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Posts de dezembro 2007

O duelo

31 de dezembro de 2007 0

E, então, ele chegou. O último dia do ano.

 

Ele não é um velho de barbas compridas, ampulheta na mão, passando para um nenê de fraldas a faixa ou as chaves ou não lembro mais o que passavam um para o outro naquelas charges antigas.

 

Eu o vejo como aquele cow-boy pronto para sacar a arma na hora do duelo: olhos concentrados, chapéu baixado sobre a testa, mãos a poucos centímetros do revólver, a cidade toda agrupada na rua poeirenta, um reflexo de pôr- do- sol por detrás.

 

Não sei bem se o ano velho é o bandido, de chapéu preto, ou o mocinho. Na verdade, acho que ele é os dois, bandido e mocinho, e a virada do ano é um duelo entre o que o ano velho trouxe, e o ano novo inevitavelmente trará, de bom e de ruim.

 

É preciso muita calma nessa hora. Não se deixem levar pela ansiedade e nem por essa horrível necessidade de ser feliz. Afinal, esses duelos vêm acontecendo há tanto tempo que já sabemos como terminam.

 

Inevitavelmente, alguém morrerá ou será ferido mas alguém vencerá e, diferente, tudo será como era antes. O que realmente muda é só um número. Á meia noite, trocaremos um 7 por um 8, seis por meia dúzia, como diria a minha avó.

 

Amanhã, depois de todos os estouros, dos tiros de foguetes e de champanhes, dos beijos falsos ou verdadeiros, da solidão ou da companhia, a luta continuará dentro e fora de nós e, nessa luta, haverá sempre uma alternância.

 

Ora seremos bandidos, ora mocinho, hoje um, amanhã o outro, sempre mudando, como fazem as crianças numa sabedoria de berço, porque, se não for assim, se não pudermos ser um dia o bandido e no outro o mocinho, se não pudermos, ás vezes, ganhar do tempo e aproveitar a vitória de um ano a mais, a brincadeira não terá graça e, então, não brincamos mais.

 

Postado por ana mariano

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Vivendo presentes

30 de dezembro de 2007 1

 

          Como essas casas construídas sobre outras, aproveitando alicerces, espalho minhas raízes por sonhos já demolidos, cidades, algumas taperas, tachos de pessegada fervendo no arvoredo ao jeito da gente simples  que me pariu e criou.

 

         Trazendo de herança as lembranças, morna cambona nas brasas, arrisco viver meus tempos de chegadas e meus tempos de despedidas.

 

          A poesia que postei abaixo – Despedida - fiz para minha mãe, em tempos de despedida.

 

           Em junho, nascerá minha neta. Será Maria Luiza, como minha mãe. 

 

           Que em 2008, sobre antigos alicerces, tenhamos a coragem de inventar futuros.

Postado por ana mariano

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Despedida

30 de dezembro de 2007 0

 

Quando cheguei já dormias.

Um sono solto, esquecido,

quem sabe até conformado.

 

Peguei tua mão com cuidado.

Estava morna,macia,

talvez um pouco vazia.

Uma tarde de verão.

 

Tarde como as que embalavam

nossas redes de algodão.

O barulho das cigarras,

a limonada gelada,

a água fria do arroio

no banho do entardecer.

 

Lembras dos lambaris?

Brincavam com nossas pernas,

rápidos riscos dourados

que não podias prender.

E rias teu riso jovem.

 

Lembras do namorado?

Quartas, domingos sem falta,

beijando lá no sofá.

E do que depois veio,

sem se fazer convidar?

O que mandou tantas rosas

que tínhamos de esconder

do outro, o oficial, aquele lá do sofá.

 

A tua mão deixo ir,

mas as lembranças não largo.

Ficam comigo, não importa.

São meu consolo,

meu colo,

o meu verão infinito

para onde vais voltar.

 

Postado por ana mariano

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Milagre de Cordel

29 de dezembro de 2007 0

Paulo Santos
 

 

Numa tarde sertaneja,

com sua branca mantilha, 

a bela moça na igreja

era morena armadilha.

 

Entre beatas mordazes

pedia perdão à Virgem,

nem reparava os rapazes.

Santa real ou miragem?

 

Que pecados ela tinha

só o seu cura sabia.

Rezava a Salve-Rainha,

o padre moço assistia.

 

E ficava dividido

entre o que o corpo pedia,

bem alto, intumescido,

e a vã filosofia.

 

Era uma luta cruenta

de solução demorada

não adiantava água –benta

e nem conversa fiada.

