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Mania que vem de longe

11 de fevereiro de 2016 0

Atualmente, só se colecionam figurinhas de jogador de futebol, principalmente em época de campeonatos importantes. Mas essa é uma mania que já foi popular no passado e servia como instrumento publicitário. A coleção de estampas do sabonete Eucalol, que se encontra hoje no Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, foi lançada em 1930, com o objetivo de ampliar as vendas do produto.
Fabricado a partir do eucalipto, o sabonete tinha uma cor esverdeada. Uma novidade que não caiu no gosto do consumidor, acostumado com os tons branco e rosa. Porém, as figurinhas colecionáveis contribuíram para mudar a preferência da população.
As últimas estampas do Eucalol foram impressas em 1957. As imagens idealizadas, e até certo ponto caricatas, dos povos indígenas que vivem no Brasil perpetuaram-se no imaginário nacional, provocando, segundo a visão de alguns estudiosos, equívocos que até hoje prejudicam os povos originários do país.

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O que é o que é

 

Adivinhações luso-­gauchescas recolhidas por Apolinário Porto Alegre (1844-­1904) em seu livro
Popularium Sul-Rio­-Grandense.

1.­ Doze mortos e cinco vivos; os vivos estão passeando, os mortos estão falando?
2. ­Uma moça formosa entre duas tábuas; chova ou faça sol, ela anda sempre molhada?
3. Uma telha só e quatro esteios?
4. ­Quanto maior, menos se vê; quanto menor, mais se vê?
5.­ É capim e não é capim; é vara e não é vara?
6.­ Subi um morro e avistei o Mar; encontrei um carneiro, dizendo Mé… encontrei um velho, dizendo Lá…
encontrei um menino, dizendo Dá…?
7. Branco por fora, escuro por dentro, vermelhinho na ponta?
8. Uma árvore com doze galhos, cada galho com seu ninho, cada ninho com seu nome?
9. Quatro irmãs que correm duas a duas, sem nunca se encontrarem?
10. No mato cresce e no mato floresce, depois vem para casa cantar?
11.­ Não tem braços, nem pernas, vai ao mato e toca o gado para fora?
12. É alta como uma torre, verde como uma couve, amarga como fel, doce como o mel?
13. Águas bem claras, fonte amarela, casa caiada e ninguém nela?
14. Está no mato, está cantando; está em casa, está dormindo?

RESPOSTAS:
1.­ É a viola: os doze mortos são as cordas, os cinco vivos são os dedos do tocador.
2. A língua. 3.­ O tatu. 4.­ A escuridão. 5. A capivara. 6.­ Marmelada. 7­. Cigarro. 8 . O ano e os meses.
9. As rodas da carreta. 10. O violino. 11.­ Pente fino. 12.­ A bananeira. 13. O ovo de galinha. 14 . O machado.

Perfil de um aposentado incomum

10 de fevereiro de 2016 0
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Arildo gosta de música. Na gaita de oito baixos, um vasto repertório.

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A galinhada do seu Arildo, especialidade da casa, em panela de ferro.

Nossas pequenas praias do Litoral Norte há muito tempo já se tornaram redutos de aposentados. São homens e mulheres que, ao alcançarem seu período de descanso, decidem trocar a agitação dos centros maiores pela tranquilidade das cidades à beira-mar. Arildo Pires é um exemplo disso. Nascido em Nova Bréscia, após 30 anos trabalhando como metalúrgico em Porto Alegre e tendo percorrido cidades do Interior, foi parar no modesto balneário do Pinhal, na divisa com o Magistério.

Aos 82 anos, magro, 1m83cm de altura, vive ali há uma década com a mulher, Alaíde, com quem é casado há 56 anos.
O seu Arildo não pode ser enquadrado no rol daqueles aposentados comuns e praticamente anônimos que fizeram idêntica opção. Ele é, de certa forma, um aposentado incomum, porque carrega um rico e variado repertório de vivências. Ele tem a sua história. Trabalhou em circo, fez teatro, dedicou-se à música gauchesca, foi sindicalista e simpatizante do antigo Partido Comunista.

