O leitor Regis Zigue esclareceu a história da foto do bonde na praia, publicada ontem aqui no Almanaque Gaúcho.
Foto: Roni Paganella, BD, 20/12/1970
Explica ele, por e-mail, que sua família adquiriu o veículo da Cia. Carris para transformá-lo em bar e lancheria nas areias de Tramandaí. O estabelecimento funcionou por cerca de quatro anos, a partir do verão de 1970 para 1971. Veja trechos da mensagem de Regis:
"Aquele bonde foi comprado da Cia. Carris por meus pais Augusto Lautério Zigue e Zeny do Nascimento Zigue, e colocado nas areias da praia de Tramandaí. A localização era a seguinte: seguindo pela rua da Igreja, ao chegar na praia, cerca de 500 metros à esquerda.
Os bonde nº 2 da Carris foi transformado em um bar e lancheria, onde trabalhei com meus pais e irmãos por alguns anos durante os verões. A foto é realmente do ano de 1970, antes de o bar ficar pronto e entrar em funcionamento no verão de 1970 para 1971.
Lembro, porém, que o bonde não ficou muito tempo em atividade, no máximo quatro anos. Era inviável financeiramente, porque na época Tramandaí não tinha uma população residente como existe hoje, e isso impossibilitou o funcionamento do bar o ano todo. Os adultos tinham empregos fixos em Porto Alegre durante o ano e no verão se tornava difícil a permanência deles na praia, a não ser que estivessem em férias. Às vezes, apesar de bem jovem (14 anos), eu passava a semana inteira atendendo sozinho no bar. Esses problemas de "operacionalização" imagino que também tenham sido preponderantes para que a ideia do bonde fosse abandonada, infelizmente.
O bonde foi vendido depois e, se não me falha a memória, os compradores tinham a intenção de colocá-lo no pátio de algum colégio. O município onde estaria localizado aquele colégio, infelizmente, não me recordo."
O trajeto do bonde até o Litoral foi um episódio à parte. O veículo foi levado na carroceria de um caminhão pela RS-030, já que ainda não havia freeway. Regis lembra que não foram feitas fotos da viagem, mas conta a história pelos relatos de seu irmão mais velho, Loeci Antônio Zigue, já falecido:
"Meu irmão Loeci acompanhava o transporte em um Ford 1949, que já era velho naquele ano de 1970. O carro teve problemas mecânicos em Gravataí e ele perdeu de vista o caminhão e sua preciosa carga. Feitos os reparos necessários no Ford, ele se encaminhou o mais rápido possível para tentar alcançar o caminhão e o bonde. Foi tão rápido que acabou ficando em dúvida se já não havia ultrapassado o caminhão, caso o motorista tivesse parado para descansar em algum posto de gasolina ou restaurante.
Em Santo Antônio da Patrulha, às margens da rodovia, havia um posto da Polícia Rodoviária Estadual (PRE) _ onde, naturalmente, sempre havia algum engarrafamento pela velocidade reduzida dos veículos ao passar pela PRE.
Já nervoso e em dúvida sobre a localização do bonde, Loeci colocou quase todo o corpo para fora da janela do carro e perguntou bem alto para o policial que estava dentro do posto:
- Tu viu se passou algum bonde por aqui?
Talvez vocês possam imaginar a expressão das pessoas que escutaram pergunta e as risadas que seguiram, mas talvez ninguém possa imaginar a reação das pessoas quando o policial, lá de dentro do posto, respondeu, em voz mais alta ainda:
- O bonde? Acabou de passar. Se te apressares, poderás encontrá-lo logo ali, talvez antes de Osório."
Agradecemos ao Regis pelo relato, esclarecendo o mistério do bonde da praia.
Comentários