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Revolução Alemã, Parte V (final): O futuro do futebol alemão e lições a serem aprendidas pelo Brasil

19 de abril de 2013 8

Ao longo desta semana, o Almanaque Esportivo fez uma profunda análise de tudo que ocorreu na Alemanha nos últimos quinze anos. De como o futebol alemão chegou ao fundo do poço (para os rigorosos padrões germânicos). E a maneira pela qual conseguiu se reerguer do atoleiro: planejamento, organização, investimentos corretos e disciplina financeira.

Muitas dos problemas e das soluções apresentadas ao longo desta semana são perfeitamente factíveis de serem implementadas no Brasil, salvo as habituais diferenças culturais e econômicas entre os dois países. Podemos avaliar em três grandes grupos: formação de atletas, alterações estruturais no plano de jogo e modelo financeiro dos clubes.

  • CATEGORIAS DE BASE

Esta talvez seja a parte mais fácil de ser implementada no futebol brasileiro, mas a que requer mais seriedade e organização. A CBF, federação mais rica e rentável do planeta, tem totais condições financeiras de bancar centros de treinamentos espalhados em todo o Brasil. A questão é a falta de interesse da entidade em reduzir os lucros em prol do desenvolvimento do esporte. Sem contar a falta de transparência da gestão anterior de Ricardo Teixeira e da atual, do ainda mais contestado José Maria Marín.

Ao contrário da entidade máxima do futebol brasileiro, preocupada apenas em faturar com a Seleção, os clubes estão muito mais avançados na formação de atletas. Muitos times fazem investimentos pesados em categorias de base, com despesas e estruturas de gigantes europeus. É o caso da dupla Gre-Nal, Cruzeiro, Atlético-MG, São Paulo, Santos e o Fluminense.

O problema é no aspecto técnico dos treinamentos. O foco nas categorias de base é na obtenção de títulos e a parte física é beneficiada por esta avaliação. Jogadores fisicamente privilegiados se destacam contra adversários ainda em formação física. Esquema táticos focados na vitória e não na construção correta do perfil técnico do atleta são priorizados.

O resultado é bastante insatisfatório porque, excetuando-se os jogadores diferenciados de praxe, os atletas chegam ao profissional com deficiências severas em fundamentos básicos, como passe, cruzamento, conclusões ou cabeceio. Uma reformulação no modelo técnico das categorias de base deve ser estudado, adaptado à realidade brasileira, e executado individualmente pelo menos entre os grandes clubes do país.

O curioso é que esta interessante fonte de renda para clubes com torcidas tradicionais em mercados consumidores mais restritos, como times de capitais nordestinas ou de estados como Pará e Goiás, investem muito pouco em algo que poderia ser a salvação financeira dos mesmos. O comparativo é válido com clubes portugueses como Porto, Benfica, e holandeses como Ajax e PSV, de mercados bem menores na Europa mas que conseguem equilibrar confrontos muitas vezes com um trabalho de excelência na formação de jogadores e prospecção de talentos.

  • REVISÃO DE CONCEITOS TÁTICOS DO FUTEBOL NACIONAL

A discussão neste ponto é mais ampla. Há muito tempo não vemos um time brasileiro com uma solução tática original, jogando de um jeito diferente. Existe uma uniformidade de esquemas táticos, e os resultados se baseiam apenas na diferenças individuais dos elencos e no moral (estado anímico) de cada equipe.

Os clubes brasileiros não possuem uma “filosofia de futebol” alinhada com o histórico de cada equipe, implementado desde as categorias de base. Falta um trabalho de longo prazo, que transcenderia o mandato dos presidentes eleitos das equipes brasileiras e estaria no DNA de cada time.

