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Vovô e a praça

27 de dezembro de 2011 4

A Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre, rodeada de prédios neoclássicos, era o lugar aprazível onde os namorados se encontravam para conversar e passear. Era ali, também, que se tiravam retratos, no intuito de ofertar à namorada – ou, quem sabe, deixar uma lembrança à posteridade. Os fotógrafos lambe-lambes costumavam instalar-se nas praças e jardins públicos do Brasil no início do século 20, e durante mais de três décadas retrataram as mais variadas situações e tipos humanos.

Foto: acervo do Museu Joaquim José Felizardo/ Fototeca Sioma Breitman

Por volta dos anos 1930, meu avô, Pedro Freitas Filho, então com seus 20 e poucos anos, tinha por hábito circular por ali. A praça – hoje um dos mais conhecidos cartões-postais da cidade – era de um verde intenso, com suas alamedas marcadas por pedras de um tom rosa muito antigo. Era a época em que a cidade iniciava sua modernização urbanística e de engenharia, com novas estruturas arquitetônicas mais arrojadas. Era a gestão Loureiro da Silva.

Na política, vivia-se um período de incertezas. Era o fim da República Velha (1889 – 1930) e o início de um novo período. Com Getúlio à frente do governo, iniciavam-se a Era Vargas e o Estado Novo – porém, para meu avô, este era um período de muito ceticismo. Taciturno, vovô, em seu terno Oxford (calças com bocas mais amplas), chapéu Panamá (que, apesar do nome, era fabricado no Equador) e gravata, lembrava galãs da época, como Humphrey Bogart e Clark Gable.

Porém, apesar da elegância, vovô transparecia um ar de desconfiança e preocupação. Talvez estivesse com expectativas quanto ao namoro que iniciava com a minha avó, Georgina, ou tomado pelas incertezas que se anunciavam com o novo período. Assim, era preciso deixar uma marca, uma presença, e nada mais apropriado do que um retrato tirado no lambe-lambe da Praça da Alfândega.

Os lambe-lambes fotografavam, normalmente, casais apaixonados ou famílias em momento de descontração. Dizem que o nome vem do ato de o fotógrafo lamber a chapa de ferro, que era coberta por uma camada de asfalto, para que a imagem se destacasse do fundo preto pela ação do sal presente na saliva.

Oitenta anos se passaram, a paisagem alterou-se, mas o retrato amarelado pelo tempo e o legado ficaram para atestar um outro estilo de vida: na moda, nos hábitos, na cultura, enfim, possibilitando o resgate, embora ínfimo, de outra geração.

(colaborou Janete Rocha Machado)

Veja mais fotos da Praça da Alfândega por volta dos anos 1930:

Fotos: banco de dados



Foto: acervo da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul

Você lembra do tempo dos lambe-lambes nas praças de Porto Alegre? Deixe seu comentário ou envie fotos para almanaque@zerohora.com.br.

Comentários (4)

  • Marcelo Xavier diz: 27 de dezembro de 2011

    A Porto Alegre do começo do século passado passou por um processo de modernização de acordo com os valores da nova ordem burguesa e a arquitetura daquele tempo tinha muito desse imaginário social. A concepção do novo Cais, junto com os prédios “gêmeos” da Delegacia Fiscal (Margs) e dos Correios (Memorial) faziam parte de um conjunto que era a entrada da cidade. A idéia original da praça da Alfândega, integrada com a Praça Visconde do Rio Branco, era a de que um imenso bulevar conduzisse os visitantes da gare do porto, singrasse os torreões dos prédios e subisse morro acima, até chegar na Matriz. Megalomaníaca ou não, a tasl idéia foi posta de lado e optou-se mais tarde pela abertura da Borges de Medeiros (então Gal. Paranhos) e a construção do viaduto.

  • EDU diz: 30 de dezembro de 2011

    Impressionante como eram lindas as praças naquela época.
    Sem lixo nas ruas,paredes pixadas,monumentos depredados,etc…
    Gostaria de ter nascido e vivido naquele tempo,mas como não é possível “viajar no tempo”,fico admirando o blog.
    Um feliz ANO NOVO LUÍS,E A TODOS OS LEITORES!

  • Marilene Henriqson diz: 19 de janeiro de 2012

    Oi…voce troxe-me boas memorias ….de crianca…morei na frente do mercado livre ate os meus 5 anos,brincava na praca da Matriz quase todos os dias….boas lembrancas,hoje estou morando bem longe dai….mas foi muito bom relembrar….obrigada…Marilene Henriqson

  • Vitoldo Haber diz: 25 de fevereiro de 2012

    Muito bom rever POA de antigamente, pois, morei até 1983. Hoje moro em SC.
    Gostaria de saber se a Pç. da alfandega é a mesma que é realizada a famosa exposição do livro de POA? Pois a mesma está divida por uma rua, ou av.´que não me lembro do nome e a outra é a rua “da praia”, onde ficava o cine Carlos Gomes, onde com amigos de colégio iamos assistir a “matiné”. Que bom que tem jornalistas e cidadões portoalegrenses que preservam a historia e lembranças de POA de antigamente. Espero que continuem assim, para que quem teve que sair de POA, por motivos de serviço, etc… possam relembrar do tempo de juventude.

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