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SETEMBRO NEGRO: 40 anos do massacre nos Jogos Olímpicos de Munique

05 de setembro de 2012 3

Há 40 anos, o dia 05 de setembro de 1972 entrou para a história das Olimpíadas e do esporte mundial. Infelizmente pelo motivo mais sombrio: a morte de onze atletas israelenses em um ação terrorista que, pela primeira vez, capitalizou a mídia como agente de exposição de uma operação

Foi nesta data que oito terroristas palestinos razoavelmente treinados e muito dedicados invadiram a Vila Olímpica de Munique e sequestraram nove atletas israelenses, matando outros dois deles no início do incidente. Na desastrada tentativa de resgate do atletas, todos os sequestrados morreram assim como cinco criminosos e um policial alemão-ocidental.

A vigésima Olimpíada da Era Moderna, conhecida até então pelo slogan “Jogos Felizes” e que marcaria época pelas sete medalhas de ouro de Mark Spitz na natação, se tornava um doloroso drama de 21 horas com um trágico desfecho.

Para entender tudo isto, o Almanaque Esportivo faz uma recuperação de todos os fatos envolvidos neste atentado terrorista que marcou os Jogos Olímpicos de Munique em 1972 na então Alemanha Ocidental. Sem dúvida, a maior tragédia olímpica já ocorrida na Era Moderna.

Munique

Antes, Durante e Depois.

PRÓLOGO

Em setembro de 1970 ocorreu uma frustrada tentativa de golpe de estado na Jordânia contra o Rei Hussein II, comandada pela então terrorista OLP (Organização da Libertação Palestina). Na ocasião, o rei jordaniano iniciou uma campanha contra militantes políticos palestinos no país. Aliás, Hussein II foi o único líder árabe a condenar veementemente a ação terrorista nos Jogos de Munique.

Em resposta à repressão de estado jordaniana, foi criada a organização paramilitar “Setembro Negro“, comandada por membros da Fatah (organização comandada por Yasser Arafat), contando com o apoio de membros da As-Sa’iqa e OLP. O terrorista Mohammed Daoud Oudeh foi o mentor intelectual das ações da organização. De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o “Setembro Negro” era um braço extremista da Fatah, que estava ciente de suas atividades.

Entre seu estabelecimento, em meados de 1971, até o “Massacre de Munique“, como ficou conhecido o incidente nas Olimpíadas, o “Setembro Negro“capitaneou ações como cartas-bomba para autoridades diplomáticas israelenses, sequestro de aviões, tentativas de assassinatos contra oficiais jordanianos e ainda o assassinato do primeiro-ministro jordaniano Wasfi Tel em 1971. Depois do atentado em Munique, outras ações continuaram a ocorrer até seu desmantelamento no final de 1974.

O INCIDENTE

Às 4 horas da madrugada do dia 05 de setembro de 1972, oito terroristas do Setembro Negro entraram na Vila Olímpica vestindo abrigos esportivos e mochilas. Inadvertidamente, dois membros da delegação norte-americana ajudaram os mesmos a escalar os muros da Vila, que não tinha praticamente nenhuma segurança naquele local. Eles pensavam que, assim como eles, eram atletas voltando das festas após o horário previsto de fechamento da Vila Olímpica.

Ao invadirem o apartamento 1 do prédio destinado à delegação de Israel, foram vistos pelo juiz de luta-livre Yossef Gutfreund, que percebeu os atacantes com máscaras e gritou para alertar seus colegas. Além disto, ele usou seu corpanzil de 130kgs para detê-los à porta, o que permitiu a fuga do seu colega Tuvia Sokolovsky.

Subjulgado, Gutfreund foi ferido pelos atacantes, enquanto o também treinador Moshe Weinberg levou um tiro no rosto. Este levou os invasores para o apartamento 3 repleto de lutadores e halterofilistas, pulando o apartamento 2 (o qual também tinha atletas israelenses de atletismo, tiro ao alvo e esgrima), pois provavelmente achou que os primeiros poderiam fisicamente ser mais capazes de deter os terroristas.

