Orson Welles esteve duas vezes em Porto Alegre. Entre a primeira visita e a segunda, dois dias apenas. Quando ele passou por aqui, em maio de 1.942, indo para Buenos Aires, — onde entregou prêmios de cinema — e, depois, voltando de lá, já estava no Brasil havia quatro meses.
No ano anterior, 1.941, o filme Cidadão Kane tinha sido lançado consolidando sua fama de gênio e de enfant gâté de Hollywood. Aos 27 anos, o ator, roteirista e diretor impressionou pela sua figura de "gigantesco boneco sorridente" — como registrou a repórter Norah Lawson da Revista do Globo— pela sua desenvoltura e, principalmente, por sua voz "cheia e modulada que convence e fascina".
Tomou um cafezinho no Aeródromo São João e disse que o Rio de Janeiro era, depois de São Francisco, na Califórnia, a cidade de que mais gostava. Falou que o Brasil tem coisas "maravilhosas, fantásticas, ambientes de sonho e lenda..."
Na volta, abatido e amolado, desabafou:
— Tive que tomar parte de quatro cocktails, dois jantares de gala, e três cerimônias solenes, em apenas 42 horas. Os argentinos são por demais gentis, entretanto fico feliz de tornar a ouvir falar o português...
Pediu uma água mineral, tomou meio copo, e usou o resto para empapar o cabelo desajeitado. Perguntado como recebia, quando o chamavam de gênio, respondeu:
— Falando francamente, poucas vezes tenho lido alguma coisa onde me chamam assim. Gênio é coisa escassa, eu conheço dois: Walt Disney e Albert Einstein. Quanto a mim, não passo de um indivíduo prático, de um homem que sabe fazer as coisas e em que tempo elas devem ser feitas.
Fez uma dedicatória sobre a foto em que aparece acendendo o cigarro da repórter, batida dois dias antes, e despediu-se dos jornalistas com um "good lucky!"
Foto autografada por Welles durante visita ao Brasil
Quem foi Orson Welles
— Aos 18 anos, já era famoso como ator no teatro experimental. Um ano depois estreou na Broadway na montagem de "Romeu e Julieta".
— Dirigiu 27 filmes entre os 113 que compõem sua obra também como ator, roteirista, produtor e montador.
— Foi ele quem fez a narração histórica dizendo que marcianos haviam chegado à Terra e que estavam em Nova Jersey. O texto foi lido com imenso realismo e divulgado pela rádio CBS nem novembro de 1938. Muitas pessoas entraram em pânico e começaram a fugir de suas casas ao ouvir a dramatização do texto de "A Guerra dos Mundos", um clássico da ficção científica de H.G. Wells. Tudo não passava de brincadeira.
— Em 1941, dirigiu o filme "Cidadão Kane", revolucionando as técnicas de filmagem.
Welles dirigindo Cidadão Kane em Hollywood
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