Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de setembro 2007

O desejo de ser um amante

30 de setembro de 2007 1

O texto de hoje não é meu , é de Juarez Guedes Cruz,  médico e psicanalista gaúcho, prêmio Açorianos 2004 pelo A Cronologia dos Gestos ( editora Movimento).

Juarez lançou recentemente, pela mesma editora, seu segundo livro :  Alguns procedimentos para ocultar feridas, do qual escolhi um conto que, tenho certeza, vai falar à alma de cada um de vocês, como falou a minha.

O Desejo de Ser um Amante

Se eu pudesse ser um amante, agora mesmo, e a todo galope, com o corpo inclinado e suspenso no ar, estremecendo sobre a cama oscilante, até deixar as roupas, pois não tinha roupas, até dissolver limites, pois não tinha limites, só vendo na minha frente uma paisagem branca como um lençol branco, aos poucos com teu perfume e teus cabelos, e logo teu rosto e teus seios e não mais a cama vazia, já com teu corpo inteiro e não só teu corpo, mas também os gemidos e o entrecerrar de pálpebras e o reclamar  minha presença e não me deixar sair de perto, já não meu corpo suspenso no ar, mas tocando, milimétrico, tua pele, gosto e calor, sem saber se sou eu-amante ou Kafka nas pradarias ceifadas do Oeste americano, sendo e não sendo índio, sobre o cavalo a todo o galope, com o corpo inclinado e suspenso no ar, estremecendo sobre o solo oscilante, até deixar as esporas, pois não tinha esporas, até deixar as rédeas, pois não tinha rédeas, e só vendo, Kafka, na sua frente, uma pradaria ondulada, já sem o pescoço e sem a cabeça do cavalo e eu, não mais amante solitário, já com teu rosto e teus gemidos e teu perfume e tua pele morna, milimétrica, e teu sorriso se eu murmurasse tais palavras e compreendesses, finalmente, o quanto te quero e me retribuísses com a umidade propícia e nada dessa ameaça de não estar presente mesmo quando estás comigo.

( Juarez Guedes Cruz, Alguns procedimentos para ocultar feridas, Editora Movimento, 2007)

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Desamor

29 de setembro de 2007 1

Desamor

 

Esgueirou-se pela fenda,

filete d´água separando musgos.

Respirar de bicho sobre a casa nua.

Engoliu móveis, dissolveu lençóis,

apagou o gerânio perto da janela.

Deixou no espelho um rosto só,

opaco como a lua que se vê ao dia.

Um rosto só e a cama,

imensa e pura.

 

( ana mariano, Olhos de Cadela, L&PM)

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Metamorfose

26 de setembro de 2007 1

Papillon/foto de Hugo Amador
Metamorfose 

Antes que se aquietem os círculos das horas,

dobro-me em mim mesma,

crisálida borboleta.

Os fios do meu casulo

e o que sou derramo.

Na folha deserta a casca,

suja de campo e geada,

rabisca um céu de outono.

Na palavra pouso.

Trêmula.

Borboleta.

 

( Ana Mariano, Olhos de Cadela, L&PM)

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Convite

25 de setembro de 2007 0

Antologia de Contistas Bissextos /L&PM

Convido vocês para o lançamento da Antologia de Contistas Bissextos, organizada por Sergio Faraco, L&PM editora. Será na próxima quinta-feira, dia 27 de setembro, às 19 horas, na livraria Siciliano do Shopping Moinhos de Vento. Uma boa oportunidade para conferir, entre outros, contos de : Tarso Genro, David Coimbra, Ivo Bender, Ivette Brandalise, Julio Conte, Miguel Casella da Costa Franco, Beatriz Viégas-Farias .

Nas palavras do organizador, escritor Sergio Faraco:

 

%22 Sugeriu-me um amigo que organizasse esta antologia de contistas eventuais, bissextos e então me ocorreu a idéia de convidar não apenas autores que raramente escreveram contos ou nunca o fizeram, mas que tivessem algum ou muito destaque em outras áreas da arte, para descobrir o que pensam, sem fórmulas ou modelos já usados, sobre aquilo que venha a ser um conto. %22

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Sobre homens e répteis

24 de setembro de 2007 0

Sobre homens e répteis

 

          Ele chegou era quase inverno, já se sentia o cheiro da geada. No galpão, ao redor do fogo, uma luz escura afundava sombras.

         Veio muito quieto; quando deu boa noite, até os cachorros se assustaram. Pediu pouso e trabalho, era domador. O patrão dera ordem:Não ajustar gente sem indicação. Mas os potros precisavam doma. O capataz decidiu, ele ficou.

        Tinha cabelo escorrido, olhos estreitos e mãos calmas, que trançavam couro. Era o que fazia, depois do trabalho, no canto, perto da janela. Com a faca de ponta, cortava tiras e depois trançava em cordas compridas. Os dedos voavam, pareciam aranha. Então, devagar, com sebo de ovelha, fazia o couro ficar macio, igual musgo em pedra. Ao seu redor, as cordas trançadas iam se enroscando na terra varrida.

