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Sobre homens e répteis

24 de setembro de 2007 0

Sobre homens e répteis

 

          Ele chegou era quase inverno, já se sentia o cheiro da geada. No galpão, ao redor do fogo, uma luz escura afundava sombras.

         Veio muito quieto; quando deu boa noite, até os cachorros se assustaram. Pediu pouso e trabalho, era domador. O patrão dera ordem:Não ajustar gente sem indicação. Mas os potros precisavam doma. O capataz decidiu, ele ficou.

        Tinha cabelo escorrido, olhos estreitos e mãos calmas, que trançavam couro. Era o que fazia, depois do trabalho, no canto, perto da janela. Com a faca de ponta, cortava tiras e depois trançava em cordas compridas. Os dedos voavam, pareciam aranha. Então, devagar, com sebo de ovelha, fazia o couro ficar macio, igual musgo em pedra. Ao seu redor, as cordas trançadas iam se enroscando na terra varrida.

       Falava pouco, sem fazer barulho, como quem resvala. Não fez amigos, mas domava bem. Era jeitoso com os animais. Com os companheiros, era respeitoso. Todos se habituaram àquela sombra quieta.

       Passaram chuvas, queimou geada, até que, um dia, o frio terminou. Foi-se também o vento, a primavera. Com o verão, chegaram as cigarras. Invisíveis, como sempre foram. Mas naquele ano, as cobras também vieram. Tantas que, igual, ninguém nunca vira.

      No galpão, na casa, só se falava nelas. Nem os mais antigos sabiam contar algo semelhante. O chão parecia que serpenteava quando se moviam. Talvez fosse a chuva que inundava as tocas. Ou as queimadas que as enlouqueciam. Mas por que só na estância ? Capricho da natureza, dizia a rádio. Todos ouviam, baixavam a cabeça e fingiam que acreditavam.

     Logo começaram a morrer galinhas, depois cordeiros. A égua do patrão não se foi por muito pouco. Trouxeram até benzedeira, lá da encruzilhada. Quem dormia no chão ergueu a cama. Não por medo, por precaução.

     Mas até com cobra a gente se habitua. Usa mais cuidado, olha os pelegos, sacode as botas e vai vivendo.

     Até um dia. Parece ontem. Era tarde quente, tarde mormacenta, dessas que terminam em chuva ou vento. Foi quando ouvi o grito da patroa. As cobras tinham entrado na casa da fazenda.

    Eram muitas e grossas, no chão de tábuas. Saí correndo, de saia levantada. Fui buscar homem. Procurei os outros, mas naquela hora, assim por perto, só havia ele. Chamei, gritei.

-  Depressa, corre! – falei mais alto.

-  Calma, mulher, eu já vou indo, chegou a hora.

    Devagar, como sempre, foi caminhando e entrou na casa. Não acanhado, cabeça erguida. Parecia dono, não fosse a roupa. Vinha sem arma, de mãos pendentes.

     Mostrei os bichos, ele não fez nada. Viu a patroa contra a parede, estava branca como lã de ovelha. Seus olhos estreitos mais se estreitaram. Assim imóvel, olho apertado, ponta de língua entrando e saindo da boca larga, não era homem, era serpente olhando passarinho.

    Gritei de novo, muito assustada. Ele virou como se acordasse e disse algo, falou baixinho. Levantou a mão, parecia padre distribuindo a benção. As cobras todas se enrodilharam, iguais às cordas que ele fazia. Pegou a patroa, levou pro quarto. Antes da noite, tinham ido embora. As cobras também sumiram. Ficaram rastros compridos no barro lá na porteira, como quem diz: Não é mentira.

  Depois disso, o povo mudou-se para outras pousadas. Na lavoura, cresceu o mato. Do gado, um pouco se espalhou, outro pouco foi roubado. A estância rica virou tapera.

  Agora, do que tinha antes, só tem o campo, capim e pedra. Minto, tem o patrão. Vive por lá, entre as geadas, entre as cigarras. Cinza e medroso, igual lagarto.  

( Ana Mariano na antologia 102 que contam - organizador Charles Kiefer  - Nova Prova Editora, 2005)

Postado por ana mariano

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