Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts do dia 26 novembro 2010

Cinco anos da Batalha dos Aflitos - Por um colorado fanático

26 de novembro de 2010 55

AVISO DO BLOGUEIRO: Leia este longo post com atenção, até o final. Comentários sem noção serão sumariamente deletados. E ninguém aqui duvida de qual time eu torço, basta ver que sou ex-funcionário e que estou em uma das nominatas que concorrem ao Conselho Deliberativo do Internacional.

Considero este um desafio no Almanaque Esportivo, escrever minhas impressões sobre a Batalha dos Aflitos em uma ótica de um torcedor rival. Afinal, todo mundo já leu muita coisa sobre este assunto.  Porém acredito que tenha prestado um ótimo serviço à comunidade esportiva do estado e do país com textos diferentes nos mais de mil posts ao longo dos mais de 3 anos aqui no clicRBS. Agradeço aos milhões de pageviews e aos milhares de comentários o longo deste tempo que me fizeram valer a pena continuar escrevendo.

ANTES do 26/11/2005:

Depois de escapar por pouco da Segunda Divisão em 2003, o Grêmio acabou caindo em 2004, fechando a “Era Obino” no pior ano de sua história com uma ridícula campanha no Brasileirão, terminando em último lugar com 25 derrotas em 46 jogos. Um clube com sérios problemas financeiros, redução da cota de TV com o rebaixamento, torcida ausente e um arremedo de grupo para o ano de 2005, com um novo velho presidente, o corajoso Paulo Odone.

O início do ano foi um desastre, com Hugo de León de treinador e Mário Sérgio em um esdrúxulo cargo de gerente de futebol. O time fez fiasco no Gauchão e foi eliminado rapidinho da Copa do Brasil. Vindo do Caxias, Mano Menezes assumiu dias antes da estréia na Série B, um 1×2 contra o Gama em Brasília.

O time alternou altos e baixos ao longo da primeira fase, se mantendo invicto por oito jogos e depois levando 4×0 da Anapolina em Anápolis. Mano Menezes ficou ameaçado de demissão se perdesse o jogo que o Grêmio virou para 4×3 sobre o Ceará no Castelão (com direito a 2 gols contra do mesmo jogador do Ceará, Victor Boleta). Isto seguido de um horroroso 1×1 com a União Barbarense quando o Mano não colocou nenhum atacante nato em campo.

Mesmo assim, e com uma preciosa reformulação do elenco ao longo da Série B, a classificação foi tranquila e o Grêmio chegou ao primeiro quadrangular com a quarta melhor campanha. Atropelou nesta fase Avaí e Santo André, indo para o quadrangular final ao lado do também favorito Santa Cruz…

DURANTE O QUADRANGULAR:

O Grêmio é um dos gigantes do futebol brasileiro. Nem deveria ter caído, mas já que caiu, deveria subir com sobras, como Corinthians, Vasco e Atlético-MG fizeram. Nem a questão do regulamento da Série B ser diferente na época vale, pois Palmeiras e Botafogo também subiram com facilidade em 2003.

O problema é que o Mano Menezes era muito inseguro na época e o Grêmio, sendo tecnicamente o melhor time ao lado da Portuguesa, jogava de maneira covarde fora de casa. Cada jogo como visitante foi um terror de 2005 a 2007. Pra mim o Grêmio tinha que ter atropelado todo mundo, subido com folga. Não o fez e isto gerou a existência da “Batalha dos Aflitos“.

No quadrangular final, as coisas começaram bem com um suado 1×0 sobre o Náutico, gol marcado no último minuto por Domingos. Depois, um empate com o Santa Cruz em Recife, gols de Carlinhos Bala e Lipatin (para o Grêmio).  E então vieram os jogos que fizeram a diferença, contra a Portuguesa. Os jogos das oportunidades desperdiçadas

O Grêmio no Canindé vencia por 2×0, cedeu o empate e a Lusa ainda perdeu dois jogadores expulsos. Nem assim o Tricolor selou a vitória, jogando muito mal no 2° tempo. Já no Olímpico entupido foi o contrário, saiu perdendo de 2×0 e arrancou um empate heróico, mas tropeçou em casa com um atuação ruim que deixou a torcida preocupada. Contra o Santa Cruz não teve choro, 2×0 ao seu favor em um jogo que a jóia gremista Anderson foi inexplicavelmente reserva de Lipatin, para desespero de 50 mil gremistas que superlotavam o estádio da Azenha.

