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Rubem Braga paraninfo na UFRGS

06 de fevereiro de 2016 0

A iniciativa de convidar o cronista Rubem Braga (1913-1990) para paraninfo da primeira turma de formandos do curso de Jornalismo da UFRGS, em 1954, foi de Antônio Carlos Ribeiro (falecido em 2012), que já trabalhava no Correio do Povo. Faziam parte do grupo dois profissionais conhecidos, Cândido Norberto e Carlos Rafael Guimaraens. Ninguém acreditava que o já famoso jornalista escritor se dispusesse a vir, mas ele concordou, apenas com garantia de que não precisaria fazer discurso. Seria sua segunda vinda a Porto Alegre.

rubem braga

A presença de Rubem Braga fez com que o anfiteatro da Faculdade de Filosofia tivesse lotação esgotada na noite de 12 de dezembro, 62 anos atrás. A promessa anterior foi esquecida e o arredio paraninfo não teve como fugir do microfone. De improviso e um tanto desajeitado, lembrou sua chegada à capital gaúcha, 15 anos antes, em 1939, em pleno Estado Novo, quando desembarcou de um navio sabendo que a polícia o esperava. Era acusado de ligações com o Partido Comunista. Mesmo assim, lá estava um amigo para recepcioná-lo, era o jornalista Carlos Reverbel, que foi detido junto, segundo o cronista.

O orador lembrou depois que, no dia da despedida da cidade, na hora do embarque, “diante do espanto dos honrados tiras” que o cercavam, um outro homem, colocando seu emprego em risco, fez questão de lhe dar um abraço. Era o escritor Manoelito de Ornellas, que na época chefiava o escritório regional do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).  Após algumas considerações formais, Braga deixou aos novos jornalistas um único conselho: “Sede, na imprensa e na vida, fiéis a vós mesmos e ao vosso sentimento. Já vivi bastante para saber que só vale a pena o que se faz com serenidade e com amor”.

Terminada a cerimônia, os formandos levaram o paraninfo, que apreciava a vida boêmia, até um bar vizinho, onde festejaram até tarde a conquista do diploma. A iniciativa de convidar o cronista Rubem Braga (1913-1990) para paraninfo da primeira turma de formandos do curso de Jornalismo da UFRGS, em 1954, foi de Antônio Carlos Ribeiro (falecido em 2012), que já trabalhava no Correio do Povo. Faziam parte do grupo dois profissionais conhecidos, Cândido Norberto e Carlos Rafael Guimaraens. Ninguém acreditava que o já famoso jornalista escritor se dispusesse a vir, mas ele concordou, apenas com garantia de que não precisaria fazer discurso. Seria sua segunda vinda a Porto Alegre.

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A presença de Rubem Braga fez com que o anfiteatro da Faculdade de Filosofia tivesse lotação esgotada na noite de 12 de dezembro, 62 anos atrás. A promessa anterior foi esquecida e o arredio paraninfo não teve como fugir do microfone. De improviso e um tanto desajeitado, lembrou sua chegada à capital gaúcha, 15 anos antes, em 1939, em pleno Estado Novo, quando desembarcou de um navio sabendo que a polícia o esperava. Era acusado de ligações com o Partido Comunista. Mesmo assim, lá estava um amigo para recepcioná-lo, era o jornalista Carlos Reverbel, que foi detido junto, segundo o cronista.

O orador lembrou depois que, no dia da despedida da cidade, na hora do embarque, “diante do espanto dos honrados tiras” que o cercavam, um outro homem, colocando seu emprego em risco, fez questão de lhe dar um abraço. Era o escritor Manoelito de Ornellas, que na época chefiava o escritório regional do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).  Após algumas considerações formais, Braga deixou aos novos jornalistas um único conselho: “Sede, na imprensa e na vida, fiéis a vós mesmos e ao vosso sentimento. Já vivi bastante para saber que só vale a pena o que se faz com serenidade e com amor”.
Terminada a cerimônia, os formandos levaram o paraninfo, que apreciava a vida boêmia, até um bar vizinho, onde festejaram até tarde a conquista do diploma.

O Jornalista Maldito: breve história

05 de fevereiro de 2016 0

Sady Garibaldi

Quem enviou este relato, com muitos detalhes, sobre Sady Garibaldi, foi o jornalista, escritor e pesquisador João Batista Marçal, residente em Viamão. O Almanaque Gaúcho procurou apenas sintetizá-lo. Nome pouco lembrado hoje, Garibaldi nasceu em Rosário do Sul, em 6 de abril de 1900. Segundo o historiador Jorge Telles, seu conterrâneo, ele foi “uma das mais lúcidas intelectualidades que a velha freguesia do Passo do Rosário viu nascer”.

