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O bixaredo

05 de março de 2015 0

Minha mãe adorava assistir à Parada dos Bixos. Quando um novo ano letivo começava, como agora, a expectativa era de como seriam tratados os temas mais atuais pelos calouros universitários, com toda a sua irreverência e alegria juvenil. Passeatas estudantis sempre foram uma tradicional forma de demonstrar indignação e tornar público o descontentamento dos jovens com o rumo das coisas na política, na economia ou no comportamento da sociedade.

Revista do Globo/Reprodução

 

Trotes aplicados pelos alunos veteranos nos novatos também sempre ocorreram, mas em vez de, como tantas vezes acontece hoje, rituais privados de humilhação e atrocidades cometidas pelos mais velhos, a Parada dos Bixos era pública e transparente, para que pudesse ser compartilhada pela população, e, por isso, os desfiles eram nas ruas do centro da cidade. Sobravam críticas para todo mundo.

Revista do Globo/Reprodução

Os acontecimentos recentes eram relidos através de alegorias, de forma divertida e iconoclasta. As fotos da coluna de hoje foram reproduzidas da Revista do Globo e são imagens da Parada dos Bixos de 1954. Elas fazem alusão ao filme Quo Vadis (1951), com os atores Robert Taylor e Deborah Kerr, e também aos concursos de beleza, que faziam (e ainda fazem, talvez menos) grande sucesso na época. A carestia (ainda se usa essa palavra?) e a crise do governo de Getúlio Vargas, que se suicidaria ainda naquele ano, estiveram representadas por um Zé Povo de cartaz no peito e por um Getúlio de lenço no pescoço e charuto na mão. Os protestos eram bem-humorados, cáusticos, e sem violência. Ainda saberíamos agir assim?

Revista do Globo/Reprodução

O Racing da Olavo Bilac

04 de março de 2015 0

Jornal A Hora, REPRODUÇÃO

A ideia surgiu por volta de 1952, entre um grupo de rapazes e meninas que eram vizinhos na Rua Olavo Bilac, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. Formariam um time de futebol amador. Mais do que isso, queriam um clube que congregasse todos em torno do esporte e da convivência social. Uma reunião informal na casa do Fernandinho, sem ata e sem cerimônia, deu a largada. E não é que foi em frente? Mais de 60 anos depois, o cirurgião-dentista e professor aposentado de Odontopediatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Mário Argolo Ferrão (77 anos), ex-zagueiro central, casado, pai de dois filhos e avô de quatro netos, recorda com emoção os velhos e bons tempos em que participava do Racing. O nome foi escolhido como forma de driblar a rivalidade entre gremistas e colorados e homenagear o Racing Club de Avellaneda, um dos principais times da Argentina. A moçada se puxou e o “nosso” Racing conseguiu organizar, além da equipe de futebol, departamentos de vôlei, basquete, bolão, xadrez e até publicou um jornalzinho, A Voz do Racing. O “esquadrão” principal era formado por: Loy, Sérgio Montserrat, Tulio Macedo (ex-dirigente do Grêmio, recentemente falecido), Mário Argolo, Ruy Brasil, Zequinha Montserrat, Alfredo Jardim, Fernandinho, Nakamura e Cláudio (entre outros jogadores eventuais). O técnico era José Macedo e a madrinha era a senhorita Iolanda Fernandes. Uma carta foi encaminhada ao clube argentino, que, para surpresa dos gaúchos, enviou de presente um terno completo de camisetas, inaugurado de forma festiva. O extinto jornal A Hora, num domingo, dia 27 de março de 1955, publicou ampla reportagem sobre o clube dos meninos.

 Jornal A Hora, REPRODUÇÃO
Hoje, os remanescentes, com idades superiores a 70 anos, estão sendo convocados por Mário Argolo para um histórico reencontro. Se você foi craque, torcedor(a) ou conheceu a turma, ligue para (51) 9953-4857. Argolo quer combinar local, data e hora para mais uma reunião, como aquela, na casa do Fernandinho (in memoriam). Mais de 60 anos depois.