Para a última rodada, um empate servia contra o Náutico. Pela terceira vez em três jogos, Mano jogaria em um retrancadíssimo esquema. Seria o 4-4-2 com Anderson de novo no banco, desta vez de Ricardinho e Marcel. Se o Santa Cruz vencesse a quase eliminada Portuguesa (a poucos quilômetros dali, no Arruda), o Grêmio precisava ao menos de um empate.

O JOGO EM RECIFE:

Ao contrário de quase todos os jogos entre 2005 e 2009 quando morávamos juntos, vi este jogo em casa, no quarto de cima enquanto meu pai gremistão via na parte de baixo da casa, muito nervoso. Mais uma vez, o Grêmio jogou na retranca. Teve pouquíssimas chances de gol, enquanto o Náutico esbarrava em sua ruindade e no bom controle de jogo do Grêmio. Aos 30 minutos, penalidade idiota de Domingos para o Náutico. o experiente Bruno Carvalho bateu na trave. O gol perdido não melhorou o ânimo pernambucano, mas o Grêmio continuou muito atrás.

No segundo tempo, depois de Ricardinho sair machucado e entrar o volante Lucas (Leiva, ele mesmo!), o Grêmio ficou ainda mais recuado. Anderson entrou no lugar de Marcel, mas o time continuou defensivo. O Náutico enfim começou a atacar com alguma qualidade e ter chances. Já aos 30 minutos do segundo tempo, pênalti claro de Galatto que o árbitro Djalma Beltrami não marcou para o Náutico. Escalona ainda seria expulso corretamente, deixando o Grêmio com 10 jogadores.

Porém logo depois, o juiz carioca (pavoroso, conseguiu se complicar em uma disputa de pênaltis naquele mesmo ano entre Paulista e Inter na Copa do Brasil), inventou um pênalti. O volante Nunes supostamente teria colocado a mão na bola. Porém foi sem intenção e fora da área, ou seja: penalidade totalmente inexistente.

O Grêmio foi pra cima do árbitro, Patrício empurrou o juiz, assim como Nunes e estes foram expulsos. Depois,  Marcelo Costa o chutou por baixo mas o juiz não expulsou antes de chamar a Polícia Militar (OBS: ele também é policial, Tenente-Coronel da PM-RJ). Os policiais agiram com violência e agrediram Patrício e o pandemônio se instaurou nos Aflitos. Dirigentes invadiram o campo, torcedores, o jogo parou por 20 minutos.

Quando tava quase tudo serenado, o Grêmio já com 3 a menos, Domingos descontrolado tira a bola do local na cobrança e é igualmente expulso, deixando o Tricolor com sete atletas. Meu pai, no andar de baixo, teve um princípio de ataque furioso e queria espancar todos os expulsos, xingando muito e dizendo que eles não mereciam sair vivos do clube. Domingos destruiu o vestiário, revoltado com a situação geral, com seu comportamento e com o quase inexorável fim do sonho da volta imediata à Série A

Completamente gelado, Galatto espera o inexperiente Ademar bater o pênalti, já que Kuki amarelou e Bruno Carvalho já tinha sido substituído. Então o goleiro tricolor se eterniza ao pegar a cobrança, batida no meio do gol, com os pés…

Galatto entrando na eternidade do futebol brasileiro - Ricardo Duarte/grupo RBS

Mas ainda faltavam 10 minutos, o Grêmio com quatro a menos (Escalona, Patrício, Nunes e Domingos). Mas então a genialidade de Anderson resolve tudo: ele cava a expulsão de Batata (aquele, ex-Corinthians) e marca na saída de bola um golaço, Grêmio 1×0. Precisando fazer 2 gols, o Náutico sucumbe ao desespero e não tem mais chance alguma.

Fim de jogo, Grêmio de volta à Série A!!!!


DEPOIS DAQUELE JOGO:

Muito choro no vestiário, a cena famosa da reza reproduzida aqui. Lembro que tinha um jantar à noite na Cidade Baixa e o clima era de festa em Porto Alegre, foguetório e gente nas ruas em euforia generalizada, ainda em catarse pelo que havia ocorrido.

Reza após a partida - Ricardo Duarte/grupo RBS

O time inteiro foi recebido com uma enorme festa em Porto Alegre, do Aeroporto ao Olímpico. Obviamente eu estava puto da cara com tudo aquilo e pensava: “assim não, né? Pô, fiquei o ano inteiro preparado para a inexorável subida deles à Série A, mas não deste jeito maluco!”