No Sindicato dos Metalúrgicos, na Capital, conheceu o jornalista João Aveline (1919-2005), de quem se tornou amigo e de quem ainda guarda, numa pequena estante, o livro Macaco Preso para Interrogatório (AGE, 1999), junto com uma edição de bolso do clássico O Capital, de Marx, e O Partidão, de Moisés Vinhas. Orgulha-se também de possuir um autógrafo de Luiz Carlos Prestes e exibe na parede, perto da churrasqueira, uma fotografia de Che Guevara com Fidel Castro. No mesmo espaço, encontra-se ainda um vetusto aparelho de som “3 em 1” (rádio, cassete e toca disco).

Como ator amador, chegou a se apresentar no Theatro São Pedro, na década de 1960, integrando o elenco da peça Eles não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri. Atualmente, na tranquilidade de sua residência simples mas acolhedora, Arildo costuma receber os amigos com uma galinhada, que ele mesmo prepara em panela de ferro, com fogo a lenha. Homem divertido, gosta de contar piadas picantes e executar músicas antigas numa pequena gaita de oito baixos; também canta, dedilhando um violão que carrega consigo há mais de 60 anos.

O evento que ficou na História

09 de fevereiro de 2016 0

Para alguns historiadores e cronistas, foi o maior evento já vivido por Porto Alegre. A Exposição do Centenário Farroupilha, em 1935 – realizado no antigo Campo da Várzea, que recebeu então o nome de Parque Farroupilha –, teve uma grandiosidade e brilho nunca vistos. Promovido pelo governo do Estado e pela prefeitura de Porto Alegre, com o apoio do Centro da Indústria Fabril e da Federação das Associações Rurais, durou mais de quatro meses, com a participação de praticamente todos os Estados, além de países vizinhos, cada um com seu pavilhão. Contou com um imenso parque de diversões e áreas de lazer, abrigando inclusive um cassino e, segundo consta, a primeira churrascaria da cidade. As principais edificações do seu interior só foram desmontadas em 1939.

O grande objetivo da mostra foi marcar os 100 anos da Revolução Farroupilha e festejar o ingresso do Rio Grande do Sul em uma época de modernização e desenvolvimento. O governador do Estado era o general José Antônio Flores da Cunha, e o prefeito da cidade, com uma população em torno de 250 mil habitantes, era o major Alberto Bins.

O cronista Ary Veiga Sanhudo, que também foi vereador, décadas mais tarde, assim descreveu a exposição por ele testemunhada: “O que foi essa festa, em luzes, cores, vida e deslumbramentos, é realmente uma coisa que poucos poderão contar. Em suma, foi o maior acontecimento artístico, cultural, social, comercial, industrial, municipal, estadual, nacional e internacional que a mui leal a valorosa cidade de Porto Alegre realizou em todos os tempos”.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

O Carnaval era assim

08 de fevereiro de 2016 0

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Bem no início, o nosso Carnaval era chamado de Entrudo, palavra que veio de Portugal, onde designava os grandes bonecos de madeira que faziam parte das brincadeiras. Na Porto Alegre antiga, sem bonecos, os foliões, nas ruas, lançavam entre si limões de cheiro, água de seringas e até farinha. Com o aumento da população, o que era simples diversão tornou-se causa de desavenças e mesmo de ferimentos entre participantes e passantes.

Conforme Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, pesquisador do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, além desse Carnaval vivenciado pelo povo e reprimido pela polícia, existiam os blocos e corsos das grandes sociedades, que representavam a elite da cidade. A passagem do Entrudo para o Carnaval dito “bem-comportado” ocorreu dentro de um modelo que reproduzia a festa europeia.

Os festejos de momo, nos seus primórdios, eram praticados pelas classes média e alta em cafés, teatros, confeitarias, clubes e associações. Nas ruas, junto com o corso de automóveis, ocorriam jogos de confete, batalhas de flores e muito lança-perfume. As camadas mais pobres da população eram excluídas dos festejos, embora houvesse circulação de mascarados que tocavam tambores e zabumbas  de origem africana em diversos pontos da cidade.