A média geral dos treinadores nos grandes times brasileiros ganha muito e está totalmente parada no tempo, repetindo trabalhos insatisfatórios e pulando de um clube para outros. Novos nomes no cenário nacional demoram demais para se afirmar. Com salários dos maiores do mundo, a Série A do Brasileirão hoje expõe treinadores limitados, com soluções táticas ultrapassadas e que habitualmente sofrem em confrontos contra adversários de outros países da América do Sul, com poder econômico bastante inferior ao do Brasil.

A sistemática de treinos nos grandes clubes brasileiros é uma repetição de movimentações sem maior profundidade, focados em individualidades contra um trabalho em conjunto. A eterna insistência em “definição dos onze titulares”, do “treino alemão” (uma ironia hoje em dia) resulta em um desgaste físico do grupo principal, além da ausência de alternativas táticas.

Mario Gotze, da nova geração alemã, passa pelo brasileiro Júlio César em amistoso de 2012 – Foto: Michael Probst AP

Quando pressionados, os principais treinadores “escapam pela direita”, como o multicampeão Muricy Ramalho. Depois de escalar, pela primeira vez no ano, um esquema com três zagueiros justamente contra o Barcelona na final do Mundial, e ser impiedosamente surrado, Muricy ainda teve a audácia de dizer em 2013: “No Barcelona eles não levam muito a sério a parte tática”Oi?

  • REFORMULAÇÃO DA MATRIZ DE RECEITAS DOS CLUBES BRASILEIROS

Hoje os times brasileiros sobrevivem das cotas de televisionamento. Mesmo que alguns, como Internacional e Grêmio, consigam receitas expressivas em seus quadros sociais, os estádios são fontes de despesas, não de receitas. O futebol brasileiro ainda não está pronto para uma presença de torcedores independentemente da fase do time, como vemos sistematicamente no Newcastle, Sunderland, Southampton e outros times médios. Afinal, o brasileiro só vai ao campo quando seu time está ganhando ou quase sendo rebaixado.

Sem esta fidelidade ainda impregnada no futebol brasileiro, o preço do espetáculo deve ser proporcional ao interesse do torcedor. Ao nível da competição. Ao poder aquisitivo do mercado envolvido. Para definições como estas, existem dois modelos financeiros: o inglês, com ingressos elitizados e que possuem demanda nos grandes clubes. E o alemão, intensamente discutido na última quarta-feira, focado na ocupação plena dos estádios.

Em decisões incompreensíveis de dirigentes de clubes e federações, ou atendendo à interesses das redes de TV, os preços mínimos dos jogos dos campeonatos inclusive competições menores como os Estaduais, estão muito acima de qualquer bom senso. É mais barato você assistir Borussia Dortmund x Bayern de Munique pelo Campeonato Alemão que ver Internacional x Esportivo pelo Gauchão. Isto simplesmente é inaceitável!

Com dezenas de milhões de pessoas entrando na emergente classe média brasileira, os times de futebol do país deveriam estar focando seus esforços neste público-alvo. Fidelizando um número maior de pessoas nos estádios, com uma taxa de ocupação bem superior à atual, aumenta a exibição dos patrocinadores aumenta neste mercado,pois a exposição de mídia da marca em um jogo com casa cheia é infinitamente maior que a de um estádio vazio.

O consumo no estádio aumenta, o número de famílias presentes aumenta. Um ciclo virtuoso de receitas.

A torcida é a razão de existir de todo e qualquer clube. Mais do que títulos, ídolos, estádios, dinheiro. Sem ela, o clube perde sua alma.

O futebol brasileiro precisa recuperar-se. Existem caminhos. E

O difícil é reconhecer os problemas e passar a trilhar, com paciência, planejamento e determinação.

Boa sorte, Brasil.

E parabéns, Alemanha.

Comentários (8)

  • Nicolás Mega diz: 19 de abril de 2013

    Excelente série de posts, Perin. Parabéns!

    Tenho ficado bastante impressionado com a nova geração do futebol alemão, que surgiu depois da Copa de 2006. Eles realmente propuseram uma nova forma de jogar, assim com fizeram os espanhóis. Acho eles mais a seleção mais equilibrada em termos de tática, físico e talento.