Um amigo colorado enlouqueceu quando o juiz marcou o pênalti e comemorava antecipado. Por algum motivo, eu fiquei frio, talvez por adivinhar que o Náutico podia desperdiçar de novo. Depois do cara errar o pênalti, obviamente tive um ataque histérico mas em silêncio total. Só ouvia meu pai gritar absurdamente na sala.

Depois do jogo, resolvi ir para internet me acalmar. Sabem o que eu fiz? ENTREI NA COMUNIDADE DO NÁUTICO. O mínimo que eu via lá era que o time tinha que fechar. Era até divertido, eu ria de nervoso e de raiva.

Ainda mais que não havia digerido ao longo daquela semana o jogo Corinthians 1×1 Internacional (sim, o do pênalti no Tinga) e as roubalheiras que ocorreram na Série A daquele ano. A sensação ia piorar com a frustração pelo final do Brasileirão de 2005, mas isto é outra história…

O grande impacto ocorreu em duas frentes: anímica e financeira. No espírito dos gremistas, a queda antecedia um período de glórias. Uma espécie de expurgo pelos nefastos anos de José Alberto Guerreiro e Flavio Obino, com uma glória isolada de Copa do Brasil em 2001. As vendas de produtos se multiplicaram, a média de público disparou (fiz uma análise e ela era melhor inclusive que as da Libertadores de 95 e 96), o orgulho retornou.

A grana também voltou. Sem receitas, o presidente Paulo Odone superlotava o Olímpico em 2005 pois precisava do dinheiro vivo das bilheterias (que não ia para penhoras judiciais) para pagar os atletas. Foi uma medida acertadíssima, ele mesmo disse que torcia para nada errado dar no estádio superlotado (contra o Santa Cruz tinha mais gente que em qualquer jogo da década) em uma famosa entrevista no Bate-Bola da TV-COM no domingo seguinte. .

Já o Vice-Presidente de Finanças  Túlio Macedo, com o seu habitual exagero, acreditava que o Grêmio fecharia se não subisse pois as cotas do Clube dos 13 diminuiriam ainda mais para 2006 sem a promoção à Série A. Não chegaria à tanto, mas se a situação ainda é delicada hoje, imaginem se a volta para a Primeira Divisão não tivesse ocorrido?

E olha que foi o próprio Túlio Macedo o principal mentor do “Condomínio de Credores“, medida que salvou as finanças do Grêmio renegociando dívidas altíssimas e históricas do clube.

O impacto financeiro da volta foi impressionante. O Grêmio teria média de público alta ao longo de todo o ano de 2006 e início de 2007. Seria bicampeão gaúcho e vice-campeão da Libertadores em 2007. Fora de campo, o clube largou o amadorismo completo e se reestruturou, voltando a priorizar as categorias de base esquecidas na “Era Guerreiro” e também no período falido da “Era Obino”.

O Grêmio voltou a ser postulante em quase todas as competições, ainda sem resultados imediatos. Uma hora, acerta.

OS ANOS SEGUINTES:

Para mim, neste momento ocorreram aspectos nefastos para o Tricolor, resumidos abaixo e explicados com detalhes na sequência:

1°) Supervalorizou-se ao extremo o jogo da “Batalha dos Aflitos”, como o mais importante jogo da história do Grêmio. Isto foi refletido em “viradas imortais” contra times fraquíssimos ao longo dos anos seguintes, que ganharam contornos épicos quando na verdade nasciam de vexames ou quase isto do Grêmio nos jogos de ida.

2°) Se criou, principalmente nos torcedores mais jovens que não viveram os anos 90, uma era de endeusamento de jogadores tecnicamente fracos como Patrício e Sandro Goiano. Para quem teve Arce e Dinho, me parecia um absurdo continental. Um exagero em prol de times raçudos, ignorando totalmente aspectos técnicos.

1°) Exagero na valorização da Batalha dos Aflitos

Para mim foi uma questão política, pois Odone não conquistou títulos expressivos e via o rival Inter campeão da América e do Mundo. Ao longo dos últimos anos de sua gestão (até 2008), as comemorações da Batalha dos Aflitos superaram e muito as do Mundial, que ocorrem quase na mesma época.