A esquina da praça

03 de março de 2015 0

Crédito: Museu Joaquim José Felizardo, Fototeca Sioma Breitman, Reprodução

O lindo automóvel conversível, com passageiros (um deles usando chapéu palheta) comodamente instalados, está trafegando pela Rua Sete de Setembro, no início dos anos 1930. Na esquina oeste da Praça da Alfândega, por onde o carro está passando, se pode ver que havia uma bomba de combustível para abastecer os veículos que começavam a ocupar as ruas da cidade, cada vez em maior número. Uma jovem senhora leva pela mão uma criança, que, com sua touca de babadinho, encara o fotógrafo desconhecido que registrou a cena. Atrás delas está o prédio com jeito de castelinho que alguns identificam como sendo o Edifício Wilson, mas que outros chamam de Edifício Abelheira. Esse peculiar imóvel acabou removido (alguma coisa é realmente imóvel?) para dar lugar a uma construção art déco que foi a sede da Caixa Econômica Federal e que também foi demolida, por implosão, no final de 1976. Ao fundo, se pode ver o imponente Grande Hotel, onde, especialmente nas primeiras décadas do século passado, tudo o que era importante acontecia e as celebridades de então se hospedavam. Quando um grande incêndio destruiu o Grande Hotel, em maio de 1967, ele era um prédio decadente, na esquina da Rua da Praia com a Rua Caldas Jr., que abrigava escritórios e desde 1957 já não funcionava como estabelecimento hoteleiro.

Vermelhos ao lado de azuis. Por um torneio

27 de fevereiro de 2015 0

Gremistas e colorados deliberadamente juntos em estádio, como vai ocorrer no Gre-Nal deste domingo no Beira-Rio, já aconteceu em passado recente, vimos aqui na edição de ontem. Em 1967, Grêmio e Inter estrearam no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, desde 1950 a mais charmosa competição nacional, só disputada entre clubes de Rio e São Paulo. Mas as estrelas Santos, Botafogo, Flamengo, Corinthians, cobravam cota mínima nas viagens ao Sul. Era necessário garantir boa renda, daí a campanha inédita pela presença de gremistas em jogos do Inter e de colorados nos do Grêmio. Um Comitê Robertão mobilizou a cidade na Rua da Praia e a dupla Gre-Nal adotou a ideia de união.

Em Grêmio e Portuguesa, duas bandeiras coloradas.

Em Grêmio e Portuguesa, duas bandeiras coloradas

Houve um Gre-Nal de início, e azuis e vermelhos conviveram em paz no Olímpico, cada um em seu reduto. Viriam mais jogos, a campanha chegou aos bairros e a imprensa pediu aos torcedores que “emprestassem o apoio ao rival”. O público atendeu. Quando o Inter venceu o Flamengo no Olímpico (todos os jogos do Robertão foram lá), os gremistas compareceram e aplaudiram a vitória colorada, uma cena impensável em 58 anos de rivalidade até então. Os colorados retribuíram quando o Grêmio empatou com o Santos. Vibraram no gol de Alcindo e se calaram no de Pelé. Parecia um milagre, e os jornais chamaram os ordeiros de Torcida Gre-Nal, como escreveu Rodrigo de Cardia na monografia Jean Marie, o Brasil vai até o Chuí. O Flamengo levou de volta 25 mil cruzeiros novos, e o Santos, 40 mil – os gaúchos estavam aprovados.

Tricolores e vermelhos no Olímpico

Tricolores e vermelhos no Olímpico

Quando o Grêmio voltou do Rio com uma vitória e um empate, até colorados foram ao aeroporto. Antes de Grêmio e Portuguesa, o filho de um dirigente tricolor mostrou uma bandeira vermelha.

Durou pouco a urbanidade. Na inauguração do Beira-Rio, em 1969, Grêmio e Inter se engalfinharam em batalha campal jamais vista no clássico.

