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Posts do dia 22 março 2013

Em estádio histórico, Croácia e Sérvia reabrem feridas de guerra e morte nas Eliminatórias

22 de março de 2013 0

Que seja um jogo de paz. Mas será difícil o ambiente não estar tenso no estádio Maksimir em Zagreb no primeirojogo em Eliminatórias entre as arquirrivais Croácia e Sérvia, pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014 às 14h desta sexta-feira sob os atentos olhares de 1.500 policiais em 36 mil torcedores croatas. E sérvios. Um jogo que evoca momentos dos mais tristes destes dois países, e ainda muito recentes. Marcas de horror e violência que ainda não foram apagadas. E talvez nunca serão.

Vice-líder do grupo ao lado da Bélgica, o time croata tem 10 pontos e pode virtualmente eliminar os sérvios caso vençam nesta tarde. O time sérvio, que disputou a última Copa do Mundo na África do Sul, vem de uma humilhante derrota em Belgrado para a Bélgica por 3×0, e de um fiasco contra a também rival Macedônia, 1×0 em Skopje.  Já os croatas venceram os últimos dois jogos sobre os macedônios (2×1 fora) e País de Gales (2×0 em Zagreb) e lutam pela classificação automática para o Mundial, garantida ao primeiro colocado de cada chave.

Porém um duelo entre croatas e sérvios, ainda mais neste estádio Maksimir, não envolve apenas o futebol. Unidos politicamente após a Segunda Guerra Mundial, estes dois países entraram em um sangrento conflito nos anos 90, a Guerra Civil da Iugoslávia. Vista como inevitável depois da queda do regime socialista e estava sendo ‘avisada’ em vários incidentes.

Um deles foi no futebol, exatamente no palco de hoje em Zagreb. A história deste jogo foi contada em uma das primeiras Séries do Almanaque Esportivo: “Futebol e Facistas – Uma relação antiga na Europa”, que trava sobre a relação entre facistas e torcidas organizadas na Iugoslávia, na Itália e na Inglaterra.

Em 13 de maio de 1990 um jogo entre o Dinamo Zagreb e o Crvena Zvedza (Estrela Vermelha) não ocorreu. Uma batalha campal no estádio Maksimir envolvendo as torcidas organizadas Bad Blue Boys (croatas) e Delije ( sérvios), braços políticos de movimentos ultranacionalistas de seus países, encerrou a partida.

O jogo ocorreu poucas semanas após uma eleição interna na Croácia que deu maioria no Parlamento a partidos que defendiam a independência. O clima de tensão era evidente. Quando o conflito explodiu no estádio após torcedores sérvios irem para cima dos croatas, uma extremamente permissiva polícia sérvia atacou sobretudo torcedores croatas, teoricamente em maioria no estádio.


No meio da confusão, alguns jogadores do Dínamo permaneceram em campo. Um deles era o craque Zvonimir Boban, capitão do Dínamo Zagreb. Ao ver policiais atacando covardemente um torcedor, Boban partiu para briga. Deu uma voadora no policial (bósnio, muçulmano) Refik Ahmetović. Seus companheiros agiram como guarda-costas protengendo Boban da reação da força policial.

Depois do jogo, Boban foi suspenso pela Federação Iugoslava por seis meses e ficou fora da Copa de 1990 na Itália, além de acusado criminalmente. Ele nunca cumpriu pena alguma e se tornou um ícone nacionalista em seu país. Meses depois, deixou a Croácia e se tornou um dos maiores jogadores do Milan nos anos 90 ao lado de, ironicamente, do sérvio Dejan Savicevic.

Sobre aquela triste tarde em Zagreb, Boban declarou: “Então eu estava lá, uma personalidade pública preparada para arriscar minha vida, carreira e toda a fama que eu havia conseguido. Tudo por um ideal, uma causa: a causa da Croácia”.

Zvonimir Boban - um herói nacional croata

O conflito que gerou centenas de feridos e durou cerca de uma hora, foi o estopim popular para protestos, levantes que culminariam com a declaração de independência da Croácia poucos meses depois. A Liga Iugoslava viu os times croatas e eslovenos desistirem depois daquela temporada.

Um ano depois, dia 18 de maio de 1991, o Dínamo Zagreb recebia de novo o Crvena Zvedza, já campeão, no mesmo estádio Maksimir. Já campeão e na final da Copa dos Campeões da Europa, o Crvenaera o franco favorito em um jogo que nada valia. Mas o presidente da Croácia, Franjo Tudjman estava no estádio e o clima era de extrema hostilidade aos sérvios. O capitão do Crvena, Robert Prosinecki (croata, aliás), reclamou para seu técnico, Ljupko Petrovic, que foi para cima do juiz.

Tempos depois,Petrovic deixou claro que o resultado do jogo foi arranjado: “Aquele jogo perdemos por razões políticas. Não teríamos como ganhar. Estávamos vencendo por 2×0, o juiz macedônio inventou um pênalti absurdo em Davor Suker e logo a seguir outro, gol, terminando 2×2 o primeiro tempo. No intervalo fui para cima do juiz e ele me disse discretamente: este jogo está marcado para uma vitória do Dínamo. O presidente croata está ali e não quer ver um time sérvio ganhando aqui, no meio de Zagreb, bem no momento que ele planeja declarar a independência da Croácia“. O Dínamo venceria por 3×2.

No dia seguinte, um plebiscito apontou 83% dos votos em prol da independência da Croácia. Dia 25 de junho os croatas se declararam independentes da República Federativa da Iugoslávia.

E a pior Guerra Civil em continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial começou.

Senhoras e senhores. O Stadion Maksimir em Zagreb hoje tem uma rica história.

Infelizmente de momentos mais tristes que alegres no futebol.

Que, quando misturado com a política e interesses hostis, sempre sai perdendo.

LEITURA COMPLEMENTAR:

- Iugoslávia: Futebol e fascistas: uma relação antiga na Iugoslávia