       Falava pouco, sem fazer barulho, como quem resvala. Não fez amigos, mas domava bem. Era jeitoso com os animais. Com os companheiros, era respeitoso. Todos se habituaram àquela sombra quieta.

       Passaram chuvas, queimou geada, até que, um dia, o frio terminou. Foi-se também o vento, a primavera. Com o verão, chegaram as cigarras. Invisíveis, como sempre foram. Mas naquele ano, as cobras também vieram. Tantas que, igual, ninguém nunca vira.

      No galpão, na casa, só se falava nelas. Nem os mais antigos sabiam contar algo semelhante. O chão parecia que serpenteava quando se moviam. Talvez fosse a chuva que inundava as tocas. Ou as queimadas que as enlouqueciam. Mas por que só na estância ? Capricho da natureza, dizia a rádio. Todos ouviam, baixavam a cabeça e fingiam que acreditavam.

     Logo começaram a morrer galinhas, depois cordeiros. A égua do patrão não se foi por muito pouco. Trouxeram até benzedeira, lá da encruzilhada. Quem dormia no chão ergueu a cama. Não por medo, por precaução.

     Mas até com cobra a gente se habitua. Usa mais cuidado, olha os pelegos, sacode as botas e vai vivendo.

     Até um dia. Parece ontem. Era tarde quente, tarde mormacenta, dessas que terminam em chuva ou vento. Foi quando ouvi o grito da patroa. As cobras tinham entrado na casa da fazenda.

    Eram muitas e grossas, no chão de tábuas. Saí correndo, de saia levantada. Fui buscar homem. Procurei os outros, mas naquela hora, assim por perto, só havia ele. Chamei, gritei.

-  Depressa, corre! – falei mais alto.

-  Calma, mulher, eu já vou indo, chegou a hora.

    Devagar, como sempre, foi caminhando e entrou na casa. Não acanhado, cabeça erguida. Parecia dono, não fosse a roupa. Vinha sem arma, de mãos pendentes.

     Mostrei os bichos, ele não fez nada. Viu a patroa contra a parede, estava branca como lã de ovelha. Seus olhos estreitos mais se estreitaram. Assim imóvel, olho apertado, ponta de língua entrando e saindo da boca larga, não era homem, era serpente olhando passarinho.

    Gritei de novo, muito assustada. Ele virou como se acordasse e disse algo, falou baixinho. Levantou a mão, parecia padre distribuindo a benção. As cobras todas se enrodilharam, iguais às cordas que ele fazia. Pegou a patroa, levou pro quarto. Antes da noite, tinham ido embora. As cobras também sumiram. Ficaram rastros compridos no barro lá na porteira, como quem diz: Não é mentira.

  Depois disso, o povo mudou-se para outras pousadas. Na lavoura, cresceu o mato. Do gado, um pouco se espalhou, outro pouco foi roubado. A estância rica virou tapera.

  Agora, do que tinha antes, só tem o campo, capim e pedra. Minto, tem o patrão. Vive por lá, entre as geadas, entre as cigarras. Cinza e medroso, igual lagarto.  

( Ana Mariano na antologia 102 que contam - organizador Charles Kiefer  - Nova Prova Editora, 2005)

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Convite

24 de setembro de 2007 0

 Bate- Papo

Quem se interessou pelo tema da leitura dos clássicos, poderá participar, na próxima terça-feira, dia 25 de setembro, às 19,30 horas no Studio Clio ( José do Patrocínio 698) do bate-papo %22 Por que ler clássicos%22 , com Léa Masina, Luiz Antonio de Assis Brasil, Tatata Pimentel, João Armando Nicotti e eu.

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Por que ler os clássicos ?

23 de setembro de 2007 0

Capa do Guia de Leitura /L&PM
O medo dos clássicos

Confesso ( morrendo de vergonha) que, por muito tempo, tive medo dos clássicos. Achava que eram uma leitura difícil, estilo apenas, um %22escrever bem%22 que não me interessava pois não pretendia ser escritora.

Deus do céu! como estava errada! Esse preconceito, como sempre acontece com os preconceitos, me fez perder maravilhas que só agora estou descobrindo.

Um clássico existe porque, rompendo regras, conseguiu algo indefinível, universal e humano que o faz atemporal, não datado.

Ezra Pound: um clássico é clássico não porque esteja conforme certas regras estruturais ou se ajuste a certas definições ( das quais o autor clássico provavelmente jamais teve conhecimento). Éle é clássico devido a uma juventude eterna e irreprimível.

No Guia de leitura – 100 autores que você precisa ler, organizado por Léa Masina, me coube escrever sobre Ernesto Sabato. Para ser sincera, não tenho certeza se esse maravilhoso escritor argentino já é um clássico. Muito recente, ele não passou ( ainda!) pelo crivo do tempo. Mas, é do fundo do coração que digo: leiam, releiam Sabato!

