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Posts do dia 25 fevereiro 2013

OPINIÃO: De quando o vôlei imita o futebol nos piores quesitos

25 de fevereiro de 2013 0

Abro espaço para minha querida amiga Ariadne Rodrigues, co-idealizadora do site No Huddle Br, que deixa claro seu descontentamento com o nível de rivalidade visto na última sexta-feira, no jogo de vôlei entre os arquirrivais Osasco e Rio de Janeiro pela Superliga Feminina de Vôlei.

“O ginásio lotado, torcida presente em peso também do lado de fora para conferir o jogo num telão. O seu time está em segundo lugar e vai enfrentar o líder da competição que, por sinal, é o seu maior rival. Para apimentar mais ainda o enredo, é o último jogo da fase classificatória e você quer muito a primeira colocação para ter uma vida mais fácil nas quartas-de-final.
“É Libertadores? É Champions League? Putz, é NFL!” Não. É Superliga Feminina de Vôlei, temporada 2013. E o jogo era o clássico dos clássicos da Superliga: Osasco vs Rio de Janeiro. Se você não entende patavinas de vôlei, o confronto equivale a um Grêmio e Internacional.
De ambos os lados, elencos com jovens talentos já convocadas para seleções juvenis, bem como medalhistas olímpicas de Atlanta à Londres. Pegue isso tudo e junto com a sinopse lá de cima e temos a expectativa de um jogo memorável, épico e dramático.
O embate, por muito pouco, não virou um ringue de gel. A torcida do Osasco não somente vaiou o Rio e a arbitragem, como recorreu de forma unânime aos insultos, como por exemplo, chamar a oposta Sarah Pavan de burra e, conforme o esperado, mirar boa parte das vaias e “palavras carinhosas” a ponteira Nathália. Algumas jogadoras do Osasco recorreram em partes a mesma estratégia das cubanas em 1996, ou seja, comemoração excessiva para desestabilizar o emocional adversário.
A postura de algumas jogadoras do Osasco foi algo preocupante, ainda mais em se tratando que algumas delas são campeãs olímpicas, jogadoras da atual seleção. Não foi agradável ver Adenízia e Jaqueline comemorando mais efusivamente que o normal, indo pedir apoio da torcida (desnecessário quando se joga dentro de casa com 5.000 pagantes torcendo a favor), bem como ver Jaqueline, após receber um toco, dar uma bolada esquisita em Juciely (lance que despertou polêmica, pois no final do jogo a jogadora foi evasiva e não disse se o lance foi sem querer).
Todo o clima de provocação, seja da torcida, seja de algumas jogadoras, deu certo em partes. Natalia, o principal alvo da torcida, errou muito em quadra e acabou sendo trocada por Régis já no meio do terceiro set. Juciely, que chegou a chorar ao ser substituída uma vez por Bernardo e também devido a tensão do jogo, entrou no clima de provocação no tie-break e chegou a encarar a Jaqueline após um lance favorável do Osasco.
Tal postura é preocupante? Sim, afinal de contas, aposto que muitas dessas jogadoras não apoiaram a postura das cubanas em 1996, além de serem jogadoras de seleção, onde cada jogo requer uma postura a mais comportada o possível. Aposto que muitas não querem ver o vôlei transformado num futebol, e justamente nos pontos negativos. E arrisco dizer que se fosse o adversário quem tivesse tomado tal postura, elas estariam reclamando até o presente momento de atitude antidesportiva.
Mas a maior polêmica de todas ainda estava por vir, antes do início do tie-break, momento que rende cartão amarelo para Bernardo e Luizomar e por pouco não prejudicou as jogadoras em quadra. A polêmica foi a seguinte: Fofão perdeu o fôlego no final do terceiro set, o set da virada para o Rio. Jogando aos 42 anos de idade, num ritmo frenético nas últimas rodas, a levantadora teve que ser substituída no quarto set pela reserva Roberta. Bernardo complementou em entrevista que a levantadora fica até três dias sem treinar quando o Rio tem jogos que vão até o tie-break, justamente devido a sua idade, portanto a atitude foi para poupar a jogadora de qualquer desgaste que a prejudicasse no momento e nos playoffs da Superliga.
Mas parece que Luizomar não gostou, juntou a forma apática de jogar do Rio com a substituição, mais os erros da arbitragem para chamar o jogo do Rio e a substituição de levantadora de “desrespeitoso e menosprezo”. Bernardo poderia ter ignorado Luizomar, mas preferiu responder de forma nada educada – e a TV pegou e passou esta parte. Se vocês não conseguem ter uma visão do bate boca, apenas se lembrem de Tite e Felipão no célebre episódio “fala muito”. Ao final do jogo quando todos já rumavam aos vestiários, mais bate boca entre assistentes técnicos podia ter terminado em troca de tapas.
Jaqueline teve razão absoluta ao dizer que tal confusão entre os técnicos acaba por prejudicar o jogo. Se as atitudes descabidas dos técnicos influenciam os times, a atitude dos atletas pode influenciar suas torcidas. Pressupondo que um esporte onde há emoção de sobra e uma liga competitiva que cresce e atrai cada vez mais torcedores tende a desenvolver alguns fanáticos no meio, então podemos nos preocupar com o surgimento de gente mais insensata e que reaja de forma agressiva. Não é exagero pensar assim – ou vocês acham que o futebol sempre foi antro de grupos fanáticos, de expressão máxima da testosterona? Troca de farpas em redes sociais já existe, com torcedores de um time invadindo o espaço do rival apenas para provocar – e seria ótimo que ficasse só nisso.
Talvez nada disso passe na cabeça dos atletas de vôlei, mas ao menos no Brasil o assunto talvez precisa começar a ser encarado com maior zelo. Todo esse clima de nervosismo, frustração e acerto de contas por pouco não transformou um super clássico num jogo banal de várzea, daqueles que assistimos por falta de programação melhor na TV e que vira notícia negativa no dia seguinte.
Patético ver o vôlei tomando contornos do esporte bretão justamente nos detalhes que menos é preciso.