 

Os olhos da Virgem viram,

do padre, o triste suplício

e, com doçura pediram

a Deus um justo armistício.

 

Tu, macho e fêmea fizeste,

por que este sofrimento?

Se água ao homem tu deste,

não foi pra ficar sedento.

 

O que o Senhor respondeu

eu nunca fiquei sabendo.

Decerto absolveu,

mas vou ficar te devendo.

 

 

Postado por ana mariano

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Curso de leitura

27 de dezembro de 2007 0

Minha amiga e mestra Léa Masina pede que eu divulgue o

 

curso de leituras  que estará ministrando, no seu escritório,

 

durante  os meses de janeiro e  março, sempre às segundas-

 

feiras, das 20 às 22 horas.

 

Eu já fiz alguns e, acreditem, são maravilhosos.

 

Nesse, que vai iniciar, serão lidos e comentados  autores

 

imperdíveis  mas, talvez, difíceis de serem compreendidos

 

sem uma orientação segura: Kafka, Virginia Woolf, Clarice

 

Lispector, Borges, Milton Hatoun, Guimarães Rosa , Juan

 

Rulfo, entre outros.

 

Prometi que faria a divulgação sob uma condição : que ela

 

me permitisse divulgar também parte de um texto que

 

escreveu para o seu amigo secreto deste ano ( que

 

infelizmente não fui eu) porque os votos contidos nesse

 

texto são para serem partilhados . 

O e.mail da Léa para quem estiver interessado no curso ( e

eu sugiro que estejam porque vale a pena) é 

lmasina.ez@terra.com.br e os votos da Lea para quem

estiver interessado ( eu também sugiro que estejam porque

vale a pena) são esses que postei logo abaixo. Sirvam-se.

Postado por ana mariano

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Os votos da Léa

27 de dezembro de 2007 0

O que desejar a ele em 2008? Mais livros publicados? Outros prêmios literários?  Não! Isso até poderá acontecer. Mas o que lhe desejo mesmo é uma PAIXÃO, daquelas que só quem já viveu conhece, que faz tremer as bases, rachar os alicerces, dá tontura e deixa o sujeito com cara de bobo,  sem saber que horas são, esquecendo de comer, de trabalhar, e – quem sabe -  a ponto de livrar-se dos documentos, da Carteira de Identidade, do CPF, do celular, da agenda!

 

Uma PAIXÃO fulminante, arrebatadora, intensa, louca, que o obrigue a mergulhar de cabeça a fundo perdido, sem saber se existe ar para algum respiro ou qualquer chance de retornar um dia à superfície !  

 

Uma PAIXÃO, enfim, de tirar os referenciais, de dar dor no corpo, de tornar a vida uma deliciosa e desesperada insônia !

 

E que o meu amigo tenha coragem e  a sabedoria de viver toda essa PAIXÃO em plenitude, eis que isso só ocorre uma vez em milênios e é privilégio de poucos !  De muito poucos mesmo. 

 

 

 

Postado por ana mariano

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Tropa de Elite X Projeto Pescar

27 de dezembro de 2007 0

 

 

Recebi de Juarez Cruz, escritor e psicanalista, um texto maravilhoso sobre o filme Tropa de Elite.

 

Oportunamente vou publicá-lo aqui, com a devida autorização do autor.

 

Não vi Tropa de Elite. Confesso, envergonhada, que tenho, com relação a esses filmes violentos, um complexo de avestruz . Parece que, se eu não os assistir me ponho a salvo da realidade. 

 

Não, não sou alienada. A violência e o destino das crianças submetidas a um dia a dia de violência nas favelas brasileiras me preocupa bastante. Se essas crianças não tiverem uma outra referência forte, irão, é claro, ter como referência os traficantes e o poder que eles retêm.

 

Todo adolescente precisa sentir-se incluído e a transgressão é uma forma indireta de inclusão. O gerar preocupações faz dele um filho da sociedade. Rebelde, é verdade, mas, filho.

 

As tentativas de solução do problema são ainda insuficientes mas existem.Tive, no início do mês, o prazer de ser a madrinha da formatura da segunda turma do Projeto Pescar na empresa Panvel.

 

Esse projeto, criado por Geraldo Linck, aqui em Porto Alegre, há cerca de 30 anos, já se espalha por outros estados do Brasil, pela Argentina ( com 9 núcleos) e, recentemente, formou a primeira turma no Paraguai.