Na luta após invadir o apartamento 3, no qual todos os seis atletas dormiam, o halterofilista Yossef Romano foi assassinado ao tentar render um dos atacantes. Weinberg tentou novamente atacar os invasores mas foi metralhado e também morreu. Na confusão, o igualmente halterofilista Gad Tsobari conseguiu fugir pelo estacionamento.

Os nove reféns restantes, incluindo o técnico de esgrima André Spitzer (que tinha acabado de chegar à Vila Olímpica), foram detidos pelos terroristas. Eles exigiam a libertação de 234 prisioneiros da OLP detidos pelo governo israelense além de dois radicais alemães, Andreas Baader e Ulrike Meinhof (do extremista grupo alemão Baader-Meinhof).Não negociamos com terroristas“, foi o retorno da Primeira-Ministra israelense Golda Meir.

A foto abaixo, do fotógrafo Kurt Stumpf, imortalizou o incidente.

Massacre de Munique - 5/09/1972 - KURT STRUMPF/AP reprodução www.thetimes.com

O chefe da delegação egípicia A.D. Touny e membros da Liga Árabe negociaram com os terroristas palestinos, prometendo “muito dinheiro” em troca da libertação dos reféns, algo rejeitado por eles. Em um impasse diplomático, os alemães-ocidentais organizaram uma pífia tentativa de resgate na tarde do dia 05 de setembro.

Quando os policiais, vestidos de abrigo esportivo, estavam quase entrando no prédio, os terroristas avisaram que estavam vendo tudo pela televisão e que qualquer tentativa de invasão resultaria na eliminação imediata dos reféns.

Um novo plano, enfim, foi definido pelos alemães-ocidentais, após as exigências dos palestinos de irem para o Cairo, capital do Egito.  As especializadas forças armadas alemães não podiam intervir, pois a Constituição Federal pós-guerra impedia o uso do Exército contra civis. Sobrou para a Polícia de Munique e o Governo da Baviera resolverem o incidente terrorista.

Era melhor que não tivessem feito, pois foi uma sucessão de equívocos trágicos. Nem de propósito, as autoridades alemãs-ocidentais cometeriam tantos erros graves de planejamento, estratégia e operacionais.

O primeiro passon foi posicionar um Boeing 727 na pista militar de Fürstenfeldbruck. Bizarramente, as autoridades alemãs-ocidentais prepararam uma tentativa de resgate com apenas cinco atiradores mal-treinados e pessimamente equipados, sem rádio e comunicação centralizada, tampouco tropas de assalto. Aliás, nem atiradores de elite os policiais eram: apenas oficiais que estavam em um torneio de tiro naquele final de semana.

Apenas no transporte da vila Olímpica de ônibus para dois helicópteros, se percebeu que, além dos nove reféns haviam mais terroristas do que o inicialmente observado: oito ao invés de cinco. Para piorar, os helicópteros ao descerem em Fürstenfeldbruck ficaram mal posicionados e, sem ângulo de tiro, dois atiradores ficaram impossibilitados de agir.

No Boeing deveriam estar 16 policiais alemães, que iriam atacar os terroristas assim que eles subissem na aeronave. Porém este agentes desistiram da ação sem comunicar o comando central da crise, ao concluírem que a ação não estava bem planejada. O comando central (composto por 2 políticos e 1 chefe de polícia), por sua vez, ‘esqueceu’ de pedir apoio terrestre blindado e, quando o fez, o mesmo ficou preso no tráfego, chegando somente à meia-noite, depois de ter começado o tiroteio.

três terroristas subiram na aeronave, totalmente vazia, e viram que tinham sido enganados. Um tiroteio começou e dois palestinos foram mortos. Logo depois, outro saiu correndo na direção de um dos atiradores e também foi morto, o único tiro disparado por este “sniper” em todo o incidente. No meio do caos, os oficiais israelenses do MOSSAD (serviço de inteligência de israel) tentaram negociar mas levaram tiros em sua direção.