Com o tempo, o nosso Carnaval de rua, como acentua o pesquisador Costa Leite, “passou a aglutinar tradições populares de origem europeia e africana, fundindo práticas a hábitos que se misturavam nos espaços de resistência cultural da população afrodescendente, considerados o berço do samba, a exemplo da Colônia Africana, Areal da Baronesa e Ilhota, onde surgiu uma série de blocos carnavalescos”.

Algumas figuras conhecidas fizeram parte da fase inicial do Carnaval porto-alegrense. Osmar Fortes Barcellos, o popular Tesourinha, participava do bloco Os Tesouras (de onde se originou o apelido), oriundo da Colônia Africana, assim como os Embaixadores do Ritmo, Aí Vem a Marinha, Namorados da Lua e Prediletos. Para este último, Lupicínio Rodrigues, aos 14 anos, compôs sua primeira música: Carnaval.

Enquanto isso, no Areal da Baronesa, em 1949, era coroado o primeiro Rei Momo negro da Capital, Adão Alves de Oliveira, o seu Lelé (1925-2013). Ainda no século 19, antes dos blocos surgidos posteriormente, havia as tradicionais sociedades carnavalescas, como a Esmeralda Porto-Alegrense, a Sociedade Venezianos, a Germânia, fundada por alemães, e a Sociedade Floresta Aurora, ainda em atividade.

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* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

Rubem Braga paraninfo na UFRGS

06 de fevereiro de 2016 0

A iniciativa de convidar o cronista Rubem Braga (1913-1990) para paraninfo da primeira turma de formandos do curso de Jornalismo da UFRGS, em 1954, foi de Antônio Carlos Ribeiro (falecido em 2012), que já trabalhava no Correio do Povo. Faziam parte do grupo dois profissionais conhecidos, Cândido Norberto e Carlos Rafael Guimaraens. Ninguém acreditava que o já famoso jornalista escritor se dispusesse a vir, mas ele concordou, apenas com garantia de que não precisaria fazer discurso. Seria sua segunda vinda a Porto Alegre.

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A presença de Rubem Braga fez com que o anfiteatro da Faculdade de Filosofia tivesse lotação esgotada na noite de 12 de dezembro, 62 anos atrás. A promessa anterior foi esquecida e o arredio paraninfo não teve como fugir do microfone. De improviso e um tanto desajeitado, lembrou sua chegada à capital gaúcha, 15 anos antes, em 1939, em pleno Estado Novo, quando desembarcou de um navio sabendo que a polícia o esperava. Era acusado de ligações com o Partido Comunista. Mesmo assim, lá estava um amigo para recepcioná-lo, era o jornalista Carlos Reverbel, que foi detido junto, segundo o cronista.

O orador lembrou depois que, no dia da despedida da cidade, na hora do embarque, “diante do espanto dos honrados tiras” que o cercavam, um outro homem, colocando seu emprego em risco, fez questão de lhe dar um abraço. Era o escritor Manoelito de Ornellas, que na época chefiava o escritório regional do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).  Após algumas considerações formais, Braga deixou aos novos jornalistas um único conselho: “Sede, na imprensa e na vida, fiéis a vós mesmos e ao vosso sentimento. Já vivi bastante para saber que só vale a pena o que se faz com serenidade e com amor”.

Terminada a cerimônia, os formandos levaram o paraninfo, que apreciava a vida boêmia, até um bar vizinho, onde festejaram até tarde a conquista do diploma. A iniciativa de convidar o cronista Rubem Braga (1913-1990) para paraninfo da primeira turma de formandos do curso de Jornalismo da UFRGS, em 1954, foi de Antônio Carlos Ribeiro (falecido em 2012), que já trabalhava no Correio do Povo. Faziam parte do grupo dois profissionais conhecidos, Cândido Norberto e Carlos Rafael Guimaraens. Ninguém acreditava que o já famoso jornalista escritor se dispusesse a vir, mas ele concordou, apenas com garantia de que não precisaria fazer discurso. Seria sua segunda vinda a Porto Alegre.

