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Posts na categoria "Sem categoria"

Paul não está morto

29 de setembro de 2010 11

Beatlemaníacos de todo o país só têm uma dúvida hoje: como aguentar até o dia 7 de novembro. O show de Paul McCartney no Beira-Rio será uma celebração não apenas de um gosto musical, mas de uma profissão de fé. A beatlemania é um culto que se passa de pai para filho há mais de 40 anos. Por algum motivo difícil de explicar apenas musicalmente, as canções dos Beatles tocam e emocionam as crianças da mesma forma como tocam e emocionam os pais. Quem tem filhos pequenos e gosta da banda tanto quanto eu sabe do que eu estou falando. Os shows de covers dos Beatles em Porto Alegre estão sempre lotados de crianças que sabem as letras de cor e cantam com os pais. Professores de música trabalham as canções nas escolas. Meninos e meninas pedem o Rock Band Beatles de Natal para o seu Wii. Garotos de 12 anos trocam teorias a respeito da morte de Paul MCCartney como se o boato tivesse nascido na semana passada na Internet. Num mundo de valores cambiantes e paixões líquidas, os Beatles são um porto seguro de memórias afetivas que vão sendo recriadas ao longo do tempo. Paul, John, George e Ringo não ficaram nos anos 60. Eles renascem a cada novo ouvinte. Como explicar uma música que vai além da música? Uma paixão em comum entre gerações que têm tão poucas coisas para dividir? É o que muita gente vem tentando entender há anos, e que eu vou descobrir ao vivo no Beira-Rio – faça chuva, sol ou terremoto. É o show do século. Do meu século, pelo menos.

Tatit

25 de setembro de 2010 2

Sorte de quem foi ao show de ontem do Luiz Tatit no Teatro do Bourbon Country. Acho que nem ele esperava um público tão bom e devotado. Muito modestamente, fez propaganda dos disquinhos que estavam à venda no saguão e disse que ele e a banda estavam com medo de encontrar um teatro vazio. Muito antes pelo contrário. O maior sinal de que a plateia saiu satisfeita foi a fila para comprar o novo disco do compositor, Sem Destino, que se esgotou rapidamente. São tantas letras para se escutar com atenção que é difícil escolher uma, mas vai aqui a letra da música que abre o disco e o espetáculo, só para dar uma ideia de como foi boa a noite. No site (http://www.luiztatit.com.br/), você pode escutar essa e mais a linda “De Favor”, que ele cantou no show ao lado de Ná Ozzetti.

SEM DESTINO
Luiz Tatit

Tudo que era o meu destino
Na verdade nunca me aconteceu
Pode ter acontecido
Pra alguma pessoa
Mas não era eu
Vivo assim na vida sem previsão
Todo mundo tem destino, eu não
Nunca os fatos são de fato fatais
Não confio na fortuna jamais
Puro por acaso e nada mais

Tudo que já estava escrito
No meu caso nunca se concretizou
Só talvez o aniversário
Que é na mesma data

E não se alterou
Era pra eu já ter encontrado um amor
Era pra eu já ter esquecido o anterior
Era pra eu já ter aprendido a sonhar
Era pra eu correr o mundo e voltar
Mas viagem sem destino, não dá

Quero minha sina
Quero minha sorte
Quero meu destino
Quero ter um norte
Quero ouvir uma vidente
Que me conte tudo
Só esconda a morte
Quero uma certeza mínima
Que se confirme
Que não seja trote
Por não ter o meu destino

Vivo em desatino
Como D. Quixote

Quem não tem o seu destino
Chega a noite
Pensa que tudo acabou
Se levanta muito cedo
Nunca sabe bem
Por que que levantou
Nada tem urgência para cumprir
Pode virar do outro lado e dormir
Pode ficar nessa até o entardecer
Todos os amigos vão entender
Levantar sem ter destino
Pra quê?

Ser assim tão sem destino
Me preocupa muito

Me deixa infeliz
Sempre quis o meu destino
Foi o meu destino
Que nunca me quis
Mesmo algum sucesso que ele previu
Era pra me revelar, desistiu
Acho que ele foi atrás de outro alguém
Pois destino tem destino também
E só revela aquilo que lhe convém

O Brasil papai-e-mamãe

23 de setembro de 2010 3

Não que alguém ainda leve muito a sério as indicações do Brasil para a disputa do Oscar (nos últimos anos, a comissão de seleção tem sistematicamente errado na mosca), mas a unanimidade em torno de Lula – O Filho do Brasil mostra que existe uma assustadora falta de contraponto estético nesse barraco. A biografia de Lula certamente atrai a atenção internacional com um personagem que ultrapassa a esfera da política, mas será que a escolha do filme deveria se limitar a critérios “extra cinema”? Muita gente pode achar que sim, mas todo mundo? Unanimidade? Sério?

