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Posts de novembro 2007

Pocket Poet

29 de novembro de 2007 0

                   Uma  leitora, a Lucia, escreve dizendo que gostou muito do poema que postei – Mínimas Alegrias -  mas pede que eu explique melhor.

 

                   Lucia, quando não entendes bem um poema, não estás sozinha. O poema é feito em outra língua, diferente da que falamos normalmente, diferente da prosa. É mais ou menos como o português e o espanhol, a gente lê, pega a idéia geral mas perde algumas coisas e , então, inventa .

 

                  Um poema deve dizer por si mesmo, sem intermediários. Existe o pocket book, o livro de bolso, fácil de carregar e ler em qualquer lugar, mas não existe o pocket poet, o poeta de bolso.

 

                    Seria bom se existisse, eu adoraria carregar o Drummond na minha bolsa, e, ao mesmo tempo, seria muito ruim porque ele, o Drummond, estaria constantemente me dizendo o significado exato de cada poema e isso tiraria, de mim, a oportunidade de fazer, do poema do Drummond, o meu próprio poema.

 

                     Para não deixar tua pergunta sem resposta, posso te contar o que eu pensava quando escrevi o Mínimas Alegrias, mas já te aviso que nele existem coisas que nem eu mesma percebo, coisas que coloquei sem querer, e outras, muitas, que tu colocaste quando leste. Dessas, quem pode falar és tu.

 

                     Quando escrevi, eu pensava em nós, frágeis seres humanos. Sabemos que vamos morrer mas  vivemos, amamos, sofremos como se fosse para sempre.  É muito fugaz, a certeza da nossa finitude. Logo, as pequenas alegrias, um dia azul, um vagalume, decantam nosso entendimento e  nos devolvem o riso cotidiano.

 

                        De mínimas alegrias é feita a vida. Das nossas emoções, minhas e tuas, fantasiadas em palavras, é feito o poema. Um beijo, poeta.

 

 

Postado por ana mariano

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Mínimas Alegrias

27 de novembro de 2007 1

 

Em certos dias temos olhos sérios,

 

mastigando o todo, ao invés das partes.

 

Pesam em nós os queixos derradeiros,

 

as mãos de ave,

 

pontas de morte sob unhas pálidas.

 

Evitamos espelhos, hipóteses, relógios,

 

recusamos o que dizem velhas porcelanas.

 

Uma sombra entrevista de passagem,

 

um quase nada,

 

reflexo escorrendo nos ladrilhos,

 

interpõe-se

 

e tudo não é mais o que era antes .

 

Entre a toalha e a pele úmida de banho,

 

sem que nada a anuncie ou anteceda,

 

salvo uma mornança frágil, 

 

nasce a efêmera certeza de nossa finitude.

 

Assim como a jarra é jarra pelo espaço

 

que contém e que mantém à espera,

 

somos a morte que nosso corpo encerra,

 

vida apenas afinal e entre vidas precárias

 

nos movemos.

 

Como viver após essa notícia?

 

Inesperada, alguma coisa recompõe-se.

 

A cor do vinho, o dia azul, um vaga-lume,

 

decantam nosso entendimento.

Postado por ana mariano

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Classificados

25 de novembro de 2007 1

sombra, eterna companheira/de Pedro Ramos

Senhora muito sozinha procura uma bicicleta com experiência de praia para serviços gerais. Exige conhecimento  de sombra e macieira, algum vento, maresia. Um ou dois amassadinhos, fortes o suficiente para fazer tempo assado, pois o assim já cansou. Indispensável a cestinha de carregar neto e flor.

 

Postado por ana mariano

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Um por um

24 de novembro de 2007 2

Vicky Furtado

                

Por cinco reais eu compro,

de um menino na calçada,

cinco caixas de morangos.

 

A vida, quem dera fosse

essa pura matemática:

a cada um que se desse

um outro se recebesse.

 

As fêmeas que, em mim, respiram

podem não ser grande coisa

mas, ao menos, são inteiras.

Um dia, pediram homens

que, para elas, se dessem,

do mesmo jeito total.

 

Fiz anúncio na Internet,

usei os classificados.

Surgiram interessados.

 

Um se daria completo

mas só nas quintas e terças.

