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João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999)

09 de outubro de 2011 1

Há exatos 12 anos, o Brasil perdeu um de seus maiores poetas: João Cabral de Melo Neto. O pernambucano morreu aos 79 anos, deixando uma obra poética de vulto – na qual se destaca o livro Morte e Vida Severina (1955), poema dramático que narra a dura trajetória de um migrante nordestino em busca de uma vida melhor no litoral.

Foto: banco de dados

Veja aqui um documentário sobre o escritor:

Abaixo, a reprodução de um poema de João Cabral:

Poema(s) da Cabra

Nas margens do Mediterrâneo

não se vê um palmo de terra

que a terra tivesse esquecido

de fazer converter em pedra.

Nas margens do Mediterrâneo

Não se vê um palmo de pedra

que a pedra tivesse esquecido

de ocupar com sua fera.

Ali, onde nenhuma linha

pode lembrar, porque mais doce,

o que até chega a parecer

suave serra de uma foice,

não se vê um palmo de terra

por mais pedra ou fera que seja,

que a cabra não tenha ocupado

com sua planta fibrosa e negra.

1

A cabra é negra. Mas seu negro

não é o negro do ébano douto

(que é quase azul) ou o negro rico

do jacarandá (mais bem roxo).

O negro da cabra é o negro

do preto, do pobre, do pouco.

Negro da poeira, que é cinzento.

Negro da ferrugem, que é fosco.

Negro do feio, às vezes branco.

Ou o negro do pardo, que é pardo.

disso que não chega a ter cor

ou perdeu toda cor no gasto.

É o negro da segunda classe.

Do inferior (que é sempre opaco).

Disso que não pode ter cor

porque em negro sai mais barato.

2

Se o negro quer dizer noturno

o negro da cabra é solar.

Não é o da cabra o negro noite.

É o negro de sol. Luminar.

Será o negro do queimado

mais que o negro da escuridão.

Negra é do sol que acumulou.

É o negro mais bem do carvão.

Não é o negro do macabro.

Negro funeral. Nem do luto.

Tampouco é o negro do mistério,

de braços cruzados, eunuco.

É mesmo o negro do carvão.

O negro da hulha. Do coque.

Negro que pode haver na pólvora:

negro de vida, não de morte.

3

O negro da cabra é o negro

da natureza dela cabra.

Mesmo dessa que não é negra,

como a do Moxotó, que é clara.

O negro é o duro que há no fundo

da cabra. De seu natural.

Tal no fundo da terra há pedra,

no fundo da pedra, metal.

O negro é o duro que há no fundo

da natureza sem orvalho

que é a da cabra, esse animal

sem folhas, só raiz e talo,

que é a da cabra, esse animal

de alma-caroço, de alma córnea,

sem moelas, úmidos, lábios,

pão sem miolo, apenas côdea.

4

Quem já encontrou uma cabra

que tivesse ritmos domésticos?

O grosso derrame do porco,

da vaca, do sono e de tédio?

Quem encontrou cabra que fosse

animal de sociedade?

Tal o cão, o gato, o cavalo,

diletos do homem e da arte?

A cabra guarda todo o arisco,

rebelde, do animal selvagem,

viva demais que é para ser

animal dos de luxo ou pajem.

Viva demais para não ser,

quando colaboracionista,

o reduzido irredutível,

o inconformado conformista.

5

A cabra é o melhor instrumento

de verrumar a terra magra.

Por dentro da serra e da seca

não chega onde chega a cabra.

Se a serra é terra, a cabra é pedra.

Se a serra é pedra, é pedernal.

Sua boca é sempre mais dura

que a serra, não importa qual.

A cabra tem o dente frio,

a insolência do que mastiga.

Por isso o homem vive da cabra

mas sempre a vê como inimiga.

Por isso quem vive da cabra

e não é capaz do seu braço

desconfia sempre da cabra:

diz que tem parte com o Diabo.

6

Não é pelo vício da pedra,

por preferir a pedra à folha.

É que a cabra é expulsa do verde,

trancada do lado de fora.

A cabra é trancada por dentro.

Condenada à caatinga seca.

Liberta, no vasto sem nada,

proibida, na verdura estreita.

Leva no pescoço uma canga

que a impede de furar as cercas.

Leva os muros do próprio cárcere:

prisioneira e carcereira.

Liberdade de fome e sede

da ambulante prisioneira.

Não é que ela busque o difícil:

é que a sabem capaz de pedra.

7

A vida da cabra não deixa

lazer para ser fina ou lírica

(tal o urubu, que em doces linhas

voa à procura da carniça).

Vive a cabra contra a pendente,

sem os êxtases das decidas.

Viver para a cabra não é

re-ruminar-se introspectiva.

É, literalmente, cavar

a vida sob a superfície,

que a cabra, proibida de folhas,

tem de desentranhar raízes.

Eis porque é a cabra grosseira,

de mãos ásperas, realista.

Eis porque, mesmo ruminando,

não é jamais contemplativa.

8

O núcleo de cabra é visível

por debaixo de muitas coisas.

Com a natureza da cabra

outras aprendem sua crosta.

Um núcleo de cabra é visível

em certos atributos roucos

que têm as coisas obrigadas

a fazer de seu corpo couro.

A fazer de seu couro sola,

a armar-se em couraças, escamas:

como se dá com certas coisas

e muitas condições humanas.

Os jumentos são animais

que muito aprenderam com a cabra.

O nordestino, convivendo-a,

fez-se de sua mesma casta.

9

O núcleo de cabra é visível

debaixo do homem do Nordeste.

Da cabra lhe vem o escarpado

e o estofo nervudo que o enche.

Se adivinha o núcleo de cabra

no jeito de existir, Cardozo,

que reponta sob seu gesto

como esqueleto sob o corpo.

E é outra ossatura mais forte

que o esqueleto comum, de todos;

debaixo do próprio esqueleto,

no fundo centro de seus ossos.

A cabra deu ao nordestino

esse esqueleto mais de dentro:

o aço do osso, que resiste

quando o osso perde seu cimento.

*

O Mediterrâneo é mar clássico,

com águas de mármore azul.

Em nada me lembra das águas

sem marca do rio Pajeú.

As ondas do Mediterrâneo

estão no mármore traçadas.

Nos rios do Sertão, se existe,

a água corre despenteada.

As margens do Mediterrâneo

parecem deserto balcão.

Deserto, mas de terras nobres

não da piçarra do Sertão.

Mas não minto o Mediterrâneo

nem sua atmosfera maior

descrevendo-lhe as cabras negras

em termos da do Moxotó.

(Texto extraído do livro João Cabral de Melo Neto – Obra completa, Editora Nova Aguilar – Rio de Janeiro, 1994, pág. 254)

Comentários (1)

  • Marcelo Xavier diz: 10 de outubro de 2011

    O mar soprava sinos
    os sinos secavam as flores
    as flores eram cabeças de santos

    Minha memória cheia de palavras
    meus pensamentos procurando fantasmas
    meus pesadelos atrasados de muitas noites
    De madrugada, meus pensamentos soltos
    voaram como telegramas
    e nas janelas acesas toda a noite
    o retrato da morta
    fez esforços desesperados para fugir.

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