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O rádio pitoresco

23 de dezembro de 2015 0

“Esta casa não dá esmola e propaganda. Favor não insistir” – alertava o comércio aos que se dispunham a angariar propaganda para alguma emissora na década de 1940. Se alguém insistisse, seria provavelmente “convidado” a se retirar do estabelecimento. Eram ostensivos alertas aos indesejáveis esmoleiros e “vendedores de reclames”. A melhor propaganda, na acepção dos antigos negociantes, era o boca a boca. Ainda assim, havia exceções. Uma delas foi com um jovem cheio de ideias vindo da cidade de Estrela, chamado Nilo Ruschel. Foi um dos antigos publicitários, ao transmitir a primeira Festa da Uva de Caxias do Sul, em 1932, através da linha telefônica, ainda na época das “galenas”.

A decepção deu-se após o sumiço dos corretores locais com o patrocínio do evento. A solução foi o próprio Nilo e seu irmão percorrerem o comércio e a indústria em busca do apoio publicitário, além de redigirem os textos e efetuarem a narração do evento. O que resultou em novas e sólidas amizades com alguns industriais, que muito os ajudaram em futuros empreendimentos. No ano anterior, Nilo havia feito a primeira transmissão esportiva, narrando o jogo entre Grêmio e Paraná. Não afeito ao futebol, tinha de ser auxiliado pelo comentarista Ary Lund, que cochichava em seu ouvido o nome dos jogadores.

O locutor Heron Domingues, por sua vez, que se tornaria famoso como o Repórter Esso através da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, apresentou-se como candidato a cantor na Rádio Gaúcha, mas foi aprovado como narrador de crônicas e textos comerciais. Já na década de 1950, Ernani Behs, vindo de Taquara, com sua inconfundível voz de locutor e radioator, conseguiu trazer ao microfone da Farroupilha grandes nomes da música, como Beniamino Gigli e Tito Schipa, entre outros astros internacionais, graças ao patrocínio das Camisarias Tannhauser. Ao recordar as novelas daquela época, Ernani dizia: “Na Rua da Praia era uma loucura. As mulheres atacavam a gente, rasgavam, não a mim, porque corria. Se a gente deixava, elas rasgavam, beijavam, mordiam. Era um negócio horrível. Não era porque as novelas eram muito boas, era porque não tinha nada melhor”.

Foi aí que surgiu a dupla dinâmica. Com grande audiência, Ernani e Maurício Sobrinho criaram um programa intitulado A Visita da Aveia Smith, quando sorteavam a rua e o número da casa. Então, Maurício ia lá, visitava e via se as pessoas tinham esse produto. Se tivessem, ganhavam prêmios. Outra iniciativa da dupla foi o programa Fumetas, patrocinado por um inseticida mata-mosquitos cujo slogan era: “Fumetas, a fumaça que mata”. Se um papagaio dissesse “fumetas”, seu dono ganhava prêmios. Essa mesma dupla teve o programa de grande audiência Do Zero ao Infinito.

Os esforços, naturalmente, tinham como finalidade o retorno financeiro, através de patrocínios. Os jingles, publicidade com refrão musical, gravados em discos de acetato, apregoavam à exaustão as virtudes dos produtos, como este: “Pílulas de Vida do Dr. Ross fazem bem ao fígado e a todos nós”. Alguns humoristas do rádio ironizavam: “Pílulas de Vida do Dr. Bode, entra pela boca e sai por onde pode”. Certa vez, o proprietário do Laboratório Inkas sugeriu que fosse incluído, no início de sua publicidade, o canto de um galo, a exemplo de seu concorrente, o Sal de Fruta Eno, que patrocinava o Jornal Eno, um noticiário transmitido pela manhã cedo, na Farroupilha. O problema era o galo.

O patrocinador não aceitava que fosse utilizado um disco de efeitos sonoros. Tinha de ser original. Assim, Ernani Behs convidou Maurício para irem a Taquara, terra de Ernani, onde seu avô tinha um galo cantador. Lá chegando, de gravador em punho, o tal galo simplesmente negou-se a cantar naquele dia. Corria pelo pátio, para desespero dos radialistas, que tentaram em vão, durante muito tempo, obter a gravação.

Voltaram para a Capital, aborrecidos. O veterano radialista Enio Rockenback, numa entrevista, recordava que, certa noite, na Rádio Independente de Lajeado, onde trabalhou, a programação encerrava com Domingo Clássico, e a composição Voo do Besouro, de Rimski-Korsakow. Nesse dia, o locutor lascou, com voz empostada: “E agora, encerrando o programa Domingo Clássico, ouviremos, de Rimski-Korsakow… O VOO DO BEZERRO”!! E ainda tem aquela do radialista que procurou a loja de discos da Galeria Chaves para angariar publicidade para sua emissora e, lá chegando, anunciou que queria falar com o senhor Beethoven..

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Maurício e Ernani (sentados) com os irmãos Ronald e Rubens Pinto na inauguração da Rádio Taquara, em 25 de novembro de 1950.

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