Gremistas e colorados juntos. Em 1967

26 de fevereiro de 2015 0

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Grêmio e Inter já foram bem próximos, solidários e parceiros, um tanto parecido com a iniciativa da torcida mista do clássico de domingo no Beira-Rio. Corria o início de 1966, e a dupla Gre-Nal estava empenhada em participar do antigo torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão, a competição mais badalada do país desde 1950, até então reservada aos grandes de Rio e São Paulo. Mas os gaúchos tinham de provar que fariam renda em seus jogos no Sul, o suficiente para motivar a vinda de um Santos de Pelé, um Botafogo de Gerson, um Flamengo de Almir. As estrelas não voltariam sem a mala de dinheiro. Então nasceu aqui uma campanha inédita pela presença de gremistas nos jogos do Inter e de colorados nos do Grêmio.

 

Antes do clássico, Grêmio e Inter posaram juntos em demonstração de união, como pedia a campanha que tomou conta da cidade

Antes do clássico, Grêmio e Inter posaram juntos em demonstração de união, como pedia a campanha que tomou conta da cidade

Criou-se um “Comitê Robertão”, e os dois decidiram jogar apenas no Olímpico. O Eucaliptos do Inter era acanhado, e o Beira-Rio ainda engatinhava em obras. Espalharam-se faixas promocionais pelo centro de Porto Alegre pedindo a presença amigável das duas torcidas em dias contra os times de fora. O assunto dominou as rodas da Rua da Praia em torno da Galeria Chaves e um sentimento de união surgiu das cinzas. Pedia-se que os gremistas comparecessem e apoiassem o Inter nos jogos
– e o mesmo devia acontecer nos confrontos do Grêmio.

Houve um Gre-Nal logo no início da competição. Torcedores do Inter empunharam faixas vermelhas em meio à maioria gremista no pátio do Olímpico, sem que fossem importunados. Cada torcida ficou em seu espaço, mas bandeiras do Inter apareceram em redutos de arquibancadas reservadas aos azuis.

Os dois times foram a campo e se perfilaram intercalados, gremista ao lado de colorado, uma jogada de incentivo ao comparecimento das torcidas no novo torneio. Até então, via-se Robertão apenas pelo cinejornal de antes das projeções dos filmes. Os gaúchos sonhavam em fazer parte daquele cenário deslumbrante do Maracanã.

Ao final do Gre-Nal de 3 de março, o Inter venceu por 2 a 0, e a renda de 69 mil cruzeiros novos foi decepcionante. A campanha teria de ser mais forte. Amanhã contaremos mais sobre 1967.

Você fez o Simulão de 72?

26 de fevereiro de 2015 0
O primeiro grande Simulão reuniu 22 mil candidatos sobre o cimento do Beira-Rio e consagrou o evento de preparação para o vestibular

O primeiro grande Simulão reuniu 22 mil candidatos sobre o cimento do Beira-Rio e consagrou o evento de preparação para o vestibular

Se você foi vestibulando em 1972, deve lembrar do primeiro Simulão preparatório para o concurso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Era um domingo de agosto, e 22 mil candidatos se submeteram a quatro horas de provas para responder a 25 questões de português, conhecimentos gerais, matemática, inglês e ciência, e outras cinco de um estranho teste
intelectual.

A ideia era desmistificar o vestibular, que à época atingia índices de concorrência perto dos padrões de hoje. O estresse era o novo ingrediente do ensino, que se massificava puxado pelo “milagre” brasileiro dos regimes militares.

Desde cedo, uma multidão tomou as rampas em direção às arquibancadas do estádio Beira-Rio, uma cena de jogo.

Dois meses antes, gremistas e colorados (e possivelmente grande parte daqueles estudantes) haviam ocupado as mesmas arquibancadas no dia em que os gaúchos e o combinado Gre-Nal enfrentaram a Seleção Brasileira no histórico empate em 3 a 3, numa espécie de levante regional pela não convocação do lateral Everaldo. O jogo levou uma multidão de 102 mil torcedores.

Portanto, os 22 mil do Simulão eram um número significativo naqueles tempos em que recém acontecia uma pioneira transmissão a cores no país.

