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Posts de outubro 2007

Prostitutas

31 de outubro de 2007 0

A ficção não quer saber do que sei, exige que eu faça. Uma de suas últimas exigências foi a de escrever sobre uma prostituta. Passei dias em desespero, tentando um pouco mais real minha prostituta imaginária.Um amigo recomendou-me o documentário do cineasta gaúcho Felipe Diniz.- Histórias de Esquina ( www.historiasdeesquina.com.br). Filmado em Porto Alegre, o documentário mostra 24 horas na vida de 4 prostitutas e tem momentos memoráveis num dos quais me inspirei para escrever Arroz, feijão e massa. Selecionado no concurso Charles Kiefer, o conto está no livro 30 Contos Imperdíveis ( Nova Prova Editora) com lançamento marcado para hoje, dia 31, às 14 horas, no Memorial do Rio Grande do Sul. Abaixo, um pequeno trecho.

 

Mas, não, ela não podia voltar assim. Os olhos da avó a estariam esperando na estação e, repetidos em muitos outros, a chamariam de puta . Ela não era puta, era prostituta. Putas são as que dão sem precisar. Ela tinha filho pra criar, colégio, aluguel. Com o guri criado, quem sabe até doutor, então sim, podia voltar. É preciso ter paciência, pensou, abrindo os olhos e percebendo que, no teto, entre as manchas de mofo, a tarde morria meio de lado. Precisava acabar logo com aquilo, pegar o Jorginho no colégio. Com um restinho de trem passando, ainda, por sua cabeça, Alice gemeu dengosa e acelerou o ritmo das ancas repetindo baixinho: aRROz-feijão-e-massa, aRROz-feijão-e-massa, aRROz-feijão-e-massa… O cliente gritou satisfeito, tinha chegado lá.

Postado por ana mariano

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Convite 5 inVerso

29 de outubro de 2007 0


 

                        Porque a poesia não espera, não se curva

(por vezes uiva nas noites escuras)

apenas se insere

se espalha, venera seu próprios deuses loucos de ébrios

A poesia se ensaia ?

In si Nua -se

a poesia.

                                     Cecília Cassal

 Com esse poema de Cecília Cassal, eu convido vocês para um sarau de poesia.

Dia 30 de outubro, terça-feira, às 20,30 horas, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE, à rua dos Andradas 1223, com direção cênica de Margarida Leoni Peixoto, estaremos – Cecília Cassal, César Azevedo, Paulo Renato Rodrigues e eu - declamando nosso poemas . Por pura invenção do Charles Kiefer, formamos, há 3 anos, o Quinteto 5 inVerso. Nossa primeira apresentação foi na Palavraria. Este é o nosso segundo ano na feira à convite da Câmara do Livro de Porto Alegre, o que nos deixa muito faceiros.

A festa só será completa se, nela, pudermos estar com vocês.  

 

Postado por ana mariano

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Clarice Lispector

26 de outubro de 2007 0

Porto Alegre, assim como a lua, tem  fases. Eu as conheço pelas cores. Estamos na fase roxa, a dos jacarandás.  Minha primeira atividade nesta fase roxa será no sábado, dia 27 de outubro, às 10 horas da manhã, na Casa de Cultura Mário Quintana, sala Eduardo Hirst, onde, a convite da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, após a apresentação do filme A hora da Estrela, Clarice Kowaks e eu, sob a coordenação de Anette Blaya Luz, estaremos conversando sobre Clarice Lispector.  

Mais tarde, à noite, 20,30 horas, dentro do mesmo ciclo de atividades , também na Casa de Cultura Mário Quintana,  com a participação de Cintia Moscovich e Sandra Dani, sob a coordenação de Tula Bisol Brum, haverá um sarau com leitura dramática de trechos da obra de Clarice. 

Gosto de mergulhar em Clarice Lispector como quem mergulha num poço escuro. Quem já tirou água de poço sabe que a água é límpida, é a profundidade que a faz escura. Se, no entanto,  pegarmos na concha da mão um pouco daquela escuridão, ela se torna novamente transparente, translúcida. Na concha da mão, que é a forma mais primitiva e simples, essa é a maneira certa de se beber Clarice Lispector.