 

A idéia, simples e eficiente, baseia-se , como já está explícito no nome, na velha sabedoria de não dar o peixe, mas ensinar a pescar.

 

Durante um ano, adolescentes de áreas de risco, onde dominam traficantes, têm aulas visando a sua inclusão no mercado de trabalho e,  ao final do curso, todos são empregados pela empresa onde fizeram o curso ou alguma outra, participante do projeto.

 

Meu pequeno discurso, na formatura, foi sobre sonhos. Quase não consegui terminar porque choramos todos, eu, os formandos, os pais, os professores, os diretores da empresa.

 

O que eu disse então, foi que, quando queremos nos referir a algo fora da realidade, algo que não irá acontecer de verdade, costumamos dizer : isso é apenas um sonho.

 

No entanto, estou convencida que os sonhos são pedaços de realidade. Não apenas aqueles que sonhamos à noite mas os que sonhamos acordados.

 

É preciso, claro, manter um pé no real. Com os meus 1,60 de altura e 57 anos  não posso sonhar em ser Mis Universo e esperar que isso aconteça.

 

Mas, se tivermos um pé no real e muito trabalho nas mãos, os sonhos podem, sim, ser realidade.

 

Os meninos do projeto Pescar são uma prova.  Eu, poeta aos 57, sem ter escrito absolutamente nada antes dos 50 anos, sou outra.

 

Se algum empresário estiver me lendo e quiser participar, por favor, entre em contato. O mesmo quanto a voluntários para servirem de professores nos cursos.

Postado por ana mariano

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Nós aqui

27 de dezembro de 2007 1

Evandro Inácio Gonçalves dos Santos, um senhor que não conheço pessoalmente, me escreve pedindo autorização para colocar a poesia Moiras no site da família

%22NÓS AQUI%22 – http://nozaki.spaces.live.com 
 
Claro que fiquei muito feliz em dar a autorização.
 
Hoje ele me escreve novamente para dizer que a poesia está publicada.
 
Eu, curiosa, já havia entrado no site e hoje entrei novamente. Fiquei comovida com o carinho com que eu e meu trabalho fomos recebidos pelos Gonçalves, Santos, Lima, Machado e descendentes.
 
Recomendo a visita. A idéia do site é muito boa, um lugar onde as várias famílias, ramos descendentes de dois casais %22troncos%22 , podem se comunicar e manter intacta essa estranha idéia de família viajando através da carne.
 
Obrigada, Gonçalves, Santos, Lima, Machado e descendentes, vocês me deram o mais belo presente de Natal, carinho.

 

Postado por ana mariano

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Moiras

26 de dezembro de 2007 0

Pelo tempo espesso nos movemos

metáforas fluindo nos tapetes.

Difícil dizer a cor de cada rosto,

multidão inefável de ruídos, 

água teimosa e vento

alterando a correnteza,

abanar de leque, sapatilhas,

face materna  a surgir  no espelho,

(o mesmo pudor, os mesmos cabelos)

mãos pontilhadas de castanho

respingando gestos corriqueiros.

Bem no fundo, dentro, onde

não alcança o tempo,

na lentidão inversa de seus dias,

uma parte de nós sempre observa.

Dividem-se as sombras recortadas

em outras, tantas! que se afirmam

e, em se afirmando, negam

e negando cifram o que antes

julgamos claro e decifrado.

São muitas as partes, as moiras destinadas.

Tramam a mesma lã, sobrepostas telas,

tecem num só tempo tempos diferentes.

Se uma compõe, pouco a pouco, o velho

outra, célere, regride,

faz do passado não passar o tempo.

Entre a luz e a veneziana,

ouvindo ressoar todas as vozes,

árvore voltando a ser cadeira,

gaiola e pássaro, véus

tecidos com cuidado,

verso e anverso iguais e diferentes,

pelo tempo espesso nos movemos

nunca sendo quem somos realmente.

Postado por ana mariano

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Poesia muda

26 de dezembro de 2007 3


Leonardo da Vinci dizia que a pintura é poesia muda e a poesia é pintura cega.

 

Acho que diria o mesmo de algumas fotografias se, à época, elas existissem.

 

Pois, de Vicky Furtado, fotógrafa gaúcha residindo atualmente em São Paulo, recebo um CD com algumas  poesias mudas.

 

Com uma delas, ilustrei o poema do Caeiro que postei dia 24/12.

 

Agora mostro mais .

 

Tenho a impressão de que ainda vamos ouvir  falar muito dessa guria.

Postado por ana mariano

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