Com a chegada dos blindados, os terroristas se apavoraram e um deles metralhou o helicóptero com quatro reféns, também jogando uma granada que explodiu a aeronave. Morriam Berger, Friedman, Halfin e Springer. Depois, outro terrorista metralhou os reféns do outro helicóptero, matando Gutfreund, Shapira, Shorr, Slavin e Spitzer.

Um dos atiradores alemães e um dos pilotos ficaram feridos por ‘fogo amigo’, já que não conseguiam se comunicar com seus companheiros. O policial alemão Anton Fliegerbauer morreu de bala perdida (ele estava na torre de controle aéreo) e um total de cinco terroristas foram mortos. Um deles tentou fugir e outros três foram presos. O fugitivo acabou morto 40 minutos depois em um combate com as forças de segurança alemãs-ocidentais.

AS VÍTIMAS:

Kehat Shorr, atirador

Yossef Romano, halterofilista

David Berger, halterofilista

Ze’ev Friedman, halterofilista

Jacov Springer, juiz de halterofilismo

Mark Slavin, lutador

Eliezer Halfin, lutador

Moshe Weinberg, técnico de luta

Yossef Gutfreund, juiz de luta

Andre Spitzer, técnico de esgrima

Amitzur Shapira, técnico de atletismo

Anton Fliegerbauer, policial alemão

EPÍLOGO

  • Os jogos só foram interrompidos 12 horas após o início da crise. E continuaram no dia seguinte ao massacre. Um Memorial foi realizado no estádio Olímpico de Munique no dia 7 de setembro, envolvendo três mil atletas e 80 mil espectadores. As bandeiras dos países envolvidos nos Jogos de Munique ficaram a meio-mastro, porém dez nações árabes exigiram que ficassem no topo, o que acabou sendo realizado.
  • Em solidariedade, o restante a delegação israelense deixou Munique, assim como a Argélia, Filipinas e Egito, este sob medo de represálias. Dezenas de atletas de outros países também deixaram a competição, com medo ou em solidariedade aos mortos. Wilma van Gool, corredora holandesa, deixou claro ao abandonar Munique: “Vou embora devido à obscena decisão de continuar com os Jogos”.
  • Pouco mais de um mês após o incidente em Munique, outro avião foi sequestrado pelo “Setembro Negro“, que exigiu a libertação dos três terroristas detidos. Isto acabou sendo feito, para fúria do governo israelense.
  • Em contra-partida, a Primeira-Ministra Golda Meir autorizou secretamente a criação de uma força-tarefa que recebeu a missão de identificar e matar todos os terroristas capazes de atos como estes.
  • A controvertida missão recebeu o nome de “Operação Ira de Deus” e teve muitos dos seus aspectos mostrados no filme “Munique“, de 2006 do diretor Steven Spielberg.
  • Uma sub-missão, chamada de “Operação Primavera da Juventude“, concebeu um assalto e posterior explosão de dois prédios que continham dezenas de terroristas e civis em Beirute. O líder da OLP, Yasser Arafat, e o próprio Hassan Salameh estavam próximos dos prédios bombardeados.
  • Na “Operação Ira de Deus” dezenas de terroristas foram assassinados pelo MOSSAD, assim como contatos comerciais e militantes políticos.
  • Um inocente garçom marroquino confundido com o líder máximo do Setembro Negro, Ahmed Bouchikhi, foi assassinado por tropas do MOSSAD em Lillehammer, na Noruega no ano de 1973. Os agentes envolvidos foram presos pela polícia norueguesa e condenados por homícidio, posteriormente deportados para Israel. Bouchiki era irmão de Chico Bouchikhi, um dos integrantes originais da banda Gipsy Kings.
  • Este epílogo foi um desastre para o MOSSAD na Europa, pois os membros presos colocaram em exposição toda a estrutura da entidade no continente: nomes de agentes, casas seguras de ações, documentos secretos. O Serviço Secreto Israelense demorou muitos anos para se recuperar na Europa.
  • Aliás, o líder Hassan Salameh sofreria mais quatro tentativas de assassinato até ter seu carro explodido em 1979, no Líbano.
  • Imediatamente após a tragédia, causada muito pela incompetência da polícia alemã-ocidental em tratar de ações terroristas,  o criticadíssimo governo alemão do chanceler Willy Brandt organizou a criação do Grenzschutzgruppe 9, conhecido mundialmente com a sigla GSG 9. A tropa de elite foi treinada para ações de contra-terrorismo, e hoje é exemplo mundial de competência.