Com pouco mais de 15 anos, já era uma presença marcante no meio cultural de sua comunidade. Escrevia nos jornais
O Rosariense e A União, além de produzir peças teatrais. Passou a ser considerado uma espécie de menino de ouro
de Rosário, onde seus sonetos românticos “provocavam suspiros nas mocinhas burguesas que sonhavam com a
marcha nupcial”, como conta Marçal.

A mudança surpreendente veio a seguir, quando Garibaldi começou o seu processo de politização. Entrou em contato com as ideias anarquistas e aproximou-se de Honório Lemes, líder federalista, futuro general rebelde e crítico ferrenho de Borges de Medeiros. Reza a lenda que Sady Garibaldi foi uma espécie de secretário informal do Leão de Caverá. Em 1919, ambos apoiaram a greve dos trabalhadores do frigorífico Swift do Brasil.

A partir da encenação de uma peça teatral, em que o grupo de Sady Garibaldi incorporou anarquistas panfletários e mentores do movimento grevista da Swift, a vida do jornalista mudou. Houve gente presa, assassinada, e ele foi expulso da cidade. Foi parar em Rio Grande, onde ingressou como funcionário dos Correios e, em pouco tempo, já estava trabalhando na imprensa. O mesmo fez em sua passagem por Porto Alegre e, posteriormente, por Pernambuco, onde, em 1925, foi exonerado dos Correios por abandono de cargo. Motivo: estava preso, acusado de subversão.

Por fim, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, sempre dedicado ao jornalismo, mas já como militante comunista. Foi preso durante as comemorações de 1º de maio de 1930. Sua produção literária ficou dispersa nos jornais em que trabalhou. Ao falecer, no Rio de Janeiro, em 1959, possuía uma biblioteca com mais de 20 mil volumes. Mesmo com o codinome de Jornalista Maldito, Sady Garibadi, para Marçal, “honrou o jornalismo de seu tempo”.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

Fama compartilhada

04 de fevereiro de 2016 0

Jorge Amado escreveu num artigo que, certo dia, em 1948, caminhando pelas ruas de Milão, na companhia de sua mulher, Zélia, viu, na vitrine de uma livraria, a exposição da tradução de um de seus livros (Terre del Finimondo). Junto, um cartaz com uma grande fotografia do autor e a frase “Il più noto scrittore brasiliano” (o mais famoso escritor brasileiro).
O casal comentou e sorriu, envaidecido.
Alguns quarteirões adiante, numa outra livraria, lá estava um livro de Erico Verissimo (Il Resto è Silenzio), também com uma foto gigante e a frase idêntica à anterior: “I più noto scrittore brasiliano”. O baiano, tempos depois, relatou essa história ao amigo gaúcho. Ambos riram muito, tendo que aceitar a notoriedade compartilhada.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

O Gaúcho Alegre do Rádio

04 de fevereiro de 2016 0

Esse foi o apelido dado a Pedro Raymundo (1906-1973), que nem gaúcho era. Nascido em Imaruí, Santa Catarina, há 110 anos, veio parar no Rio Grande do Sul, onde se tornou um dos músicos mais populares e uma figura quase lendária dos anos 1930-1940. Quem, dos mais antigos, não se lembra do Adeus, Mariana? Ele foi aquilo que Teixeirinha viria a representar décadas mais tarde. Quando Lauro Rodrigues começou a apresentar o programa Campereadas, em 1935, pela Rádio Gaúcha, o catarinense, com sua gaita, tornou-se a principal atração. Foi, sem dúvida, um dos precursores do gauchismo, num tempo em que nem se falava em movimento tradicionalista.