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A presença de Rubem Braga fez com que o anfiteatro da Faculdade de Filosofia tivesse lotação esgotada na noite de 12 de dezembro, 62 anos atrás. A promessa anterior foi esquecida e o arredio paraninfo não teve como fugir do microfone. De improviso e um tanto desajeitado, lembrou sua chegada à capital gaúcha, 15 anos antes, em 1939, em pleno Estado Novo, quando desembarcou de um navio sabendo que a polícia o esperava. Era acusado de ligações com o Partido Comunista. Mesmo assim, lá estava um amigo para recepcioná-lo, era o jornalista Carlos Reverbel, que foi detido junto, segundo o cronista.

O orador lembrou depois que, no dia da despedida da cidade, na hora do embarque, “diante do espanto dos honrados tiras” que o cercavam, um outro homem, colocando seu emprego em risco, fez questão de lhe dar um abraço. Era o escritor Manoelito de Ornellas, que na época chefiava o escritório regional do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).  Após algumas considerações formais, Braga deixou aos novos jornalistas um único conselho: “Sede, na imprensa e na vida, fiéis a vós mesmos e ao vosso sentimento. Já vivi bastante para saber que só vale a pena o que se faz com serenidade e com amor”.
Terminada a cerimônia, os formandos levaram o paraninfo, que apreciava a vida boêmia, até um bar vizinho, onde festejaram até tarde a conquista do diploma.

O Jornalista Maldito: breve história

05 de fevereiro de 2016 0

Sady Garibaldi

Quem enviou este relato, com muitos detalhes, sobre Sady Garibaldi, foi o jornalista, escritor e pesquisador João Batista Marçal, residente em Viamão. O Almanaque Gaúcho procurou apenas sintetizá-lo. Nome pouco lembrado hoje, Garibaldi nasceu em Rosário do Sul, em 6 de abril de 1900. Segundo o historiador Jorge Telles, seu conterrâneo, ele foi “uma das mais lúcidas intelectualidades que a velha freguesia do Passo do Rosário viu nascer”.

Com pouco mais de 15 anos, já era uma presença marcante no meio cultural de sua comunidade. Escrevia nos jornais
O Rosariense e A União, além de produzir peças teatrais. Passou a ser considerado uma espécie de menino de ouro
de Rosário, onde seus sonetos românticos “provocavam suspiros nas mocinhas burguesas que sonhavam com a
marcha nupcial”, como conta Marçal.

A mudança surpreendente veio a seguir, quando Garibaldi começou o seu processo de politização. Entrou em contato com as ideias anarquistas e aproximou-se de Honório Lemes, líder federalista, futuro general rebelde e crítico ferrenho de Borges de Medeiros. Reza a lenda que Sady Garibaldi foi uma espécie de secretário informal do Leão de Caverá. Em 1919, ambos apoiaram a greve dos trabalhadores do frigorífico Swift do Brasil.

A partir da encenação de uma peça teatral, em que o grupo de Sady Garibaldi incorporou anarquistas panfletários e mentores do movimento grevista da Swift, a vida do jornalista mudou. Houve gente presa, assassinada, e ele foi expulso da cidade. Foi parar em Rio Grande, onde ingressou como funcionário dos Correios e, em pouco tempo, já estava trabalhando na imprensa. O mesmo fez em sua passagem por Porto Alegre e, posteriormente, por Pernambuco, onde, em 1925, foi exonerado dos Correios por abandono de cargo. Motivo: estava preso, acusado de subversão.

