Foram 69 horas de cárcere privado, o mais longo da história no Rio Grande do Sul. Desde que invadiu a pequena casa da rua 11, no bairro Guajuviras, em Canoas, Rodrigo Luciano Luz, 30 anos, aterrorizou sua ex-esposa, Josiane Pontes, e toda família, mobilizou a polícia e a imprensa e transtornou a vida de centenas de amigos e vizinhos.

Nós, jornalistas, ficamos a 60 metros de distância. Minha equipe chegou à rua 11 no sábado, por volta das 9 horas da manhã. A Brigada Militar estava no local desde as 5 e meia, depois de chamada pela família da moça. A princípio, Rodrigo não permitia que ninguém entrasse ou saísse da casa. Lá dentro, além de Josiane, estavam os dois filhos do casal: uma menina de 8 e um menino de 11 anos de idade.
O vigilante atirou quando percebeu a chegada da polícia. Acertou de raspão o pescoço do namorado da cunhada. O jovem tapou o ferimento com um band-aid. Teve muita sorte. Logo, as crianças foram libertadas e Rodrigo ficou mesmo apenas com o que queria: Josiane, indefesa, ameaçada por uma arma.
As horas passavam e o calor era escaldante. Para se proteger, apenas a sombra de uma árvore, disputada pela imprensa e por muitos curiosos. Os policiais não tinham escolha: ficavam no sol mesmo.
De repente, um barulho me chamou a atenção. Olhei para trás e vi uma cena inusitada. Um jovem dava piruetas de skate, bem no meio do povaréu, no meio da rua... Sem a menor noção.
E não era só isso: um senhor pilchado bebia algo, numa garrafa envolta em papel de embrulho. Um casal "passeava" com dois bebês. Duas jovens usando biquini conversavam animadamente, debruçadas num carro. Uma turma de garotos de bicicleta fazia gracinhas. Dezenas de pessoas admiravam os movimentos da polícia. "O senhor mora por aqui?", perguntei para um deles. "Ah, não, moro longe. Vim só ver o que está acontecendo". Posso apostar que mais de 90% das pessoas que se ajuntaram na rua 11 responderiam o mesmo.
A boateira corria solta. "Ela está amarrada a um botijão de gás", me segredou uma senhora. "Se acontecer qualquer coisa, ele vai tacar fogo e explodir tudo!" Finalmente, a Brigada decidiu desfazer o circo. No domingo, quando voltamos ao Guajuviras, a área de isolamento havia aumentado, afastando a curiosidade alheia também de parte da rua perpendicular.
Aquele foi um dia agitado: várias vezes Rodrigo havia sinalizado que iria se entregar. A polícia se posicionava... e nada acontecia. No fim da noite, cansado e abatido, o subcomandante-geral da Brigada Militar, Coronel Jones Calixtrato, dizia: "Ele é bipolar. Diz que vai se entregar e muda de idéia logo em seguida."

Meus tênis estavam encharcados. A chuva que caia não afastava o calor, o que nos obrigava a vestir e desvestir a capa de chuva a toda hora. O abrigo era a casa de Dona Zilá, que virou um verdadeiro quartel general da imprensa. Entrei pela garagem para não molhar o interior da residência e fui direto para a porta da cozinha, flagrando fotógrafos e cinegrafistas que se deliciavam com a comida da dona da casa.

Quase me obrigaram a "filar" o carreteiro de churrasco, delicioso. Não foi muito difícil depois do prolongado jejum. É, a autêntica mãe brasileira mora na rua 11.

Ao redor dela, filhos e netos comandados com mão de ferro. Não pense que a casa não tinha controle. "Aquele não entra aqui!", disse ela, apontando para um apresentador que já se preparava para usufruir dos seus préstimos sem ser convidado. Barrada também foi uma colega, conforme me contaram. Não sei de quem se trata, mas teria feito um comentário jocoso sobre os moradores do bairro. Para ela, dona Zilá não emprestou o banheiro. "Procura outro, minha filha. Aqui só tem banheiro de pobre".
Para os soldados da Brigada, o QG era a casa de dona Cláudia. Lá encontraram abrigo quando a chuva apertou, na tarde da segunda. Sim, tarde de segunda-feira, e nós ainda lá...
Alguns vizinhos, aos poucos, foram se sentindo mais confiantes para fazer comentários "em off". Rodrigo não era assim tão pacato como diziam. Já teria expulsado a tiros uma família que tentou invadir a casa onde Josiane morava, numa época em que o imóvel estava desocupado.
Para a polícia, Rodrigo tinha mesmo a intenção de matar Josiane. Apontou a arma para o peito da ex-esposa, ameaçando. Confundia o barulho dos gatos, em cima do telhado, com a movimentação de atiradores de elite que estariam prontos para matá-lo. Ouvia gente caminhando no pátio, onde não havia ninguém. Era, ele mesmo, refém da situação que criou.
Josiane foi sedada. Rodrigo a teria feito tomar tranquilizantes. Já o vigilante ficou 3 dias sem dormir. Oficiais que comandaram as negocições acreditam que ele tomou anfetamina, o popular rebite. O homem não dormia e não dava sinais de cansaço. Se comprovado, o uso desses medicamentos e a compra da arma com numeração raspada, 24 horas antes do crime, mostram que ele premeditou o que iria fazer com a ex-esposa.

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Esperar era a estratégia. Não havia prazo para resolver a situação. Enquanto isso, mesmo apavorada, Josiane conseguiu enviar mensagens de texto pelo celular sem que seu agressor percebesse. Em uma delas, contou que os contatos que fazia com a polícia eram odos ouvidos por Rodrigo, que colocava o telefone no viva voz. Na outra, revelou estar sendo torturada. "Mas vou ser forte e reagir na hora certa" escreveu, conforme me contou uma parente.
Já era noite e eu esperava por uma possível entrada ao vivo no JN, caso algo acontecesse. Havia alguma ação da polícia, como a que já tínhamos visto várias vezes durante aquele Carnaval: o pessoal do GATE se posicionava junto ao muro, próximo ao cativeiro, e o negociadores falavam ao telefone, movimentando-se na frente da casa. Mas parecia que não ia dar em nada e, depois do jornal, a equipe foi liberada.
Guardávamos o equipamento no carro quando escutei um murmúrio: "ele vai soltar ela, vai soltar!" Voltei para a rua, onde carros da polícia estavam posicionados, e os negociadores se aproximavam da casa. Dessa vez, era sério.
O final pareceu rápido, depois de tantas horas de espera. Ouvi alguns gritos e vi uma maca com alguém sendo levado para a ambulância do SAMU. Era Josiane, ilesa mas muito abalada. Depois, entre um bolo de homens do GATE vestidos de preto, Rodrigo foi levado para a viatura. Então, policiais comemoraram a ação bem sucedida. Fim de um drama. Começo de outro.
A história que continua é a de como a moça e sua família vão lidar com a agressão sofrida. De como o vigia vai ser punido, e o que isso vai mudar na vida dele e dela. Para os policiais que participaram do cerco, a paciência rendeu resultados louváveis. Para os vizinhos, a vida voltou ao normal. Para mim, além do cansaço e da sensação de ossos moídos, só a confirmação de uma certeza antiga: amor obrigado é coisa que não existe. Nem com jóias e flores, muito menos sob a mira de uma arma.