A cobertura completa pode ser facilmente encontrada no You Tube. Porém selecionei estas imagens, do dia seguinte à tragédia em Munique. Mostram um lado diferente da habitual cobertura do noticiário tradicional:

E que isto nunca mais se repita…

Comentários (3)

  • Leonardo diz: 5 de setembro de 2012

    O filme do Spielberg sobre a mal sucedida vingança Israelense é excelente, recomendo! Se chama Munique.

  • Marcelo diz: 5 de setembro de 2012

    Parabéns pela postagem, muito bom!
    Recomendo assistir ao documentário que estreou no History Channel nesta segunda-feira, dia 05, a respeito dos acontecimentos em Munique.
    Um abraço!

  • Adilson Fauth diz: 5 de setembro de 2012

    Alexandre ! eu estava em Munique assistindo a Olimpíada. Fomos em 5 professores de Educação Física : Remo John, Airton Dreyer (já falecido), Vera Machado e Silvio L. Oliveira e eu (Adilson Fauth). Uma Olimpíada que tinha tudo para ser extraordinária infelizmente ficou marcada pela tragédia. Nada justifica as perdas humanas. Lamentável usar um encontro mundial do esporte para praticar este terrorismo brutal. Os alemães foram pegos de surpresa porque nunca havia acontecido atos deste tipo em escala mundial muito menos em encontros esportivos. Via-se um olimpíada super organizada, com instalações magníficas e o espírito olímpico dentro e fora das competições. Chegamos uma semana antes dos Jogos e participamos do Congresso Mundial de Educação Física. Toda a cidade e o país receptivos e num clima de confraternização extraordinária. Aí vem estes radicais e provocam toda esta fatalidade. Nada justifica tais atos. Depois de assistir muitas competições em estádios e ginásios naquele dia de manhã fomos ver as provas de remo, numa raia a 30 km de Munique. A segurança era muito discreta (funcionários e policiais eram usados nos locais dos jogos vestidos em uniformes esportivos) pois nem queriam chamar muito a atenção sobre isto. Não existia esta preocupação. Nem se imaginava de longe um atentado em Olimpíada. Tudo isto favorecia a um clima descontraído. Claro, depois ,entre o periodo de negociações e o final do atentado, a cidade toda ficou minada de tanques e soldados. Que tristeza para todos. Em vez da glória do esporte a manifestação bestial. Após as cerimônias no estádio olímpico em homenagens aos atletas mortos viu-se um esfriamento total dos jogos. Não tinha mais clima para as competições. Infelizmente aqueles XX Jogos Olimpicos passaram para a história como tragédia. Logo em seguida partimos para Monza na Italia para ver, daí, felizmente, o Emérson Fittipaldi se tornar o 1.o brasileiro Campeão Mundial de Fórmula 1. Na Itália e em outros países que visitamos só víamos manchetes negativas sobre os Jogos de Munique. Que lástima. O eporte que é o melhor meio de unir os povos via na interferência da política de outros países denegrir sua imagem. Felizmente o tempo botou tudo no seu lugar e nos Jogos Olimpícos seguintes vimos a grandeza do esporte no seu devido valor. Que coisa linda esta última olimpíada de Londres. Queira Deus que possamos organizar e asistir uma extraordinária Olimpíada no Rio de Janeiro e o Brasil todo dando demonstração de civilidade,educação e alegria. Adilson Fauth. Natural de Estrela (RS), Professor de Educação Física, e Preparador Físico de Futebol . Atualmente resido em Florianopolis.

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