    Quanto ao futebol brasileiro, me parece que fórmula financeira que deu certo nos últimos 10-20 anos está falida. Produzir jóias raras, que serão vendidas à peso de ouro, não é mais uma exclusividade do Brasil (contam-se nos dedos de uma mão o número de grandes jogadores brasileiros que surgiram na última década). Além das cotas de TV, que modificaram as rendas principais dos clubes, me parece que a mudança do perfil do torcedor (com maior poder aquisitivo) e o pragmatismo de tornar os clubes empresas que visam maximizar os lucros, com a intromissão nefasta de empresários, grupos de investidores e agentes FIFA, são efeitos colaterais de um futebol que perdeu o seu brilho. Os clubes brasileiros hoje pensam primeiro em ter lucro, depois em ganhar títulos. Apoio gestões organizadas, que não gastam mais do que possuem, mas não gosto da política de investir em talentos simplesmente para vendê-los mais tarde.

  • Caldeira diz: 19 de abril de 2013

    Alexandre, gostaria de dizer muito mais do que parabéns mas faltam-me as palavras! Belo trabalho.

  • Oswaldo de Medeiros Ritter diz: 19 de abril de 2013

    Parabéns pela análise do estágio atual do futebol brasileiro e pelas propostas de caminhos a serem seguidos.

  • William diz: 19 de abril de 2013

    Perin, parabéns pelos posts, acompanhei durante toda semana. Espero que o teu estudo chegue aos olhos dos grandes formadores de opinião (digo, de grande mídia), para que essa mentalidade seja espalhada para todos os envolvidos com o futebol. Parabéns!

  • Ezequiel diz: 19 de abril de 2013

    Perin, parabens pela serie. Desde o inicio, aguardava ansioso pelo proximo post.

    Exclentes insights para o modelo brasileiro que certamente esta muito atrasado. Seria a soberba o nosso maior obstaculo?

    O que tu tens que fazer pra serie ser publicada na ZH?

    Parabens, novamente!

  • THIAGO ACOSTA diz: 24 de abril de 2013

    PARABÉNS PELO POST, FICOU VISTO UMA SEMANA DEPOIS DA SÉRIE DE REPORTAGENS, COMO A ALEMANHA CAMINHA A PASSOS LARGOS RUMO A AMPLA DOMINAÇÃO DO FUTEBOL MUNDIAL. NAS DUAS SEMIFINAIS DE CHAMPIONS LEAGUE QUE OS DOIS CLUBES ALEMÃES GOLEIAM SEUS RIVAIS, QUE SÃO OS DOIS TIMES MAIS BADALADOS DO MUNDO (BARCELONA E REAL MADRID), VOCÊ ENXERGA COM CLAREZA QUE PLANEJAMENTO É VITAL PARA UM BOM FUNCIONAMENTO DO FUTEBOL. ABRAÇOS!

  • Ronaldo Stadtlander diz: 2 de maio de 2013

    Como as demais instituições brasileiras, o futebol passa por um processo de arruinamento. As bases estão corroídas e a sustentação comprometida. Os clubes, sem exceção, formam jogadores pensando antecipadamente na sua venda na tentativa de sobreviver a um sistema por eles mesmos fomentados. Clubes falidos como Flamengo, Vasco e outros são exemplos clássicos desta desestruturação. Tenho a convicção de que para sair do “buraco” precisamos antes mergulhar fundo nele e acho que ainda não chegamos lá. Dizem que a dor ensina a gemer então, quem sabe, um dia, como Fenix ressurgiremos das cinzas. Mas sem iniciativa ou vontade política, essa possibilidade me parece distante. Como vimos na reportagem, os bons exemplos existem. Basta vontade e uma boa dose de tempo e paciência para que eles se tornem viáveis num País como o Brasil. Abraço a todos.

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