No site oficial isto fica claro, reparem a diferença da cobertura pela Libertadores de 95 e da Série B 2005:

Campanha do Grêmio na Libertadores 95 no site oficial:

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=libert_1995&language=0 – Resumo

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=libert_campanha95&language=0 – Campanha

Campanha do Grêmio na Série B 2005 no site oficial:

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=jogos_1ao5&language=0 – Jogos 01 ao 05

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=jogos_6ao10&language=0 – Jogos 06 ao 10

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=jogos_11ao&language=0 – jogos 11 ao 15

http://www.gremio.net/page/view.aspx?i=bras_sb05&language=0 – Campanha

http://www.gremio.net/news/view.aspx?id=1073 – Matéria especial

O fato é que ocorreu um exagero. Mesmo sendo uma partida histórica, não pode ser o “maior jogo da história do Grêmio ou do futebol“, como vi centenas de vezes dirigentes daquela gestão dizerem. Deixem isto para folcóricos como o escritor Eduardo Bueno, o Peninha.

Não pode se tornar uma política estratégica do clube. Nada é maior que conquistar a América e o Mundial. Dentro do seu contexto, aquela partida foi inesquecível, mas acabou ali e no ano seguinte.

Não se pode falar nem de brincadeira uma coisa destas. E esta opinião não é isolada. Meu pai mesmo sempre diz que se o Galatto não pega o pênalti, o resto do time ia apanhar no Aeroporto. Alguns amigos gremista igualmente não compactuam com este “endeusamento” da partida de 2005.

O Grêmio teve vitórias imortais quando segurou o Palmeiras com 2 a menos na Copa do Brasil de 95, quando bateu o Flamengo no Maracanã entupido em 97. Quando fez gol no finalzinho e foi campeão contra a Portuguesa em 96 ou arrancou um título dramático contra o Peñarol em 1983. Mas não ir para a Goethe por golear o Caxias em casa, né? Ou diz que o Boca é um “Caxias com grife”

2°) O Grêmio deixou de priorizar a qualidade.

A prova disto são os times montados desde 2006 até 2009, quase todos com poucos jogadores de talento. A torcida se acostumou com jogadores médios e muito raçudos, como Patrício, Gavilán, Sandro Goiano, Domingos, etc e esquecia de que a técnica tem que estar sempre aliada à raça. Mesmo jogadores de boa qualidade, como Tcheco, foram incensados a um patamar incompatível com o futebol apresentado.

Eventualmente times assim foram longe, principalmente na Libertadores de 2007, mas as sérias deficiências em quase todos setores acabavam pesando perante individualidades de maior talento.

Talvez somente em 2010 percebi uma busca maior pela qualidade no Olímpico. Jogadores com pouca ou nenhuma raça, como Gabriel e Douglas, se sobressaem tecnicamente no Tricolor, considerado um dos melhores do pais por quase todo o ano, exceto nos meses de julho a setembro (o final da “Era Silas”). Esta opinião foi defendida por mim aqui várias vezes ao longo deste ano.

Fora, vozes até de certa forma isoladas ao longo destes anos. Mas com o tempo, o impacto da “Batalha dos Aflitos” diminui entre os torcedores e a exigência por mais e mais qualidade, resultados retorna.

No fundo, olhando em perspectiva nestes cinco anos, acredito que tenha sido bom para o Internacional o retorno do Grêmio. Em 2004, quando ainda trabalhava no clube, percebi que o pessoal do clube (especialmente no futebol) nivelava por baixo. Não à toa, o Inter fez sua campanha mais difícil na “Era Pontos Corridos”, precisando vencer oito em dez jogos pra terminar em 9° lugar.

Acredito que a direção colorada teria se acomodado com um Tricolor ainda mais afundado em 2006, ao invés de se manter sempre alerta e cobrada pelo sucesso do rival. Duvido até que Alex e Nilmar, por exemplo, tivessem sido mantidos no clube em agosto de 2008 se então o líder do Brasileirão, disparado, não fosse o Grêmio.

Quanto aos gremistas, comemorem muito e principalmente lembrem

- De não deixar as coisas desandarem a tal ponto de retornar àquela situação.

- De não desperdiçarem chancs de não complicarem as coisas.

-E, na minha opinião, de nunca esquecerem que o melhor quase sempre vence, mesmo no futebol.

Priorizar a qualidade é mérito.

E os gremistas sempre foram exigentes demais.

Isto deixa todos entendendo o que eu quero dizer.