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O naufrágio do Bento Gonçalves

20 de setembro de 2012 6

Durante o longo tempo em que a navegação fluvial foi a via principal de transporte de cargas, mercadorias e passageiros no Litoral Norte gaúcho, muitos acidentes aconteceram. Dois deles foram marcantes na história regional. O primeiro, ocorrido em junho de 1894, vitimou Gustavo Voges, filho da proprietária do barco naufragado, o Itapeva, e mais oito pessoas.

O mais marcante naufrágio, no entanto, ocorreu justamente em um 20 de setembro, em 1947. Por ironia do destino, o barco, que transportava 20 pessoas naquela data, principalmente políticos udenistas que se dirigiam a um comício em Maquiné, chamava-se Bento Gonçalves.

O barco Bento Gonçalves no trapiche da Lacustre, nas margens da Lagoa do Marcelino, em Osório, nos anos 1940. Fotos: Arquivo Histórico Antônio Stenzel Filho

O pequeno rebocador de 14,8 x 2,85m, com uma caldeira abastecida a lenha e um motor de 44 HP que atingia 12 quilômetros por hora, deixou o porto de Osório às 11h20min daquele sábado de setembro. Depois de cruzar as lagoas do Marcelino e do Peixoto, entrou na Lagoa da Pinguela sob forte vento minuano. O Bento Gonçalves, que estava em atividade no Serviço de Transporte entre Palmares do Sul a Torres (STPT) desde janeiro de 1929, era comandado por Luís Serafim Machado, o Luís Candita. Por volta das 12h30min, uma rajada de vento adernou o barco.

Dezoito pessoas, entre passageiros e tripulantes, perderam a vida. Entre eles, Osvaldo Bastos, deputado constituinte de 1946, e Cândido Osório da Rosa, prefeito de Osório entre 1937 e 1942 e candidato a prefeito na ocasião.

Apenas dois passageiros salvaram-se: o músico, pescador e juiz distrital João da Costa Vilar, o João Clemente, e o sapateiro Alzemiro Viana Negreiros. O primeiro nadou até a margem apoiado em destroços, e o segundo ficou dentro da chaminé do barco.

Retirado do meio da lagoa da Pinguela, o velho Bento Gonçalves continuou a prestar serviços e, em 1984, quase quarenta anos depois, ainda se encontrava na ativa, no Guaíba.

A embarcação no Guaíba, em 1984

A cidade de Osório nunca esqueceu a tragédia do "Bento". Muitos artigos já foram escritos a respeito, inclusive um livro, O Naufrágio do Bento Gonçalves, de Therezinha Cacilda, publicado em 1985. Nele há, inclusive, os 94 versos rimados escritos por Vilar, um dos dois sobreviventes.

(colaborou Rodrigo Trespach)

Leia aqui os trechos finais do texto escrito por Vilar e publicado no livro O Naufrágio do Bento Gonçalves:

"82 – O povo se aglomerava
É só que ouvia falar
O Villar está com vida
Não se pode acreditar.

83 – O povo todo em geral
Principalmente as mocinhas
Morreu João Villar
Acabou-se nossa bandinha.

84 – Antes de chegar em casa
Mandei o carro parar
Encontrei Dona Alzira
Veio me felicitar.

85 – O chofer deste carro
Era o seu Pedro Izabel
Que não mediu sacrifício
Naquela noite cruel.

86 – Tenho o meu anjo da guarda
Anjo do céu resplendor
Levou-me à minha casinha
Cheio de graça e amor.

87 – Esta chegada foi triste
Difícil de se agüentar
Toda família chorava
Também tive que chorar.

88 – Minhas cunhadas e comadres
Toda gente me abraçava
Nesta hora sufoquei-me
Minhas lágrimas pingavam.

89 – Quem me ver rir e brincar
Não sabe o meu sentimento
Aquele triste passado
Não me sai do pensamento.

90 – As famílias mais distintas
Residentes no lugar
Esperavam minha chegada
Para me felicitar.

91 – Não morri naquele dia
Mas me vi atrapalhado
Salvei-me numa taubinha
Como lá diz o ditado.

92 – Peço aos amigos leitores
Que leiam com atenção
Aqui só conto a verdade
Não existe alteração
São idéias de um homem sério
E de bom coração.

93 – Não tenho com quem se queixar-me
O meu destino assim quis
Já fiz minhas orações
Na igreja da Matriz
Hoje estou no meu ranchinho
Me sinto muito feliz.

94 – Me lembrando do passado
Os tormentos que passei
Lá ficou os meus amigos
Eu também quase fiquei
Não mudo minha idéia
Sempre UDENISTA serei!

João da Costa Villar – sobrevivente"

Comentários (6)

  • Silvia Meirelles Kaercher diz: 21 de setembro de 2012

    Luís e Ricardo!
    Que coincidência incrível encontrar esta matéria! Sou autora do romance sobre os Koseritz (Carola) e estou escrevendo sua continuidade. Meu novo livro terminará justamente neste naufrágio, onde faleceu meu bisavô, Darcy Feijó, pai de ALCEU FEIJÓ!
    Mais uma vez, o ALMANAQUE GAÚCHO presta um grande serviço à sociedade e particularmente, à mim. Obrigada!
    Abração!

  • Gerson de Oliveira diz: 25 de setembro de 2012

    Olá Silvia.
    Tudo bem?
    Tenho parentes antigos que moram em Terra de Areia e sabem detalhes deste naufrágio. Eles sempre comentam deste naufrágio.
    Se eu puder ajudar em algo é só falar.

    NOTA dez o post.
    Abraços

  • Silvia Meirelles Kaercher diz: 25 de setembro de 2012

    Nossa, Gerson, seria ótimo! Meu romance está apenas no começo, mas quando chegar nesta parte, poderíamos conversar. Como entro em contato contigo?

    AbraçoS
    Silvia

  • Gerson de Oliveira diz: 25 de setembro de 2012

    Me manda um email: gersondeoliveira@gmail.com

    Abraço

  • anderson diz: 2 de fevereiro de 2013

    aqui em tramandaí tem a filha de joão clemente. pode ter mais detalhes.

  • Silvia Kaercher diz: 3 de fevereiro de 2013

    Obrigada Anderson.

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