Em muitos bairros residenciais de Porto Alegre, ainda sobrevive a prática de futebol nos "campinhos". Qualquer pedaço de terra – um terreno baldio, ou um quintal – serve de pretexto para as partidas entre amigos, a maioria estudantes, ou mesmo trabalhadores que se reúnem para jogar futebol em locais improvisados.
O campinho onde já joguei nos anos 1960 e 1970 – na Rua São Joaquim, bairro Glória – não foge à regra. Ele não pode ser comparado a uma cancha de futebol oficial. É apenas um arremedo de campo, onde o espírito varziano era cultivado. Entretanto, cumpre perfeitamente o papel de congregar amigos numa pelada disputada e divertida.
Moradores da Rua São Joaquim, em Porto Alegre, no campinho de futebol, em 1968: Itamar, Pato, Xandico (com a bola), Jacó, Artur e Zé (de pé). Foto: arquivo pessoal
Acha-se localizado nos fundos de um terreno elevado. Este, quando alcança a linha de fundo do campinho, torna-se plano. Algumas árvores, de pequeno porte, fornecem sombra. Uma grama rala que reveste o terreno é utilizada como arquibancada natural. Arbustos, ruelas, casas, taquareiras e paineiras demarcam a área.
As goleiras têm como postes caibros de madeira, e o travessão de uma delas é um pedaço de taquara amarrada por fios de luz. Às vezes, com um chute forte no travessão, é preciso recolocar a taquara amarrada no seu devido lugar. No meio do campo existem pequenas elevações e buracos – após uma chuva, os próprios jogadores devem drenar as poças d’água.
Com todas essas improvisações, o campinho cumpriu sua função social primordial de área de encontro e lazer. Até 2004, sobreviveu à especulação imobiliária que fechou o espaço público em outros cinco campinhos de várzea então existentes. A partir do crescimento da violência urbana, os moradores foram coagidos a instalar, naquele ano, um portão no corredor que levava ao campo, visando à segurança da região – mas inibindo definitivamente o encontro espontâneo dos futebolistas de bairro, cada vez mais raro.
Foto: arquivo pessoal
(colaborou Salvatore Santagada)
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