Estava muito ocupado

dando-se à esposa habitual.

 

Um moreno ( bem bonito)

ofereceu a carteira,

apartamentos, viagens.

Carinhos não me daria. 

Afinal, não era desses

de ir dando, sorrateiro.

 

Olhando bem nos meus olhos,

o terceiro candidato:

- Palavras bonitas, dou,

Mas tenho medo do inferno,

não quebro, por fêmea alguma,

as regras que Deus deixou.

 

O quarto, quis ser mais justo ,

se ofereceu por inteiro

se eu lhe entregasse pedaços.

Da mulher queria pouco:

a vulva, a bunda, mamilos.

Porque tinha diabetes,

coisas doces  não queria.

Amor então, nem pensar.

 

Minhas fêmeas decidiram

que nenhum deles servia.

Bem educadas, disseram,

que tentassem lá na feira

onde, talvez, encontrassem

mulher aos quilos, pedaços,

feito abóbora, melancia,

melão doce ou aipim.

 

Vou perguntar ao menino,

que me vendeu essas frutas,

o nome do seu patrão.

Como faz com seus morangos,

um homem por uma fêmea,

talvez me dê: um por um .

Postado por ana mariano

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Enterros

23 de novembro de 2007 0

Quando eu era criança, adorava Enterros. Não, eu não saía por aí atrás de funerais. O Enterro de que falo não é funeral. Como muitos dos que me lêem sabem, porque moram ou moraram no interior, Enterro, assim, com maiúscula é sinônimo de tesouro.

 

São moedas de ouro, jóias, prataria, coisas valiosas que, segundo dizem , alguém, na pressa de fugir, enterrou para vir buscar depois. Mas, os anos passavam e, por alguma razão, ele nunca vinha, ou se vinha, não mais lembrava onde havia enterrado o tesouro.

 

A morte parece que age nesses casos como um tônico, um elixir de memória porque, perto de um Enterro, sempre havia (há?) um fantasma aflito tentando indicar a alguém honesto e digno onde procurar. 

 

Na estância, tirando eu, não havia quem não tivesse sonhado com Enterros. Nas conversas de galpão que , escondida da mãe, eu adorava ouvir, esses sonhos eram narrados em seus mínimos detalhes. Pequena ainda, eu os ouvia e interpretava com seriedade de psicanalista.

 

Não que acreditasse piamente. Era como Papai Noel, no fundo, eu sabia que não, mas era bom dizer que sim. Ouvia, interpretava, fazia meus cálculos de tantos passos para cá, tantos para lá a partir da cerca de pedra ou da paineira ou da mangueira, e, com o meu carrinho de mão em madeira vermelha e uma pequena pá de ferro, passava as tardes, procurando. 

 

O que eu faria se encontrasse algum? Não tenho a menor idéia, não estava no roteiro. O importante era a busca, o friozinho de medo, os fantasmas que rondavam, e, porque só os honestos eram dignos de encontrar, a pergunta constante: serei digna ?

 

Não tenho mais meu carrinho de madeira vermelha e nem a pá de ferro, mas continuo procurando Enterros. É o que faço cada vez que sento para escrever. Os mesmos fantasmas, o mesmo friozinho , a mesma pergunta.

 

 

Postado por ana mariano

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E por falar em tempo ...

20 de novembro de 2007 6

Escrever um blog é completamente diferente de escrever conto ou poesia.

 

Eu nunca tinha tentado, não sei se estou fazendo direito, só sei que estou gostando.

 

É como conversar com amigos, a gente vai pensando e vai escrevendo e às vezes o amigo responde, às vezes fica com preguiça, outras sorri  ou acha aquilo tudo uma bobagem, mas não diz pra não ofender.

 

Ninguém me disse, mas, revendo o que postei nos últimos dias, me dei conta que falei quase só em tempo – Os muitos tempos do amor, Falando em tempo, Aniversário. E sabem porque me dei conta?  porque, ontem à noite, eu ia postar uma poesia  chamada ( adivinhem ! ) Tempos de galpão.

 

É uma boa poesia, eu gosto dela, mas, confesso, fiquei com vergonha, resolvi dar um tempo ao tempo, pensar por que estou falando tanto nele.