Postado por ana mariano

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Lado B

22 de outubro de 2007 0

Assim como os discos de vinil, todos nós temos nosso lado B ou, iguais à lua,  a nossa face oculta . Hoje, trago a vocês um lado pouco conhecido de Donaldo Schuler, professor e amigo, patrono da 50ª Feira do Livro, tradutor de Finnegans Wake (!) , romancista, fato literário e muitos outros et ceteras…

                                              Narciso

Porque te calas, ó Lago,

é que venho conversar contigo.

Conversa sem mistérios

sem abismos

sem avesso,

sem cansativas decifrações.

Conversa só de braços

só de mãos

de sombra só, de brilhos,

de reflexos.

Conversa face a face

pele a pele

palma a palma

na língua que tu falas

na língua que tu longamente calas.

 

Lago, eu não quero muito.

Rogo pouco

rogo o rosto que roubaste.

Que falta te faz a cara de um homem

se espelhas o azul sem fim do céu ?

 

Se me negas o que te peço,

não negues o que te dou.

Dou-te o nada despido,

o nada que aqui estou.

  

                                         Donaldo Schuler

Postado por ana mariano

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Medo

21 de outubro de 2007 1

O medo /foto de José Vaz Meneses
Na próxima quarta-feira, estarei no Café do Porto participando de um bate-papo sobre o medo. Minha credencial é apenas uma: eu sinto medo. Tenho medo de ser assaltada, medo de perder quem amo, medo de adoecer. Poeta, carrego comigo todos os medos cotidianos e mais um: o medo de escrever. Escrever é muito perigoso, quem tentou sabe. Mexe com coisas ocultas e nos faz ficar cara a cara com nossas limitações. Morrendo de medo de não conseguir dizer, eu insisto, na mais louca insensatez. O medo me faz caminhar.

Postado por ana mariano

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Quando me falas

20 de outubro de 2007 0

Quando me falas assim,

com esses teus lábios quietos,

sinto que te possuo e, medrosa,

amo o passado que me dás com os olhos,

as mulheres que tiveste um dia,

tua solitária e resignada mágoa.

Dispo-me do mundo e te recebo.

Deixo que, sedento, bebas do meu sexo.

Pego tua mão ( é um pouco minha),

peço que me guies.

Não temos mapa nessa terra que, loucos, invadimos juntos.

Não há caminho

além do nosso assombro,

nem há mais regras

salvo a que quebramos.

 

Postado por ana mariano

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Cacofonia

17 de outubro de 2007 0

 Ás vezes, meu poema sai assim, tosco,

como se feito a canivete.

Ás vezes, o que preciso dizer é grande demais

e não cabe.

Às vezes, a palavra rima e se estilhaça

cai                  fô 

            co              ni           ca

 

Postado por ana mariano

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Feriados

14 de outubro de 2007 0

foto de Ruy Fajardo
Estranho voltar à casa da infância. As mesmas árvores, velhas desde sempre, as mesmas portas, ladrilhos, maçanetas, e já não és criança, e tantos já se foram. Pensas então: a vida é efêmera. Mas, ali, sentada à antiga mesa, vês tua filha na espera do teu neto. Então, talvez porque passou o tempo e relembrar já não te doa tanto, pensas também: a vida é permanente.

Postado por ana mariano

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Livro do Êxodo

11 de outubro de 2007 1

Como quem traz nas mãos uma estilhaçada louça de família,

trago essas crianças perdidas,

entre andores e imagens,

na procissão insana dos humanos.

Seus vizinhos,

pessoas comuns, morando ali na esquina,

as arrancaram de casas invisíveis,

onde havia uma cidade, um povoado.

Sua pátria é só memória,

lamento escrito às pressas

num muro derrubado.

São dura substância, essas crianças.

O riso lateja ainda em seus olhos mudos.

Posso senti-lo, lagarto absurdo, pastoreando sonhos.

Bastaria, para vê-lo consentido,

a paz da mesa posta ao fim da tarde

e o pátio que lhes foi roubado.

Crianças arrancadas continuam.

Insistem no vício da esperança.

( Ana Mariano )

Postado por ana mariano

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Crianças

11 de outubro de 2007 0

foto de Rui Bento Alves
Retratos de crianças sempre nos fazem pensar .

Postado por ana mariano

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