Ontem, depois de terminar as últimas compras de Natal, sentei para tomar um café e, na mesa ao lado, uma senhora , um pouco mais velha que eu, conversava animadamente com uma cadeira vazia.
Era uma conversa normal. O rosto, expressivo, não era triste. Sem grandes gesticulações, sem grandes ênfases, normalmente, ela conversava com alguém, apenas, esse alguém não estava ali.
Num primeiro momento, senti aquele mal-estar que a gente sente quando vê algo que nos dá pena. Pensei em solidão, uma senhora sozinha no shopping com algum problema mental, e sendo, talvez, objeto de risos e piadas.
Depois, tentei me colocar no lugar dela.
Pensei, e se ela está sonhando? E se para ela existe alguém ali, de verdade ? Quem é mais de verdade, ela ou o sonho dela ? Quem me assegura que essa senhora e eu não somos apenas sonhos e que a pessoa invisível com quem ela está conversando não é a verdadeira ?
Vocês devem estar pensando, agora sim, endoidou de vez !
Tudo bem, estou lendo o último livro do Harry Potter ( sim, senhores intelectuais, Harry Potter) e estou enfiada até a garganta em sonhos e magia, mas não estou sozinha nisso. Borges está comigo ( se ainda não o fizeram, leiam Ruínas Circulares, um conto lindíssimo do Borges sobre um homem que sonhava que criava um homem e.... não vou contar o fim, tem na Internet ) Octávio Paz, o escritor mexicano ganhador do Nobel de Literatura, está comigo e , dá um exemplo muito bonito do que estou tentando dizer numa poesia que se chama, justamente:
Exemplo
A borboleta voava entre os carros.
Maria José me disse: deve ser Chuang Tzu
passeando por Nova York,
Mas a borboleta
não sabia que era uma borboleta
que sonhava ser Chuang TZu
ou Chuang Tzu que sonhava ser uma borboleta.
A borboleta não duvidava: voava.
Octavio Paz
Outro dia falo da borboleta e de Chuang Tzu, por agora pergunto :
Quem é mais digna de pena e riso, a senhora que acredita tanto em seus sonhos que até fala com eles ou nós, com vergonha de sonhar ?
Postado por ana mariano