITO A MEMÓRIAS FALSAS, ELAS SÃO MUITO COMUNS, PRINCIPALMENTE NOS IDOSOS, NOS QUAIS O NÚMERO MUITO ELEVADO DE MEMÓRIAS QUE FORAM FORMANDO AO LONGO DOS ANOS PODEM CAUSAR A  MISTURA DE DADOS DE UMAS COM OS DE OUTRAS.

14. O exercício físico influi na capacidade cognitiva?

SIM, POR UM LADO POR MELHORAR A CIRCULAÇÃO GERAL E PORTANTO A CIRCULAÇÃO CEREBRAL, E POR OUTRO LADO POR ESTIMULAR REGIÕES DO CÉREBRO  MAIS IMPORTANTES PARA A MEMÓRIA DO QUE SE PENSAVA ATE TRÊS OU QUATRO ANOS ATRÁS, ENTRE ELAS O CEREBELO, QUE REGULA O EQUILÍBRIO E MUITOS MOVIMENTOS,.
15. Para estudantes, o que é mais eficaz na memorização: Um estudo contínuo ou com breves intervalos?

CERTAMENTE, O ESTUDO COM BREVES INTERVALOS.  DISTRAI, E PRODUZ UM “RESET” ÀS VEZES MUITO NECESSÁRIO.
16. Uma situação bastante comum e que acomete principalmente vestibulandos é o famoso “branco”. Por que esse fenômeno ocorre? Há maneiras de evitá-lo?

(O “BRANCO” DEVE-SE À LIBERAÇÃO DE CORTICÓIDES DA GLÂNDULA SUPRARRENAL) PRODUZIDA PELA ANSIEDADE OU ESTRESSE.  OS CORTICÓIDES SÃO HORMÔNIOS QUE VÃO PELO SANGUE ATÉ ÁREAS DO LOBO TEMPORAL QUE REGULAM  A EVOCAÇÃO DE MEMÓRIAS (HIPOCAMPO, NÚCLEOS DA AMÍGDALA) E AS INIBEM.
17. Vendo os seus alunos e os novos pesquisadores, qual a sua opinião sobre o contexto da medicina hoje?

A MEDICINA HOJE ACONTECE EM VÁRIOS CONTEXTOS NOVOS, CUJO RESULTADO É DIFÍCIL DE PREVER.  POR UM LADO, HÁ UMA SUPERPOPULAÇÃO MUNDIAL, QUE GERA E CONSOME CADA VEZ MAIS INFORMAÇÃO NUMA PROPORÇÃO NUNCA VISTA ANTES; NÃO GERA ALIMENTOS NA MESMA PROPORÇÃO EM QUE OS CONSOME E JÁ SATUROU OS MEIOS DE TRANSPORTE EM MUITAS CIDADES.  OUTRO CONTEXTO É A EXPLOSÃO DE NOVOS CONHECIMENTOS E DE NOVA INFORMAÇÃO QUE NÃO ESTAMOS CONSEGUINDO ABSORVER ADEQUADAMENTE.  ALÉM DISSO, HÁ UM AUMENTO DOS AGENTES ALERGÊNICOS E INFECCIOSOS QUE PARECE TAMBÉM INCONTROLÁVEL.  HÁ TAMBÉM UMA FALTA CRESCENTE DE ÁGUA POTÁVEL CADA DIA EM MAIS PARTES DO MUNDO.  DEMAIS ESTÁ DIZER QUE TUDO ISSO FRAGILIZOU A RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE EM QUE SE FUNDAMENTOU BOA PARTE DA MEDICINA MUNDIAL AO LONGO DE 20 OU 30 SÉCULOS.
18. Vive-se em uma era de tecnologia, onde muito próximo é o futuro em que as pessoas viverão 150, 200 anos. O que o senhor pode indicar para possuir um bom funcionamento cerebral e uma boa memória sempre?

NA VERDADE, É DUVIDOSO QUE SE CHEGUE ALGUMA VEZ A UMA EXPECTATIVA DE MUITO MAIS DO QUE 120 OU 150 ANOS.  AS CÉLULAS DOS MAMÍFEROS NÃO ESTAO PROGRAMADAS PARA SE REPRODUZIR TANTAS VEZES,OU PARA DURAR MUITO ALÉM DISSO.  TALVEZ ESTEJAMOS PROXIMOS DE CHEGAR A UM TETO, AO QUE OS FÍSICOS CHAMAM UMA ASÍMPTOTA.  PARA MANTER UM BOM FUNCIONAMENTO CEREBRAL E UMA BOA MEMÓRIA POSSO INDICAR POUCO ALÉM DE UMA DIETA REGULADA (ZERO GORDURAS TRANS, CARBOHIDRATOS, GORDURAS E PROTEINAS NUMA PROPORÇÃO HARMONICA, MINERAIS, VITAMINAS E AGUA NA MEDIDA CERTA, ETC.). EXISTE INFORMAÇÃO ABUNDANTE DISTO NA MÍDIA E NA INTERNET.