Por fim, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, sempre dedicado ao jornalismo, mas já como militante comunista. Foi preso durante as comemorações de 1º de maio de 1930. Sua produção literária ficou dispersa nos jornais em que trabalhou. Ao falecer, no Rio de Janeiro, em 1959, possuía uma biblioteca com mais de 20 mil volumes. Mesmo com o codinome de Jornalista Maldito, Sady Garibadi, para Marçal, “honrou o jornalismo de seu tempo”.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

Fama compartilhada

04 de fevereiro de 2016 0

Jorge Amado escreveu num artigo que, certo dia, em 1948, caminhando pelas ruas de Milão, na companhia de sua mulher, Zélia, viu, na vitrine de uma livraria, a exposição da tradução de um de seus livros (Terre del Finimondo). Junto, um cartaz com uma grande fotografia do autor e a frase “Il più noto scrittore brasiliano” (o mais famoso escritor brasileiro).
O casal comentou e sorriu, envaidecido.
Alguns quarteirões adiante, numa outra livraria, lá estava um livro de Erico Verissimo (Il Resto è Silenzio), também com uma foto gigante e a frase idêntica à anterior: “I più noto scrittore brasiliano”. O baiano, tempos depois, relatou essa história ao amigo gaúcho. Ambos riram muito, tendo que aceitar a notoriedade compartilhada.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

O Gaúcho Alegre do Rádio

04 de fevereiro de 2016 0

Esse foi o apelido dado a Pedro Raymundo (1906-1973), que nem gaúcho era. Nascido em Imaruí, Santa Catarina, há 110 anos, veio parar no Rio Grande do Sul, onde se tornou um dos músicos mais populares e uma figura quase lendária dos anos 1930-1940. Quem, dos mais antigos, não se lembra do Adeus, Mariana? Ele foi aquilo que Teixeirinha viria a representar décadas mais tarde. Quando Lauro Rodrigues começou a apresentar o programa Campereadas, em 1935, pela Rádio Gaúcha, o catarinense, com sua gaita, tornou-se a principal atração. Foi, sem dúvida, um dos precursores do gauchismo, num tempo em que nem se falava em movimento tradicionalista.

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O jeito alegre e animado com que executava seu repertório, com predominância de xotes e rancheiras, acabou por atrair Pedro Raymundo ao Rio de Janeiro, capital da República e tambor da vida cultural do Brasil. Lá, de imediato, vestindo-se, falando e tocando como gaúcho – conforme registra Henrique Mann, músico e produtor cultural –, estourou com a toada Gaúcho Alegre, daí a origem do apelido. Logo tomou conta do cenário musical brasileiro, passando a integrar os elencos dos principais programas de rádio, ao lado de nomes como Luz del Fuego, Walter D´Ávila e Brandão Filho. Segundo Mann, Raymundo inspirou até mesmo Luiz Gonzaga, que se tornou o Rei do Baião.

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Uma lesão deformadora no polegar direito, que dificultava o manejo da gaita, abreviou a carreira do músico, que terminou morrendo pobre e esquecido, aos 67 anos. Mesmo com tal biografia e representando o que representou, passados 43 anos, Pedro Raymundo continua esquecido: não há em Porto Alegre nem sequer a designação de uma rua em sua homenagem.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

As agruras de Cassiano Ricardo em Vacaria

03 de fevereiro de 2016 0
Cassiano Ricardo

O escritor e advogado Cassiano Ricardo (E), reunido com Arthur Abbott e A.B. Henderson.

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A porta do Monumento ao Imigrante, em Caxias do Sul, com o seu poema gravado em bronze.

Integrante do movimento modernista brasileiro, o escritor e advogado paulista Cassiano Ricardo (1895-1974) teve uma passagem pelo Rio Grande do Sul, mais precisamente pela cidade de Vacaria, onde morou durante quatro anos. Em 1919, aos 24 anos, instigado por um cunhado, decidiu conhecer as “coxilhas onduladas” e o pampa gaúcho, que há muito o fascinavam.
A viagem, num “fordeco bigode”, como conta em suas memórias, foi uma aventura. Trazendo consigo os pais, a mulher e um filho, entrou por Erechim, passando por Sananduva e Lagoa Vermelha, enfrentando atoleiros em estradas construídas pelas rodas das carretas.