Lula é um filme em tudo convencional e papai-e-mamãe. Um “novelão” que não faria feio depois do Jornal Nacional. A competição de filmes estrangeiros no Oscar costuma ser bem mais ambiciosa do que isso, mas esse é apenas um detalhe. Minha bronca é com a falta de uma “classe artística” que buzine um pouco mais diante de certos fatos consumados e silêncios ensurdecedores. Nessa eleição, posso abrir o voto sem pudor: meu candidato era “Os Famosos e os Duendes da Morte”, de Esmir Filho, filmado aqui no Interior do Estado, com a ousadia e a ambição artística que eu gostaria de ver associadas mais frequentemente ao cinema brasileiro. 

Uma mulher, 97 mulheres: um homem

23 de setembro de 2010 1

Péter Esterházy (60 anos, mais de 30 livros publicados) é um autor húngaro pouco conhecido no Brasil, mas uma verdadeira celebridade literária em seu país (sim, trata-se de um país em que existem celebridades literárias) e um dos grandes autores europeus contemporâneos. Quando seu conterrâneo Imre Kertész ganhou o Nobel de Literatura, em 2002, muita gente apostava em Esterházy como o autor com mais chances de levar o prêmio. Uma Mulher, lançado há pouco pela Cosac & Naify, é seu primeiro livro publicado no Brasil e já dá uma ideia do que estávamos perdendo até agora. O livro é composto de pequenos contos que se iniciam sempre com variações sobre duas frases: “Há uma mulher. Ela me ama” e “Há uma mulher. Ela me odeia”. Essas frases aparentemente prosaicas são como átomos que geram a bomba atômica: a partir de um núcleo tão conciso, se constroem inifinitas cenas de amor, das mais sublimes às mais banais. As mulheres são 97, mas podem ser uma só: o leitor decide. A tradução primorosa, direto do húngaro, de Paulo Schiller valoriza a prosa ágil e absorvente do escritor. (Algumas vezes me peguei imaginando como funcionaria bem a leitura em voz alta dos textos, o que já diz muito sobre a qualidade do livro.) Impossível parar de ler.  

Paul in POA

21 de setembro de 2010 4

Não se fala em outra coisa nesta tarde cinzenta pós-feriado: Paul McCartney teria confirmado show em Porto Alegre em novembro, na abertura da sua turnê brasileira. A assessora Lea Penteado chegou a confirmar o show gaúcho pelo Twitter, mas voltou atrás algumas horas depois. Se confirmada, essa vai ser a atração musical da década em Porto Alegre, um evento quase místico, como a apresentação histórica do joão Gilberto no Araújo Vianna, em outubro de 1996. Paul MCCartney, como João Gilberto, não são apenas músicos. No palco, eles se transformam em entidades supramusicais, dada a carga de memória e de devoção de que são investidos. No caso de João Gilberto, toda a história da Bossa Nova, gênero que colocou nosso país no mapa cultural do planeta. No caso dos Beatles, uma história de adoração que não apenas se mantêm, mas cresce, atraindo adultos de diferentes gerações, crianças e adolescentes para a beatlemania, em uma combinação de inteligência de mercado (nunca faltam produtos novos para que os Beatles voltem às manchetes) com qualidade músical evidente.

Nessa entrevista para David Letterman no ano passado, Sir Paul mostra a ironia britânica de sempre e fala sobre a lenda de que ele teria morrido nos anos 60. Imperdível:

Feito pra acabar

17 de setembro de 2010 1

Hoje tem show do Marcelo Jeneci no Teatro Renascença, dentro da programação do Em Cena. (E tem ingresso ainda!) Comecei a prestar atenção nele depois de um espetáculo em que dividia o palco com o José Miguel Wisnik e o Luiz Tatit (outra atração do Em Cena deste ano). Se em música vale o conselho da vovó, “diz-me com quem andas e te direi quem és”, o Jeneci é um artista para se ficar muito de olho. (Ele é um menino ainda, com menos de 30 anos, e acaba de lançar o primeiro disco). Letras e melodias inteligentes – pérolas aos poucos.

