Fachada do Hotel Vendaval nos anos 1960. Fotos: arquivo pessoal
O Hotel Vendaval era onde batia o coração da Praia do Barco. A casa recebia excursões do Sesc e hóspedes de todo o Estado, até mesmo de fora. Foi sede provisória da Associação dos Amigos da Praia do Barco (SAPB) até os anos 1980, com o salão sendo palco de bailes de casais e de Carnaval, shows, gincanas, bingos e outras atividades sociais.
Bloco Piratas do Barco, anos 1980
Bloco Verde, anos 1980
Era o ponto de encontro de toda a comunidade, acolhendo de crianças a idosos. Era no hotel, também, que chegavam os jornais diários na Praia do Barco e, defronte, paravam os ônibus e o Lilico (ou Dindinho).
Time de futebol feminino, anos 1970

O Vendaval funcionou como hotel de 1952 até meados dos anos 1980. Antes de 1976, seu gerador a Diesel era a única fonte de luz elétrica. Depois, anos 1990, foi transformado em camping, com o salão servindo de restaurante e bar. Entrando em 2000, a atividade comercial se tornou menos constante, alternando restaurante com residência de um dos herdeiros.
O comando durante os anos em funcionamento coube a Laura Leal Menger (1927 - 2002), mais conhecida como Dona Laura. O temperamento forte e a liderança, enriquecidos com boa dose de afetividade, foram suas marcas.
Depois de um incêndio em 22 de fevereiro de 2007, o prédio restou em escombros. Isso até estes dias, quando novos proprietários ganharam a autorização para demolir suas paredes, encerrando o ciclo de 60 anos.
A casa em processo de demolição. Foto: Rogério Englert, arquivo pessoal
O terreno do hotel, após a demolição. Foto: Denise Lobo, arquivo pessoal
Colaborou Rubem Penz, também autor do texto abaixo:
Depois do Vendaval
Antes, havia um teto para nos abrigar da chuva, do sol, da solidão. Um acolhimento agridoce mesclava momentos de completo pertencimento com instantes da mais pura impertinência. A nós, de meninos até jovens, cabia intuir a hora de permanecer ou sair, antes da inevitável xingaria. Teto do penhor e da memória.
Depois do Vendaval, o que virá?
Antes, havia constante paradoxo de paredes: dividiam ambientes e uniam pessoas. Superfícies que apoiaram nossas cabeças quando estávamos sentados nos bancos do alpendre; apoiaram nossos corpos em amassos carnavalescos; ampararam nossa inconsciência alcoolizada. Paredes brancas como a paz.
Depois do Vendaval, o que virá?
Antes, havia um piso polido por pés carregados de areia. Lá, deixamos nossos DNAs em muitas escalavradas de joelhos, deixamos pegadas num trilhar cotidiano e incansável, derramamos lágrimas e cerveja, reverberamos as mais estridentes gargalhadas. Foi como se sempre estivéssemos descalços, tamanha intimidade com aquele chão. Chão que viu tombos e decolagens.
Depois do Vendaval, o que virá?
Antes, não havia dia nem hora. A manhã abria seus olhos ao aroma do café para ver o bom dia dos passantes e para a leitura preguiçosa das notícias nos jornais. Meio-dia de almoço caseiro para hóspedes e hordas de peregrinos com suas viandas. Tarde de preguiça e horas infinitas. Noite de carteado, samba, beijos e conversa fora até o novo amanhecer.
Depois do Vendaval, o que virá?
Antes, havia muitos pontos: ponto de encontro, de partida, de chegada, de referência... Todos, batíamos o ponto no Vendaval. Marcávamos nossos pontos nas incontáveis gincanas, costurávamos melodias e fantasias ponto por ponto para o carnaval. A vida circulava na ponta da língua, sempre afiada. Só era proibido entregar os pontos: vencer a madrugada era uma questão de honra.
Depois do Vendaval, o que virá?
Hoje, não há mais teto, foram-se as paredes, sumiu nosso chão. O Hotel Vendaval perdeu-se nas horas consumido pelo ponto final. Agora, o que virá? Saudade e a certeza de que tudo valeu em cada preguiçoso segundo.
Depois do Vendaval, a bonança.
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