Foi muito bem recebido pelos vacarianos, mas, já no primeiro chimarrão que lhe ofereceram, cometeu uma gafe imperdoável: pediu um pouco de açúcar, para amenizar o amargo da bebida. “Bem mostra que é baiano”, gracejaram os parceiros, dando a entender que era alguém de fora dos pagos.

Cassiano abriu seu escritório de advocacia e já no primeiro dia apareceu um cliente. Entusiasmado, foi logo firmando amizade com maragatos e pica-paus, mas a aproximação maior foi com os primeiros, tornando-se defensor do partido antiborgista. Conheceu os principais líderes políticos da cidade, entre eles, o general Firmino Paim, que costumava, segundo os maragatos, mandar colocar o adversário indesejado no lombo de um burro e largá-lo no outro lado do Rio Pelotas, em território catarinense, vivo ou morto.

Passou também a tomar posição partidária, de que mais tarde viria a se arrepender. Enquanto isso, identificava-se cada vez mais com os costumes da terra: aprendeu a andar a cavalo, a usar a garrucha na cintura, a enfrentar o frio abaixo de zero e a dominar o linguajar do povo. Orgulhava-se de já “saber falar gaúcho”.

Conforme um pesquisador local, o advogado Adhemar Pinotti, Cassiano Ricardo viveu ainda uma experiência amarga em Vacaria: o jogo de roleta, que quase o levou à falência. Conseguiu superar o vício, mas não a ira dos defensores de Borges de Medeiros, motivada também pelos artigos críticos que publicava no jornal Pátria, fundado por ele e o amigo jornalista André Carrazoni.

Ameaçado de morte por mais de uma vez, Cassiano decidiu voltar para São Paulo, no início da revolução de 1923.
A presença de Cassiano Ricardo no Rio Grande do Sul não se encerrou naquela data. Ela continua eternizada em bronze, desde 1953, com o poema gravado no portal do Monumento ao Imigrante,
em Caxias do Sul.

A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes

02 de fevereiro de 2016 0

A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes foi esculpida em Portugal, no ano de 1871, pelo artista lusitano João de Affonseca Lapa. Um grupo de portugueses, formado por João José de Farias, Joaquim Assunção, Antônio Campos e Francisco Lemos Pinto, foi o responsável pela encomenda da escultura. Como não havia uma igreja dedicada à santa, a imagem foi depositada na capela do Bom Fim, em frente ao Campo da Várzea (atual Parque Farroupilha). Ali permaneceu por um curto período, sendo conduzida numa procissão fluvial até a capela do Menino Deus.

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Em 1875, a portuguesa Margarida Teixeira de Paiva doou um terreno, no qual foi construída uma capela de madeira, na zon  a norte de Porto Alegre, para homenagear a santa. Os comerciantes do antigo Arraial, atual bairro Menino Deus, relutaram quanto ao translado definitivo da imagem, ficando esta, por um período, na Igreja Nossa Senhora do Rosário; porém, logo cederam diante da nova capela, especialmente construída para a santa. Encerrado o impasse, a imagem foi transportada via fluvial até o novo local. Infelizmente, esta primeira capela de madeira sofreu um incêndio. No mesmo local, em 1896, ela foi reconstruída em alvenaria.

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Em dezembro de 1910, o ano em que o Cometa Halley cruzou o céu, os moradores vivenciaram outro incêndio, que destruiu a igreja, restando apenas o cálice da comunhão. Neste sinistro, a imagem da santa sofreu danos irreparáveis. Com o empenho da comunidade, um novo templo foi concluído, em 1912, e reinaugurado, em 1913, com a presença de uma nova imagem esculpida por João de Affonseca Lapa, autor da imagem original destruída pelo incêndio.

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O trajeto da procissão fluvial até o atual bairro Navegantes iniciou-se em 1875, quando se construiu a capela de madeira, naquele local, em honra à santa. A tradição açoriana da procissão dos Navegantes no dia 2 de fevereiro, por via fluvial, foi interrompida em 1989, devido ao naufrágio do barco Bateau Mouche, no Rio de Janeiro.

Colaborou Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, coordenador do setor de imprensa do Musecom.