EM RELAÇÃO COM A MEMÓRIA, O QUE SERVE PARA MANTÊ-LA É A PRÁTICA.  A ATIVIDADE QUE MAIS EXERCITA ESSA PRÁTICA É A LEITURA.  OS CULTORES DAS DUAS PROFISSÕES QUE MAIS EXIGEM LETURA, ATORES E PROFESSORES, SÃO OS QUE MAIS MANTÊM EM FORMA SUA MEMÓRIA, INCLUSIVE NUMA IDADE MUITO AVANÇADA.  O MUNDO ESTÁ CHEIO DE EXEMPLOS: BORGES, SARAMAGO, DENG ZHAO-PING, PAULO AUTRAN, BIBI FERREIRA, CLINT EASTWOOD, CHRISTOPHER PLUMMER, ETC.

19. Qual a importância do esquecer, para a vida?

SE LEMBRÁSSEMOS DE TUDO, A VIDA SERIA BRUTALMENTE CONFUSA.  SE NÃO PUDÉSSEMOS ESQUECER  AS DORES E HUMILHAÇÕES, POR EXEMPLO, SERIA POUCO MENOS QUE IMPOSSÍVEL.

NUM CONTO, “FUNES O MEMORIOSO”, JORGE LUIS BORGES RELATA O CASO IMAGINARIO DE UM RAPAZ QUE DESENVOLVE UMA MEMÓRIA PERFEITA E PODE RECORDAR UM DIA INTEIRO DE SUA VIDA, DESDE O PRIMEIRO ATÉ O ULTIMO SEGUNDO,  MAS PARA ISSO PRECISA DE OUTRO DIA INTEIRO DE SUA VIDA, DO PRIMEIRO ATÉ O ÚLTIMO SEGUNDO.  OU SEJA, UMA IMPOSSIBILIDADE.  TERIA QUE PARAR O TEMPO (OU O MUNDO) PARA LEMBRAR-SE DE UM DIA… EM OUTRO CONTO, ESCRITO AOS 86 ANOS DE IDADE, BORGES RELATA O CASO DE UM ALEMÃO QUE COMPROU A MEMÓRIA DE SHAKESPEARE NUM BAR.  NO DIA EM QUE COMEÇOU A USÁ-LA, APARECEU ENTRE SUAS LEMBRANÇAS UMA CERTA MULHER RUIVA DE FORTE PERSONALIDADE QUE INTERFERIA COM AS DEMAIS LEMBRANCAS.  O ALEMÃO TINHA ACRESCIDO UM ELEMENTO ADICIONAL (A MULHER RUIVA, QUE VINHA DE SHAKESPEARE) À SUA PRÓPRA MEMÓRIA, E NÃO PODIA MAIS USÁ-LA CORRETAMENTE.  TEVE QUE REVENDER A MEMÓRIA DE SHAKESPEARE EM OUTRO BAR PARA PODER RECUPERAR SUA VIDA NORMAL.

POR OUTRO LADO, EMBORA DE ENORME CAPACIDADE, OS DEPÓSITOS DE MEMÓRIA DO CÉREBRO SÓ ADMITEM SUA UTILIZAÇÃO POR UM CERTO NÚMERO DE INFORMAÇÕES NA UNIDADE DE TEMPO (POR SEGUNDO, POR MINUTO, ETC.).  ISSO VARÍA DE PESSOA PARA PESSOA.  MAS É SÓ TENTAR APRENDER A LETRA DE UMA CANÇÃO ENQUANTO FAZEMOS CONTAS, TENTAMOS OUVIR UM COMPANHEIRO QUE NOS CONTA ALGUMA HISTÓRIA, QUEREMOS VER UM JOGO PELA TELEVISÃO E NOSSO SOBRINHO ESTÁ BRINCANDO DE ESCONDE-ESCONDE CONOSCO.   AQUELE DITADO DE “UMA COISA DE CADA VEZ”, TALVEZ TENHA MUDADO PARA “TRÊS COISAS DE CADA VEZ” NOS DIAS DE HOJE, OU PARA CINCO, MAS NÃO PARA DEZ  OU PARA CINQUENTA COISAS.   AS TORRES DE CONTROLE DOS AEROPORTOS, CHEIAS DE TÉCNICOS ESPECIALIZADOS E DE APARELHOS SOFISTICADOS, NÃO PODEM DAR CONTA DE MAIS DO QUE UM CERTO NÚMERO DE VOOS POR MINUTO. ACIMA DISSO, É UM PERIGO.

Da esquerda para a direita: Letícia Rossetto Daudt,Bia Makki Weinert, Heloísa Oro de Lírio e Arthur Sperry Appel, alunos do Centro de Ensino Médio Integrado UPF e Colégio Marista Conceição. Professor orientador José Renato Pádua, da Universidade de Passo Fundo.
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