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Posts do dia 29 abril 2010

Esse acordo é um desacordo

29 de abril de 2010 2

Muita gente, empresas, escolas, enfim, quem de uma forma ou de outra mexe com as palavras já aderiu ao acordo ortográfico. Outros estão deixando o barco seguir o curso e só vão escrever conforme as novas regras quando as grafias entrarem em vigor definitivamente, em 2012.

Por dever de ofício, costumo estudar os dicionários, gramáticas, enfim, material que vai me ajudar quando surgir aquela dúvida na hora de escrever ou revisar um texto. Atualmente, estou dando uma comparada no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” (“Volp”, para os íntimos), da Academia Brasileira de Letras (ABL), considerado o documento oficial quando se trata da grafia das palavras, e o “Dicionário Aurélio” eletrônico, já atualizado. E foi num desses momentos que descobri algo um tanto decepcionante: esse acordo é realmente um desacordo.

Vocês têm uma ideia (olhem aí uma palavrinha que mudou) do que mais está causando complicação nesse tal acordo? Quem respondeu que é o hífen acertou na mosca.

Pois bem, vamos aos fatos. Uma das novas regras do hífen diz que quando uma palavra tem um prefixo cuja última letra coincida com a primeira da palavra seguinte, aplica-se o hífen. Exemplificando: anteriormente, se escrevia microondas, palavra composta pelo prefixo micro mais o substantivo ondas. Como micro termina com a letra “o” e ondas começa com a mesma letra, as duas palavras são, agora, separadas pelo famoso tracinho. O mesmo vale para inter-regional e arqui-inimigo, por exemplo. Se fosse só isso, seria fácil de entender, não é mesmo?

Mas aí alguém quis ser mais realista que o rei e inventou uma regra muito subjetiva para o hífen (não necessariamente para o caso dos prefixos). Segundo essa regra, não será mais usado o hífen naquelas palavras que “perderam a noção de composição”. Com uma coisa “tão simples” assim, para que um acordo? Ora, nem o mais letrado dos gramáticos consegue explicar essa regra esdrúxula. Quando saber que uma palavra perdeu a tal noção de composição? Acredito que isso seja mais uma questão de interpretação do que gramatical, afinal, cada um pode ter uma percepão diferente.

Achou que ficou complicado, certo? Mas não há nada que não possa ser piorado. Explico: como lhes disse no começo destas mal traçadas linhas, costumo consultar mais de uma fonte. O que descobri é de dar nó no cérebro. Tudo porque as fontes são dissonantes em algumas palavras, até aquelas de uso comum.

Vamos a alguns exemplos de palavras que são escritas de formas diferentes (palavras em vermelho são do “Aurélio” e as azul são do “Volp”):

dia-a-dia | dia a dia

lua-de-mel | lua de mel

parachoque | para-choque

parabrisa | para-brisa

água-de-coco | água de coco

O problema é saber qual deles seguir. Afinal, se o “Volp” é o mandachuva (agora é assim que se escreve), seja isso para o bem ou para o mal, o “Aurélio” é muito respeitado e por isso é um dos dicionários mais consultados. Fica uma situação complicada de se resolver. Talvez tenha faltado, por parte da ABL, apesar do tempo em que ficou em discussão, ouvir mais os interessados. E se o objetivo do acordo era unificar a língua com outros países lusófonos, o fato de ter “dissidência” no próprio quintal indica um mau começo.

Já que falei de “mandachuva”, que agora se escreve “tudo junto”, como se diz por aí, quero fazer uma comparação bem simples com guarda-chuva (“tudo separado”) para mostrar a infelicidade que foi inventar a tal noção de composição. As duas palavras têm basicamente a mesma estrutura: são substantivos compostos formados por verbos (manda e guarda) e mais um substantivo (chuva). Então, como explicar que uma é separada por hífen e a outra foi aglutinada? Pior: que argumentos terá o professor de língua portuguesa ao repassar a lição? Uma resposta, por favor.

Por enquanto, é só, pessoal. Espero em breve dar uma bisbilhotada no “Dicionário Houaiss”. Qualquer coisa, conto para vocês.