 

Pois, sabem que não sei ?

 

São tantas as razões, muitas delas inconscientes, vou falar das que sei.

 

A primeira que me vem à cabeça é óbvia, todo mundo sabe: o tempo, que até os 12 anos se arrasta tão devagar que dá vontade da gente dizer- anda, caminha direito, levanta os pés -  depois dos 15 se aligeira, depois dos 40 corre, depois dos 50 voa e, a gente, já nervosa, pede que ele pare um pouco, convida para uma prosa, e, entre um mate e outro, é claro, se fala nele.

 

Outra: as férias estão terminando, a tal da gripe me fez perder tempo.

 

Bobagem, aproveitei de outra forma, a gente tem que ser flexível, senão quebra.

 

Agora uma razão triste, muito triste: um amigo escreveu dizendo que foi diagnosticado com uma doença séria contra a qual está se preparando para lutar. Essa é a cara mais feia do tempo, a possível ausência dele.

 

No mesmo dia, uma amiga, que não me conhece pessoalmente, mas me escreve porque gosta do que eu escrevo, mandou uma poesia.

 

Esses ares de novembro, ela diz, sombreiam mais um verão, fazem lembrar da infância, chuvas, grama cortada, os sapos, tantas cigarras, a avó e os primos existindo, num tempo em que se tinha tempo.

 

Sabem, talvez a culpa não seja minha, afinal.

 

Estamos em Novembro,  esses 30 dias em que a gente se dá conta que o ano passou ( arrastando, andando, voando) e a gente pensa um pouco nele, respira fundo, faz uns alongamentos, antes de entrar em dezembro e mudar de ano e ficar um ano mais …. 

 

É, minha amiga Re, parece que esses ares de  novembro mexem comigo também.

Postado por ana mariano

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Os muitos tempos do amor

18 de novembro de 2007 0

                    Eu já conhecia a história: a senhora chama-se Maria Amélia,  vive numa pequena cidade espanhola em La Coruña  e ganhou de presente do neto, ao completar 95 anos, um blog ( ela  tem, agora, quase 96) . Pois o tal blog – A mis 95 años – foi escolhido o melhor blog do mundo, em língua espanhola

            

                 Ontem, após ler no El País a reportagem sobre o prêmio, fiquei curiosa e resolvi entrar para ver o que diz uma senhora de 95 anos aos seus mais de  500.000 visitantes virtuais

             

                    O que ela diz são coisas  muy sencillas. Essa palavra sencilla, eu, no meu espanhol capengo, de fronteira, traduzia sempre por sensata até que busquei no dicionário e vi que a tradução correta é simples, sincero, franco.

 

                           Eu não estava muito errada afinal, Maria Amélia diz coisas muito simples, que, por serem simples, são também sensatas.

 

                 Uma moça de 18 anos escreve perguntando o que ela pensa do amor. A resposta de Maria Amélia é muy sencilla

 

                    Ela diz:  amor é algo precioso que é também sacrifício pois, se te casas, o amor  fica mais apagado e vais precisar te adaptar ao marido e ceder ( porque segundo Maria Amélia, os homens não cedem …) o amor não é o que tu  sonhas, e se és romântica terás desilusões pois – e aí ela diz algo que me cativou – el amor tiene toda clase de tiempos.

 

                    Grande verdade, Maria Amélia. O amor, assim como cada um de nós, tem toda a classe de tempos.

 

                      Terminei de ler um livro do Philip Roth – A marca humana . Eu havia visto o filme com o Anthony Hopkins , The Human Stain, que, acho, foi traduzido no cinema como A mancha humana . É uma história cheia de histórias mas , em resumo,  conta os últimos anos de um professor de literatura  de 71 anos.

 

                  Dentro das muitas coisas que acontecem no livro, quero falar aqui sobre o amor do personagem, Coleman, por uma faxineira da universidade, uma moça de 34 anos, sem nenhuma cultura, sem nenhuma curiosidade intelectual.

 

                Dito assim, parece caso de assédio sexual ( ele é, sim, acusado disso, na história) mas, segundo o que entendi,o que o personagem sente é  simplesmente amor, um amor de 71 anos que já se despediu do romantismo, das idéias de família e reprodução, do desejo de companheirismo e agarra-se, com unhas e dentes, ao que, para ele, é, então, essencial  a sexualidade.

