E, então, ele chegou. O último dia do ano.
Ele não é um velho de barbas compridas, ampulheta na mão, passando para um nenê de fraldas a faixa ou as chaves ou não lembro mais o que passavam um para o outro naquelas charges antigas.
Eu o vejo como aquele cow-boy pronto para sacar a arma na hora do duelo: olhos concentrados, chapéu baixado sobre a testa, mãos a poucos centímetros do revólver, a cidade toda agrupada na rua poeirenta, um reflexo de pôr- do- sol por detrás.
Não sei bem se o ano velho é o bandido, de chapéu preto, ou o mocinho. Na verdade, acho que ele é os dois, bandido e mocinho, e a virada do ano é um duelo entre o que o ano velho trouxe, e o ano novo inevitavelmente trará, de bom e de ruim.
É preciso muita calma nessa hora. Não se deixem levar pela ansiedade e nem por essa horrível necessidade de ser feliz. Afinal, esses duelos vêm acontecendo há tanto tempo que já sabemos como terminam.
Inevitavelmente, alguém morrerá ou será ferido mas alguém vencerá e, diferente, tudo será como era antes. O que realmente muda é só um número. Á meia noite, trocaremos um 7 por um 8, seis por meia dúzia, como diria a minha avó.
Amanhã, depois de todos os estouros, dos tiros de foguetes e de champanhes, dos beijos falsos ou verdadeiros, da solidão ou da companhia, a luta continuará dentro e fora de nós e, nessa luta, haverá sempre uma alternância.
Ora seremos bandidos, ora mocinho, hoje um, amanhã o outro, sempre mudando, como fazem as crianças numa sabedoria de berço, porque, se não for assim, se não pudermos ser um dia o bandido e no outro o mocinho, se não pudermos, ás vezes, ganhar do tempo e aproveitar a vitória de um ano a mais, a brincadeira não terá graça e, então, não brincamos mais.
Postado por ana mariano