Os candidatos tomaram as superiores, havia gente até nas escadas de acesso, vigiados de cima pela organização. Pelo menos
80 funcionários e professores aplicaram a mesma rigidez do concurso oficial. Outras seis cidades realizaram o evento, que
acabou por se consagrar.

O dia em que a cidade parou

24 de fevereiro de 2015 0
Em 11 de março de 1976, acidente na Avenida Farrapos provocou um dos maiores congestionamentos da história de Porto Alegre

Em 11 de março de 1976, acidente na Avenida Farrapos provocou um dos maiores congestionamentos da história de Porto Alegre

Com a volta das férias, a repentina migração do Litoral para a cidade e o agito do começo das aulas, o porto-alegrense começa a se queixar do trânsito pesado. Já houve tempos piores. Os anos 1970, por exemplo. Milhares de Fuscas, Simca, Corcel e Kombis tomavam as ruas e disputavam cada paralelepípedo com centenas de ônibus de dezenas de linhas que transportavam uma população crescente, já acima do que dizia a canção de refrão ufanista “90 milhões em ação”, cantada na época do tri da Seleção na Copa do México.

Aí chegou o dia 11 de março de 1976, uma quinta-feira. De tão grande o caos, a cidade estancou. Havia obras na área central e era época de retorno às aulas. E chovia. Às 14h, um ônibus da empresa Real Rodovias derrubou uma sinaleira na esquina da Avenida Farrapos com a Rua Dona Margarida. Trancou tudo. Desviaram o trânsito pela Avenida Castelo Branco, mas havia um agravante: obras na Avenida Mauá impediam o escoamento em direção ao Centro. Nada saía, nada chegava aos terminais de ônibus da Capital e da Região Metropolitana. Os passageiros sofriam à espera de uma solução, de pé durante horas.

Em torno do Mercado Público, Praça Rui Barbosa, Sete de Setembro, Júlio de Castilhos, nada era transitável. No Túnel da
Conceição, a novíssima obra de escoamento e de revitalização da cidade, aberta em 1972, nada se movia, também porque um Dodge Dart e um ônibus apresentaram avaria justo naquele dia. Não bastasse, um coletivo da linha Sabará se chocou com um do bairro Navegantes, na Júlio de Castilhos. Passaram-se cinco horas neste quadro de horror.

Porto Alegre parou. Parados desde o início da tarde, motoristas e passageiros temiam a chegada do horário do pique. Ao menos a previsão não se confirmou: o trânsito não ficou pior porque era impossível. Ninguém se mexia. Só perto das 21h,
o trânsito foi normalizado.

Cozinheiros do samba

23 de fevereiro de 2015 0

A foto maior é um daqueles registros ocasionais que revelam a nobreza de uma cultura. Ou como entender um encontro entre o poeta Vinicius de Moraes e o compositor Dorival Caymmi em uma roda de samba à mesa de um restaurante em companhia dos compositores gaúchos Lupicínio Rodrigues e Túlio Piva? Como estamos em tempo de homenagens aos 100 anos do nascimento de Túlio Piva, vale dissecar a tal foto, que é de 1964, mas de data imprecisa. O jornalista e pesquisador Marcello Campos acredita que seja de 1° de março. O local? O Clube dos Cozinheiros, um dos últimos restaurantes que Lupicínio
abriu em suas empreitadas comerciais de pouco sucesso. Ficava no número 800 da Rua Garibaldi. O motivo do encontro? O lançamento de um evento chamado Cafezinho Poético, promovido pela Casa do Poeta do Estado.

Lupicínio (E) recepciona Vinicius e Caymmi ao lado de Túlio Piva, ao violão

Lupicínio (E) recepciona Vinicius e Caymmi ao lado de Túlio Piva, ao violão

Vinicius e Caymmi participaram do evento, antes de serem recepcionados por Lupicínio em torno de uma mesa do Clube. Ao violão, Túlio Piva segura a harmonia. O compositor tem 48 anos – embora haja uma polêmica com relação ao seu ano de
nascimento, se em 1915 ou em 1914. A família consagrou 1915. Além de compositor, Túlio, morto em 1993, era farmacêutico prático desde os tempos de sua Santiago do Boqueirão. Abriu farmácia, a Drogaria Piva, na esquina da Rua dos Andradas com a Doutor Flores, centro de Porto Alegre. Recebia clientes e amigos ligados à música, como fazia Lupi em seus restaurantes.
Túlio também foi dono de bar, como o Gente da Noite.