 

                    Philip Roth : Não é a família que o está impelindo – a biologia não precisa mais dele. Não é a família, não é a responsabilidade, não é o dever, não é o dinheiro, não é por eles dois terem em comum uma filosofia de vida, nem um amor pela literatura, nem o prazer de discutir sobre as grandes questões. Não, o que une Coleman a ela é a empolgação. Amanhã ele tem um câncer, e pronto. Mas hoje ele está empolgado. Ele está velho, e pela última vez está possuído de sexualidade. O que poderia ser mais empolgante que isso?

 

                         As palavras de Maria Amélia, o personagem de Roth , me fizeram lembrar aquele poema de Drummond –

 

 

Chegou um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

 

Tempo de absoluta depuração.

 

Tempo em que não se diz mais :meu amor.

 

Porque o amor resultou inútil .

….

 

Chegou um tempo em que não adianta morrer

 

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem

 

A vida apenas, sem mistificação.

                                              

                         (Os ombros suportam o mundo – C.D de Andrade)

 

PS- tenho mais de 18, menos de 71, meu amor tem outros tempos.

 

 

Postado por ana mariano

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Falando em tempo

17 de novembro de 2007 0

Aqui no Uruguai, onde estou, há uma semana , os dias foram chuvosos e frios até o feriado do dia 15. Aí abriu o maior sol, céu azul, parou o vento e eu peguei a maior gripe. Todo mundo na rua e eu, atirada em casa, sem vontade de fazer absolutamente nada, nem mesmo escrever.  Hoje estou melhor, não boa, mas melhor e, no horizonte, os raios já anunciam a próxima chuva. Embora sabendo que haverão outros dias, sinto como se os melhores me tivessem sido roubados. Precisamos entrar num acordo, o tempo eu.

Postado por ana mariano

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Aniversário

14 de novembro de 2007 2

                                                                                                               

 

                Oli não sabia quando era o seu aniversário. Aliás, nem sabia que não sabia, até um momento atrás. A pergunta do patrão o pegara de surpresa; preciso para a carteira de trabalho, agora é obrigatória, ele explicara. Estavam os dois no escritório, e o patrão, sentado atrás da escrivaninha, esperava uma resposta.

               

               Os olhos de Oli  , como sempre faziam quando ele se atrapalhava, correram janela afora e descansaram por um instante no capim amarelado de seca. Quando voltaram, traziam uma resposta: pois coloque numa quinta –feira mesmo, doutor. O patrão rira e dissera, quinta-feira não serve , deixa, a gente vê isso depois.

               

               Oli saiu, meio sem jeito, quinta-feira era um dia como outro qualquer, mas o patrão estava certo, domingo talvez fosse melhor. No galpão, com raiva desconhecida , enxotou uns guaipecas, acomodou melhor a cambona  no calor das brasas e, acendendo o palheiro, descansou, num banco, o cansaço da  tarde. Quando a água chiou, convidativa, tomou uns mates, proseou um pouco com o velho Biloca que, velho, já não trabalhava e ficava ali por falta de onde ir.

             

                 Logo, levantou-se. Tinha mais o que fazer. Trabalhava de patiero: varria o pátio, cortava lenha, buscava água no poço para encher as talhas junto à porta da cozinha, reparava as vacas de leite. Viera ainda menino pra estância dos Mariano. Ali fizera a primeira barba e, ali, num entardecer de baile, tivera a primeira mulher. 

              

                   Eram gente direita, os Mariano, cuidavam dele, pagavam o salário todo santo mês e até deixavam que tivesse a égua rosilha, égua própria, misturada ao gado do patrão.

              

                      Aquele animal era seu orgulho. A égua velha tinha morrido de um raio. Oli   encontrara a potranca, quase morta de fome, ao lado do corpo da mãe. Em dia de tormenta, não prestava ficar perto de cerca: raio corre no arame. Tinha criado o animalzinho. Dava gosto ver como chupava o leite no bico de couro costurado. Depois de uns dias , andava atrás dele pelo pátio, igual cachorro. Não sei quem adotou quem, tinha dito o patrão, e lhe fizera o regalo.