Nascidos do inconsciente, conjunto de contradições que jamais engana, seus personagens são, ao mesmo tempo, fortes e de uma delicadeza comovente. Comecem com O Túnel ( 1948) e depois enfrentem, sem medo, as muita páginas de Sobre Heróis e Tumbas ( 1961),

Transcrevo abaixo, de forma livre e incompleta, um trecho desse livro.

Assim se manifesta a felicidade. Em pedaços, por momentos. Quando a gente é criança, espera a grande felicidade, uma felicidade enorme e absoluta. E na espera desse fenômeno deixamos passar ou não apreciamos as pequenas felicidades, as únicas que existem. É como… Imaginem um mendigo que despreza esmolas pelo caminho, porque lhe deram a informação de que num certo lugar esconde-se um formidável tesouro. Um tesouro inexistente. Parecem ninharias: uma conversa agradável com um amigo. Ou, quem sabe, estas gaivotas que voam em círculos. Este céu. A cerveja que tomamos há pouco. Ás vezes acho que essas felicidade existem justamente porque são pequenas. Como essas pessoas que passam desapercebidas.                                                          ( Ernesto Sabato)

 

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Retrato de Menina

21 de setembro de 2007 3

retrato
Retrato de Menina 

Na gaveta das coisas esquecidas,

não de todo, porque envoltas

nos panos frágeis do existido,

eu menina.

Prefácio apenas.

Minha inocente identidade,

amálgama do herdado,

está ali, inocente e clara.

Nos cabelos, o vento brinca,

contínuo movimento.

Meus olhos se apertam :

o sol, o pai, então eu tinha.

De permanente, só dois dentes.

Os outros são de leite.

Assim, leite e permanência, pensava a vida.

Um cortejo? a procissão ? o carnaval ? não sei.

O que esperava se perdeu e me observa.

Postado por ana mariano

Bookmark and Share

Música e Poesia

20 de setembro de 2007 1

Recentemente houve, entre os leitores do jornal New York Times, uma interessante  discussão sobre se letra de música podia ser poesia e vice-versa. Sempre me pergunto isso quando leio as letras do Chico. Hoje, estou colocando no blog uma música que o Neto Fagundes fez usando alguns versos meus da poesia Espera na qual homenageio a mulher gaúcha. Acho que, com essa música, o Neto responde à pergunta do jornal americano.

Quando vim morar em Porto Alegre, o programa das noites de domingo era ouvir no rádio o Rodeio Coringa com Darcy Fagundes (depois vinha o Grande Teatro… esqueci o nome). O melhor rádio ficava no quarto da mãe e lá nos reuníamos depois de matarmos, meu irmão e eu, com tiros de travesseiros, os mosquitos pousados no teto. Desde então, embora nunca os tivesse conhecido pessoalmente, os Fagundes, são parte da família. Assim como as saudades do campo eles atravessam, de forma natural, a minha vida. Um beijo a todos neste dia farroupilha e, %27%27se o patrão velho lá de riba permitir, até amanhã, gaúchos e gaúchas de todas as querências.%27%27

Ouça a música

Postado por Ana Mariano

Bookmark and Share

Espera

18 de setembro de 2007 5

%22 Criar filhos é negócio de mulher. Cuidar da casa é negócio de mulher. Sofrer calada é negócio de mulher. Pois fique sabendo que esta revolução também é negócio de mulher. Nós também estamos defendendo o sobrado. Alguma de nós já se queixou? %22 ( Maria Valéria em O Tempo e o Vento, de Érico eríssimo )

 

Espera

Num dia de azul e vento, desses que fazem setembros,

nem sei mais há quantos anos,

envolto em poncho de sonhos, partiste buscando teu justo.

 

Coragem é também quietude no olho do furacão.

Preciso ir, tu falaste.

Se mais tua boca não disse, teu jeito fez o pedido

e na meia-água da casa, no galpão de estrela e zinco,

perdida de tua presença, olhando a curva da estrada,

pensando em ti, sigo a lida.

 

O tempo, que tudo apaga, nunca mexeu na saudade.

Pergunto a todos que cruzam se não viram teu semblante

e, como se fosse uma cuia

morna,

de mão em mão,

o acaso cheio de baldas

vai me alcançando teus traços.

 

Sei que caminhas descalço, sem teu poncho de vermelho.

Farrapo, te chamam agora, na intenção de ofender.

Mal sabem eles, vaidade é só penacho de pena.

Do quero-quero, a vontade, se mostra mesmo é no grito.

 

A vida, velha carreta pesada de devaneios,

há de trazer-te algum dia.

Vivo ou morto, não importa,

vais encontrar teu cachorro esperando na porteira.

 

Perdoa, se entretida na lida que me deixaste,

assim, de primeira feita,

eu nem te ponha reparo.

É que embaixo do vestido,

no coração que levaste,

eu te carrego bem vivo, igual

não tivesses ido.

 

Postado por Ana Mariano

Bookmark and Share