RAYMUNDO

O jeito alegre e animado com que executava seu repertório, com predominância de xotes e rancheiras, acabou por atrair Pedro Raymundo ao Rio de Janeiro, capital da República e tambor da vida cultural do Brasil. Lá, de imediato, vestindo-se, falando e tocando como gaúcho – conforme registra Henrique Mann, músico e produtor cultural –, estourou com a toada Gaúcho Alegre, daí a origem do apelido. Logo tomou conta do cenário musical brasileiro, passando a integrar os elencos dos principais programas de rádio, ao lado de nomes como Luz del Fuego, Walter D´Ávila e Brandão Filho. Segundo Mann, Raymundo inspirou até mesmo Luiz Gonzaga, que se tornou o Rei do Baião.

revistaradio
Uma lesão deformadora no polegar direito, que dificultava o manejo da gaita, abreviou a carreira do músico, que terminou morrendo pobre e esquecido, aos 67 anos. Mesmo com tal biografia e representando o que representou, passados 43 anos, Pedro Raymundo continua esquecido: não há em Porto Alegre nem sequer a designação de uma rua em sua homenagem.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

As agruras de Cassiano Ricardo em Vacaria

03 de fevereiro de 2016 0
Cassiano Ricardo

O escritor e advogado Cassiano Ricardo (E), reunido com Arthur Abbott e A.B. Henderson.

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A porta do Monumento ao Imigrante, em Caxias do Sul, com o seu poema gravado em bronze.

Integrante do movimento modernista brasileiro, o escritor e advogado paulista Cassiano Ricardo (1895-1974) teve uma passagem pelo Rio Grande do Sul, mais precisamente pela cidade de Vacaria, onde morou durante quatro anos. Em 1919, aos 24 anos, instigado por um cunhado, decidiu conhecer as “coxilhas onduladas” e o pampa gaúcho, que há muito o fascinavam.
A viagem, num “fordeco bigode”, como conta em suas memórias, foi uma aventura. Trazendo consigo os pais, a mulher e um filho, entrou por Erechim, passando por Sananduva e Lagoa Vermelha, enfrentando atoleiros em estradas construídas pelas rodas das carretas.

Foi muito bem recebido pelos vacarianos, mas, já no primeiro chimarrão que lhe ofereceram, cometeu uma gafe imperdoável: pediu um pouco de açúcar, para amenizar o amargo da bebida. “Bem mostra que é baiano”, gracejaram os parceiros, dando a entender que era alguém de fora dos pagos.

Cassiano abriu seu escritório de advocacia e já no primeiro dia apareceu um cliente. Entusiasmado, foi logo firmando amizade com maragatos e pica-paus, mas a aproximação maior foi com os primeiros, tornando-se defensor do partido antiborgista. Conheceu os principais líderes políticos da cidade, entre eles, o general Firmino Paim, que costumava, segundo os maragatos, mandar colocar o adversário indesejado no lombo de um burro e largá-lo no outro lado do Rio Pelotas, em território catarinense, vivo ou morto.

Passou também a tomar posição partidária, de que mais tarde viria a se arrepender. Enquanto isso, identificava-se cada vez mais com os costumes da terra: aprendeu a andar a cavalo, a usar a garrucha na cintura, a enfrentar o frio abaixo de zero e a dominar o linguajar do povo. Orgulhava-se de já “saber falar gaúcho”.

Conforme um pesquisador local, o advogado Adhemar Pinotti, Cassiano Ricardo viveu ainda uma experiência amarga em Vacaria: o jogo de roleta, que quase o levou à falência. Conseguiu superar o vício, mas não a ira dos defensores de Borges de Medeiros, motivada também pelos artigos críticos que publicava no jornal Pátria, fundado por ele e o amigo jornalista André Carrazoni.

Ameaçado de morte por mais de uma vez, Cassiano decidiu voltar para São Paulo, no início da revolução de 1923.
A presença de Cassiano Ricardo no Rio Grande do Sul não se encerrou naquela data. Ela continua eternizada em bronze, desde 1953, com o poema gravado no portal do Monumento ao Imigrante,
em Caxias do Sul.

A devoção a Nossa Senhora dos Navegantes

02 de fevereiro de 2016 0

A imagem de Nossa Senhora dos Navegantes foi esculpida em Portugal, no ano de 1871, pelo artista lusitano João de Affonseca Lapa. Um grupo de portugueses, formado por João José de Farias, Joaquim Assunção, Antônio Campos e Francisco Lemos Pinto, foi o responsável pela encomenda da escultura. Como não havia uma igreja dedicada à santa, a imagem foi depositada na capela do Bom Fim, em frente ao Campo da Várzea (atual Parque Farroupilha). Ali permaneceu por um curto período, sendo conduzida numa procissão fluvial até a capela do Menino Deus.