Fiquei siderada naquele primeiro show por uma música chamada “Feito pra Acabar”, o nome do show de hoje, com letra do poeta e tradutor gaúcho Paulo Neves. Eita música linda, sô!

Dá uma olhada aqui:

 http://www.youtube.com/watch?v=UTqYSLjlE-8

E guarda a letra:

Feito pra Acabar

Quem me diz da estrada que não cabe onde termina
Da luz que cega quando te ilumina
Da pergunta que emudece o coração?
Quantas são as dores e as alegrias de uma vida
Jogadas na explosão de tantas vidas
Nesse escudo que não cabe no querer?
Vai saber se olhando bem no rosto do possível
O véu, o vento, o alvo, o invisível
Se desvenda o que nos une ainda sim
A gente é feito pra acabar
A gente é feito pra dizer que sim
A gente é feito pra caber no mar
E isso nunca vai ter fim.

Não vi, não gostei

16 de setembro de 2010 1

Curioso como o post anterior atraiu a atenção de quem não gosta de teatro – esta classe oprimida e silenciosa… Insisto que me parece sem sentido descartar qualquer forma de arte em bloco, tipo “não gosto de livros”, “não gosto de cinema”, “não gosto de teatro”. Na real, o que falta a essas pessoas, em geral, é uma experiência estética significativa que sirva como referência e, de alguma forma, sustente o desejo por novas leituras, novos filmes, novos espetáculos no teatro. Sem isso, realmente, não há como justificar que a gente se exponha a duas horas em um cinema ou em um teatro.
É comum que se subestime a importância de formar o gosto para apreciar qualquer forma de arte – como se o esforço, qualquer esforço, não valesse a pena. Mas o exercício de construir repertório é indispensável, por exemplo, para apreciar as obras de arte contemporânea mais radicais. Não que a gente vá gostar de tudo, mas sem ter “civilizado” o olhar de alguma forma, a tendência a dizer “não gosto de arte contemporânea” é muito grande. Vale o mesmo para o teatro, para o cinema não-comercial, para os livros mais empenhados.
Enfim, o papo já tá longo demais. O que eu queria dizer é basicamente o seguinte: o “não vi, não gostei”, em geral, quer dizer “tenho preguiça de ver”.

Idiota genial

15 de setembro de 2010 3

Em 2007, as sete horas de espetáculo do Theatre du Soleil, em um galpão na Zona Norte de Porto Alegre, passaram voando. Impossível convencer alguém que não gosta de teatro ou tem uma visão limitada, para não dizer tosca, do assunto (acho impressionante a arrogância de quem diz “não gosto de teatro”, como se fosse possível imaginar que alguém já foi exposto a todas as formas de teatro que existem, e portanto pode descartar o gênero como um todo. É ou não é estúpido isso?) Voltando ao assunto ou chegando a ele: as cinco horas de O Idiota, a atração mais aguardada do Em Cena, são dessas que se passa sem sentir o peso da jornada. É teatro da melhor qualidade – uma lição para encenadores veteranos e iniciantes (e para espectadores desses que dizem “odeio de teatro”) de que a alma desse gênero não está na superprodução, mas no talento para transformar um texto em movimento, em gesto, em uma outra coisa que vai muito além do texto. E olha que o texto aqui era de Dostoeivsky.

A dívida de gratidão da cidade ao Em Cena e mais especificamente ao Luciano Alabarse, que trouxe espetáculos de Nekrosius para Porto Alegre nada menos do que QUATRO vezes, é enorme. É um dos maiores encenadores contemporâneos. Em ação. E eu nem precisei ir para a Lituânia para assistir.

