Recebi de Juarez Cruz, escritor e psicanalista, um texto maravilhoso sobre o filme Tropa de Elite.
Oportunamente vou publicá-lo aqui, com a devida autorização do autor.
Não vi Tropa de Elite. Confesso, envergonhada, que tenho, com relação a esses filmes violentos, um complexo de avestruz . Parece que, se eu não os assistir me ponho a salvo da realidade.
Não, não sou alienada. A violência e o destino das crianças submetidas a um dia a dia de violência nas favelas brasileiras me preocupa bastante. Se essas crianças não tiverem uma outra referência forte, irão, é claro, ter como referência os traficantes e o poder que eles retêm.
Todo adolescente precisa sentir-se incluído e a transgressão é uma forma indireta de inclusão. O gerar preocupações faz dele um filho da sociedade. Rebelde, é verdade, mas, filho.
As tentativas de solução do problema são ainda insuficientes mas existem.Tive, no início do mês, o prazer de ser a madrinha da formatura da segunda turma do Projeto Pescar na empresa Panvel.
Esse projeto, criado por Geraldo Linck, aqui em Porto Alegre, há cerca de 30 anos, já se espalha por outros estados do Brasil, pela Argentina ( com 9 núcleos) e, recentemente, formou a primeira turma no Paraguai.
A idéia, simples e eficiente, baseia-se , como já está explícito no nome, na velha sabedoria de não dar o peixe, mas ensinar a pescar.
Durante um ano, adolescentes de áreas de risco, onde dominam traficantes, têm aulas visando a sua inclusão no mercado de trabalho e, ao final do curso, todos são empregados pela empresa onde fizeram o curso ou alguma outra, participante do projeto.
Meu pequeno discurso, na formatura, foi sobre sonhos. Quase não consegui terminar porque choramos todos, eu, os formandos, os pais, os professores, os diretores da empresa.
O que eu disse então, foi que, quando queremos nos referir a algo fora da realidade, algo que não irá acontecer de verdade, costumamos dizer : isso é apenas um sonho.
No entanto, estou convencida que os sonhos são pedaços de realidade. Não apenas aqueles que sonhamos à noite mas os que sonhamos acordados.
É preciso, claro, manter um pé no real. Com os meus 1,60 de altura e 57 anos não posso sonhar em ser Mis Universo e esperar que isso aconteça.
Mas, se tivermos um pé no real e muito trabalho nas mãos, os sonhos podem, sim, ser realidade.
Os meninos do projeto Pescar são uma prova. Eu, poeta aos 57, sem ter escrito absolutamente nada antes dos 50 anos, sou outra.
Se algum empresário estiver me lendo e quiser participar, por favor, entre em contato. O mesmo quanto a voluntários para servirem de professores nos cursos.
Postado por ana mariano