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Em 1875, a portuguesa Margarida Teixeira de Paiva doou um terreno, no qual foi construída uma capela de madeira, na zon  a norte de Porto Alegre, para homenagear a santa. Os comerciantes do antigo Arraial, atual bairro Menino Deus, relutaram quanto ao translado definitivo da imagem, ficando esta, por um período, na Igreja Nossa Senhora do Rosário; porém, logo cederam diante da nova capela, especialmente construída para a santa. Encerrado o impasse, a imagem foi transportada via fluvial até o novo local. Infelizmente, esta primeira capela de madeira sofreu um incêndio. No mesmo local, em 1896, ela foi reconstruída em alvenaria.

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Em dezembro de 1910, o ano em que o Cometa Halley cruzou o céu, os moradores vivenciaram outro incêndio, que destruiu a igreja, restando apenas o cálice da comunhão. Neste sinistro, a imagem da santa sofreu danos irreparáveis. Com o empenho da comunidade, um novo templo foi concluído, em 1912, e reinaugurado, em 1913, com a presença de uma nova imagem esculpida por João de Affonseca Lapa, autor da imagem original destruída pelo incêndio.

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O trajeto da procissão fluvial até o atual bairro Navegantes iniciou-se em 1875, quando se construiu a capela de madeira, naquele local, em honra à santa. A tradição açoriana da procissão dos Navegantes no dia 2 de fevereiro, por via fluvial, foi interrompida em 1989, devido ao naufrágio do barco Bateau Mouche, no Rio de Janeiro.

Colaborou Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, coordenador do setor de imprensa do Musecom.

A Praça da Matriz e suas várias faces

01 de fevereiro de 2016 0

A história da Praça da Matriz, oficialmente Praça Marechal Deodoro, remonta aos primórdios de Porto Alegre. A primeira referência ao local data de 1753, quando ali foi construído um cemitério. Em 1772, aparece no mapa da cidade com o nome de Praça do Novo Lugar. Quando a Capital foi transferida de Viamão, recebeu o Palácio do Governo, concluído em 1789, e passou a se chamar Praça do Palácio da Presidência. Veio em seguida a Igreja da Matriz, cuja rua em frente, hoje Duque de Caxias, era chamada de Rua da Igreja.

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Até 1840, aquele largo não passava de uma elevaç ão irregular do terreno, sem qualquer adorno. Em 1858, o espaço foi denominado Praça Dom Pedro II, em homenagem à visita do imperador a Porto Alegre. Na mesma época, foi inaugurado nas proximidades o Theatro São Pedro. O ajardinamento da área só começou no início da década de 1880, com a plantação de 20 mudas de oliveira trazidas de Portugal.

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Em 1886, o antigo Palácio do Governo é demolido, para receber o atual Palácio Piratini. Em 1889, o logradouro ganha seu atual batismo oficial, Praça Marechal Deodoro, mas para o público continua sendo Praça da Matriz. Já no século 20, em 1914, é construído o Monumento a Júlio de Castilhos. Pouco depois, é demolida a antiga igreja, surgindo em seu lugar a atual Catedral Metropolitana. O Auditório Araújo Vianna, que é visto numa das fotos desta página, é construído em 1927. Já mudou de lugar, cedendo o espaço para o novo prédio da Assembleia Legislativa.

A Praça da Matriz reúne muitas histórias. Tem sido palco de manifestações políticas, até de lutas armadas, de movimentos reivindicatórios, de greves, de invasões, de acampamentos, de depredações. Já hospedou inclusive, em tempos recentes, notórios delinquentes, integrantes da mal-afamada Gangue da Praça da Matriz. Mas, felizmente, prevalece como um aprazível e acolhedor recanto, sempre aberto a todo visitante que busca seus bancos
e sua sombra.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

Parque Marinha

29 de janeiro de 2016 0

A maior área pública (70,7 hectares) do município de Porto Alegre por pouco não se transformou em espaço residencial privado. Era o que estava previsto inicialmente para a ampla extensão aterrada junto ao Guaíba na década de 1960. O Parque Marinha do Brasil só se concretizou na década seguinte, embora anteriormente tenham surgido projetos de aproveitamento público ao longo da Avenida Praia de Belas. A formatação do novo parque, inaugurado em 9 de dezembro de 1978, resultou de um concurso em que saiu vencedor o projeto dos arquitetos Ivan Mizoguchi e Rogério Malinski.