Gianetti, o cérebro e o Big Bang

14 de setembro de 2010 1

Gostei da palestra de ontem do Eduardo Gianetti no Fronteiras do Pensamento, mas saí com mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Estou lendo A Ilusão da Alma, o novo livro dele e base da palestra, e estou gostando, porque tem lá seus ecos machadianos (o personagem é um professor de literatura especialista em Machado) e porque esse assunto mezzo filosófico, mezzo científico sobre a consciência e as ideias que temos a nosso próprio respeito me interessam. Mas confesso que fiquei meio tonta com a palestra, sem entender muito a centralidade dessa disputa teórica entre fisicalismo e mentalismo. A discussão sobre “quem sou eu”, um monte de impulsos originados no cérebro ou “algo mais”, parece acabar num beco sem saída. Eu não acredito em alma e acredito que tudo no mundo, alguma hora, se depara com as leis da física, mas não acredito que um dia a gente vá conseguir decifrar todas as intricadas conexões do cérebro, assim como provavelmente nunca vai entender por que do nada veio o Big Bang. Sim, tudo é possível, e um dia a ciência, sei lá, pode chegar bem mais perto de todas essas respostas do que está hoje, mas eu tenho quase certeza de que não vou estar aqui para ver. De qualquer forma, acompanhar o percurso das perguntas já é bem divertido – de tédio, nenhuma pessoa realmente curiosa precisa morrer.

Para quem estranhou a ausência da coluna da semana passada no blog, um aviso: as colunas publicadas no jornal não mais vão aparecer por aqui (para ler online você precisa fazer uma assinatura online do jornal, ou ser assinante do papel).

Em compensação, prometo ser uma blogueira de verdade doravante, alimentando o blog mais frequentemente e com material exclusivo.

Porto sem horizonte

06 de setembro de 2010 1

Grandes e pequenas cidades brasileiras estão se agitando para a Copa do Mundo como as mocinhas de antigamente antes de um baile a rigor. Há um lufa-lufa de reformas, licitações, construções, discussões de projetos… A torcida, obviamente, já começou – e não apenas pelo sucesso da Seleção, mas para ver o país mostrar-se à altura das suas maiores ambições. Vai que é tua, Brasil.

Em um território abençoado por tantos quilômetros de litoral ensolarado, não é de se estranhar que alguns dos mais vistosos projetos de revitalização urbana estejam sendo instalados à beira d’água. Menos surpreendente ainda é o fato de que muitas prefeituras tenham previsto a instalação de teatros e museus como carros-chefes dessa repaginada geral da nação. A chamada “economia da cultura” – o negócio de ganhar dinheiro fazendo a inteligência, os olhos e o coração funcionarem mais aceleradamente – já movimenta cerca de 7% do PIB mundial. Nada mais natural do que juntar a fome com a oportunidade de banquete, usando os investimentos públicos e privados na preparação da Copa de 2014 para dar um empurrãozinho na economia cultural – que em todos os lugares do mundo gira melhor com uma mão do Estado e outra da iniciativa privada. O retorno vem mais rápido do que se imagina. Os exemplos de cidades que entraram no mapa (turístico, econômico e cultural) graças a um belo museu ou a um belo teatro são tantos, que nem vale a pena gastar linhas falando nisso.

No Rio, há dois belos projetos em andamento: na Praia de Copacabana, está sendo erguido o Museu da Imagem e do Som, projetado pela arquiteta americana Elizabeth Diller, e no Píer Mauá, na outrora abandonada área portuária, será instalado o ambicioso Museu do Amanhã, projeto do espanhol Santiago Calatrava. Em Vitória, no Espírito Santo, o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, um dos mais premiados e reconhecidos do país, projetou o Museu de Arte Moderna da cidade, na Enseada do Suá.

Enquanto isso, em Porto Alegre, parece que enterraram um sapo na nossa praia. No projeto apresentado esta semana para a revitalização da orla do Guaíba, não aparece nem teatro, nem museu, nem cinema, nem sequer uma concha acústica mixuruca. Mas alguém ainda se surpreende com isso? A regra na nossa cidade, nos últimos (muitos) anos, tem sido a seguinte: onde quer que seja necessário um debate público para tirar um projeto cultural do papel, os entraves se multiplicam e as ideias param ou não vão adiante. O retrato desse empacamento endêmico são as continuamente adiadas obras do novo Teatro da Ospa – um monumento à nossa falta de empenho e ao nosso desinteresse pelos empreendimentos culturais da cidade. (Uma bem-vinda exceção: a parceria entre a administração municipal e a iniciativa privada para devolver à cidade o Auditório Araújo Vianna. Por que não tiveram essa ideia antes?)

O teatro que não sai do papel, o novo cais que não prevê teatro nem museu e a ausência de políticas culturais públicas de longo prazo no Estado são todos sintomas de um mesmo mal: encolhimento agudo de horizontes. Nesse ritmo, vamos chegar a 2014 ainda menores do que em 2010.