Vinda de detrás de um jasmineiro, sarça bíblica ardendo em flor, uma voz adolescente repetindo - benção, dona Etelvina, benção madrinha – a trouxe de volta à realidade doméstica. Etelvina respondeu irritada: Deus te abençoe, guri, mas para de assustar os outros desse jeito, cruzes! Logo se arrependeu da irritação.
O dono da voz era Maurílio, filho da finada Marfisa, que morrera no parto deixando o filho para viver de favor. O rapaz, meio estrambelhado da cabeça, devia andar agora pelos 13 ou 14 anos. Dormia no quartinho dos fundos, vivia por ali, na casa ou pelas ruas próximas, levando algum recado, falando sozinho, rindo sem motivo, comendo o que lhe davam, o prato apoiado num degrau da escada da cozinha.
Diziam as más línguas, não a dela, porque Etelvina não era dada a conversas , que Maurílio era filho do patrão com a Marfisa , por isso, casa e comida garantidas, estudo não, para tanto, a cabeça dele não chegava .
Com esperança nascida do desespero, Etelvina perguntou, num rompante: vem cá, guri, tu te anima a me ajudar com o peru?
Maurílio que, embora idiota, ou por isso mesmo, ansiava por novas experiências, respondeu na hora, claro, madrinha!
Então vai, correndo, lá na cozinha e traz a garrafa de cachaça de encima da pia, mas não faz barulho que, a essa hora, os patrão tão tudo dormindo, comandou, Etelvina.
Maurílio foi e voltou, num pé só, como se costuma dizer.
Exultante, balançando o corpo e o espírito entre, como são estranhos os caminhos do Senhor e Natal é mesmo tempo de milagres, Etelvina acompanhou, um pouco atrasada, os passos rápidos do menino.
No cercado, Maurílio foi auxiliar valioso demonstrando uma destreza que fazia pensar em quem diria!
Prendeu o peru entre as pernas, o manteve de goela aberta para a cachaça e ainda ficou por ali, reparando o bicho, até Etelvina voltar para o golpe final.
Feito o que precisava ser feito, a ave morreu bêbada e o dia passou, cheio de providências .
Na noite do dia 24... ( continua amanhã)
Postado por ana mariano