O prefeito da época, Guilherme Socias Villela (período 1975-1983), lembra que o Marinha fez parte de um projeto de urbanização bem mais amplo, que incluía toda a área da antiga Ilhota e a construção do Centro Cultural Renascença. O ex-prefeito recorda ainda que a zona do aterro esteve ameaçada de se transformar num “favelão”, pois antes do início da obras já havia no local cerca de 200 malocas. Hoje, o Parque Marinha do Brasil é um dos recantos mais aprazíveis da cidade, com densa área verde, passeios propícios para caminhadas, contando ainda com dezenas de equipamentos esportivos. No seu interior, encontra-se a sede da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, que, junto com a SMAM (Secretaria Municipal do Meio Ambiente), administra aquele espaço.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

Curiosa coincidência

28 de janeiro de 2016 0

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Quintana e Galeano compartilharam, em épocas diferentes, a mesma fantasia.
Mario Quintana, em seu Sapato Florido, publicado em livro em 1948 (Editora Globo), conta a fábula do homem que, com pena do peixinho que pescara, “retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho”. Depois, levou-o para casa “no bolso traseiro das calças”. Tornaram-se amigos inseparáveis. “Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote que nem um cachorrinho”, descreve o poeta. Com o passar do tempo, o pescador achou que não tinha o direito de guardar aquele pequeno animal consigo. Certo dia – resumindo a história –, passeando à margem do rio, mesmo chorando, atirou o peixinho na água. “E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando… até que o peixinho morreu afogado…”.

Mais de 40 anos depois, o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (falecido no ano passado), em
O Livro dos Abraços (tradução L&PM, 1991), conta o causo do pequeno bagre que decidiu sair de um arroio e seguir o peão Mellado Iturria. Os dois se tornaram amigos inseparáveis. “Desde o amanhecer o bagre o acompanhava para ordenhar e percorrer o campo. Ao cair da tarde, tomavam chimarrão juntos; e o bagre escutava suas confidências”, relata o autor. Até que, “numa certa manhã de muito calor, quando as lagartixas andavam de sombrinha e o bagrezinho se abanava furiosamente com as barbatanas”, Mellado teve a ideia fatal: – Vamos tomar banho no arroio – propôs. “Foram os dois. E o bagre se afogou.”

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* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias

De onde vem a palavra "gaúcho"

28 de janeiro de 2016 0

Nem brasileiros, argentinos, uruguaios e chilenos se entendem. Tudo indica que não existe no Rio Grande do Sul uma etimologia mais controvertida do que a relacionada ao vocábulo “gaúcho”. Até um dos expoentes da nossa cultura do século passado, Augusto Meyer (1902-1970), realizou minuciosas pesquisas, apontou inúmeras versões, mas deu o assunto por encerrado sem adotar nenhuma.

O mineiro Guilhermino César (1908-1993), um rio-grandense por adoção, viu o caso como um “quebra-cabeça”. Na década de 1920, o mestre João Ribeiro já chegara a uma conclusão semelhante quando o considerou como um “problema insolúvel”. Mais recentemente, quando perguntaram a Barbosa Lessa sobre a origem da palavra, ele respondeu: “Ninguém sabe”. Citou o professor Fernando Assunção, que reporta ao francês “gauche” (esquerdo), mas sem muita convicção.

Dois estrangeiros, nossos vizinhos e interessados diretamente na matéria, foram um pouco além. O argentino Costa Alvarez – conforme pesquisas de Carlos Reverbel – chegou a encontrar 25 etimologias da palavra, e o uruguaio Buenaventura Caviglia Hijo ampliou esse número para 36. Segundo ele, a origem pode ter vindo de nada menos que 17 idiomas, do castelhano ao latim, passando por tupi-guarani e árabe. No final, Hijo conclui que gaúcho vem de “garrucho”, portador de garrocha (a nossa garrucha).

Temos ainda mais duas opiniões de estrangeiros. O chileno Rodolfo Lenz indica a palavra araucana “cachu” ou “cauchu” como possível origem. E o argentino Paul Groussac optou por “guacho”. Em resumo, até agora, parece que ninguém se entendeu. Sobre um aspecto do caso, porém, não pairam dúvidas. Durante mais de um século, a palavra “gaúcho” teve uma conotação nada simpática: marginal, ladrão, vagabundo, contrabandista, coureador, aquele que saqueava fazendas só para roubar o couro das reses, que chegou a valer quatro vezes o preço do gado em pé. Hoje, a palavra é tratada com orgulho e respeito por todos os rio-grandenses e está presente, em tom maior, no nosso cancioneiro: “Eu sou gaúcho, eu sou do Sul…”.

* Texto produzido pelo colunista interino, Antônio Goulart, pois Ricardo Chaves está em férias