                   

                  Agora, a égua estava prenha, quase por parir. Logo, vou ter tropilha, sorria Oli  , os pés largos bem plantados no chão, o barulho seco do machado ritmando pensamentos de fortuna escassa.

                   

                   No seio de um dos troncos que cortava, achou um favo de mel mirim. Afastando as pequenas vespas, levou-o à boca. Saboreou a doçura devagar, olhos apertados para o sol que descia, vermelho, sobre o açude e os gansos.

                  

                  Não achou bonito, nem feio, era o mesmo sol, o mesmo açude. Via por instinto, sem ver realmente. Não sabia ler, ouvia um pouco de rádio à noite antes de dormir. O rádio tinha sido presente da patroa. Era boa, a patroa, estava prenha também, igual à égua. Ele e o patrão tinham sorte, era tempo de nascimentos. Bicho ou gente, não importava, era tempo de nascimentos, que é o contrário da morte.

 

                     Assobiando uma milonga, Oli   voltou para a casa levando a lenha cortada. No ar, um cheiro de fumaça avisava o jantar. Apurou o passo. Talvez porque era quase noite, talvez porque pensasse na égua parideira e na tropilha que se iniciava, não viu a cobra.

 

                     Seria, talvez, mais interessante, mais dramático dizer que o soro não chegou a tempo, mas chegou. Aqueles não eram tempos de morte, eram tempos de nascimentos. Oli viveu como sempre vivia e morreu muitos anos depois.

         

                    No branco caiado do seu túmulo, por entre flores de plástico, pode-se ler: Oli  de Oliveira Sá e a data da morte. A do aniversário, em todos esses anos, ninguém nunca soube, nem ele.

Postado por ana mariano

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El Baño del Papa

13 de novembro de 2007 0

Baño del Papa

Ontem fui assistir ao filme uruguaio El baño del Papa.

 

Porque conheci na infância em São Borja muitos Betos que viviam do “contrabando formiga”, porque eu não me conformo, por mais que me expliquem,  com a riqueza do Vaticano em contraste com a realidade do seu povo escolhido ( mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha que um rico entrar no reino do Céu ), pela simplicidade e dignidade das pessoas que retrata, pelos punhados de sonhos que Beto e a mulher dividem numa bacia em pequenos montes de dourados grãos de milho,  por tudo isso e mais alguma outra coisa que ainda não entendi , o filme falou comigo, olho no olho.

 

De uma beleza plástica delicada e  simples , com apenas 5 atores profissionais ( os demais são moradores da região) , ele conta a história da visita do Papa a Melo em 1988. Eram esperados 50.000 turistas,  10 quilômetros de ônibus brasileiros, conforme o locutor, e o povoado todo começa a sonhar, gasta o que não tem, faz empréstimos bancários, quer ficar rico vendendo tortilhas, panchos, pasteles, medalhas e bandeiras.

 

Beto é original , tem a idéia de fazer um banheiro, etapa final, cloaca para onde irão todos os pasteles, tortillas e panchos consumidos. 

 

Vieram apenas 8.000 pessoas, mas a vida continua e é preciso vivê-la da melhor forma possível . Hay que vivir, dizia a Maga do Cortazar, Il faut tenter de vivre, dizia Valery, a vida continua , pequena frase que todos nós repetimos mas que, às vezes,   escutamos melhor.

 

No subterrâneo dessa história simples como num terreno baldio cheio de latas velhas, as metáforas, as alegorias acumulam-se. Ri com história , chorei com o que está abaixo da história.

 

De todas as fotos que encontrei para ilustrar esse comentário  , escolhi a do cartaz ,  uma simples folha de papelão onde se lê servisio hijiênico. Havia outras, mais bonitas, ( Chardone, recebeu o Oscar de melhor fotografia por Cidade de Deus). Então, por que essa ? Pelas palavras caprichadamente escritas erradas ( notem o acento) ? Porque o próprio filme é um servisio hijiênico do qual, como os antigos gregos, saí mais limpa ? Não sei, essa parte do meu baño del papa, ainda não terminei de construir.

Postado por ana mariano

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