 

Túlio tinha uma farmácia no centro de Porto Alegre, que foi local de encontro de músicos

Túlio tinha uma farmácia no centro de Porto Alegre, que foi local de encontro de músicos

De volta à foto histórica, Lupicínio avança sobre o prato, como faz o jornalista Demóstenes Gonzales (de costas). Os cantores Johnson e Alcides Gonçalves estão no local e não aparecem na foto, espécie de pequeno encontro nacional do samba.

 

Autor de mais de 500 sambas, como Pandeiro de Prata, Túlio faria 100 anos

Autor de mais de 500 sambas, como Pandeiro de Prata, Túlio faria 100 anos

Olha a fila, furão!

22 de fevereiro de 2015 1

A fila nos cinemas reluzentes dos shoppings ainda não foi abolida, e talvez seja difícil eliminá-la, apesar da compra antecipada com lugares marcados. Mas ela, a dita fila, já foi mais, digamos, explícita e vulnerável na época dos cinemas de rua. Mesmo com ampla antessala, com a bilheteria no recôndito do prédio, ainda assim a fileira humana se estendia pela calçada – uma à espera da compra do ingresso e a outra aguardando a entrada na sala de projeção. Na calçada, tudo podia
acontecer. De tão longa, obstruía a passagem de quem nada tinha a ver com o programa alheio, quando não havia tumulto provocado pela saída do pessoal da sessão anterior. Havia espertos que encostavam em alguém melhor localizado e pediam para que lhes comprasse o ingresso. Logo vinha o protesto: “Olha a fila, furão!”

Semanas de grandes lançamentos levavam multidões às calçadas. No ex-cine Avenida, na esquina da Avenida João Pessoa com a Venâncio Aires, e no Baltimore, na Avenida Osvaldo Aranha, era impossível se manter apenas na calçada estreita. Muitas vezes, as filas avançavam o meio-fio e serpenteavam no leito da rua. Dependia do filme, é claro.

Vejam a foto principal, do antigo Cine Victória. A fila desce pela Avenida Borges de Medeiros um quarteirão inteiro da Rua Andrade Neves até a Rua dos Andradas. O filme? Tubarão, de Steven Spielberg. O ano é 1975, e a aglomeração é um quinhão do sucesso que levou 13 milhões de brasileiros a assistirem a aventura de Roy Scheider e Richard Dreyfuss mar adentro.

Vejam os detalhes dos pacientes fileiros, com sapatos plataforma e pantalonas, as bocas de sino, que de tão largas pareciam ocupar mais espaço na calçada.

Censura no teatro

20 de fevereiro de 2015 0

Alguns dedos da mão forte do regime militar em Porto Alegre se abateram sobre o Teatro Leopoldina, de uma vastidão de 1.230 lugares no número 925 da então fulgurante Avenida Independência – onde hoje se ergue um empreendimento imobiliário. As largas portas de vidro do teatro se abriram em outubro de 1963, acolheram o musical My Fair Lady, com Bibi Ferreira e Paulo Autran, e a peça Liberdade, Liberdade, com Autran e Tereza Rachel. Mas foi em 1968, durante a exibição de Roda Viva, de Chico Buarque, que forças estranhas sequestraram e deram uma surra em dois atores da peça e picharam a fachada do teatro praguejando contra os “comunistas”. É claro que Roda Viva teve a temporada interrompida, o que provocou a ira de Chico Buarque. Dois anos antes, Chico e Nara Leão haviam apresentado com sucesso de público A Banda em festival no Cine Cacique e na boate Encouraçado Butikin. Mas aí era A Banda.