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A cegueira dos que vêem

22 de fevereiro de 2008 2

Com o título – retorno às três coisas óbvias – uma amiga me manda uma mensagem com esse trecho do Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.

 

%22Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas,ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais. Provavelmente só no mundo de cegos,as coisas serão o que verdadeiramente são.  Dentro de nós tem uma coisa que não tem nome,essa coisa é o que somos.%22

 

Saramago é mais um que enxerga a divisão que comentamos aqui, aquela sobre a qual o Fernando Pessoa fala e sobre a qual eu falo também em algumas poesias.

 

Dentro de nós tem uma coisa que não tem nome,essa coisa é o que somos

 

Os psicanalistas dirão: o que existe é o id, o ego e o superego. Os neurologistas falarão em neurônios e neurotransmissores, nós, os poetas, podemos falar tranqüilamente que somos dois ( ou mais…).

 

 Mas, na verdade, quero comentar hoje a primeira parte da citação, a que fala sobre a cegueira.

 

Provavelmente só no mundo de cegos,as coisas serão o que verdadeiramente são

 

A imagem do cego que vê é antiga, vem desde os gregos.

 

Em Édipo Rei, Tirésias, o adivinho cego, é o único que vê realmente pois, para ele, as aparências não existem.

 

Porque Freud usou a tragédia para ilustrar sua teoria, a versão de Édipo que chegou até nós através da psicanálise dá ênfase à questão do incesto, do desejo pela mãe, o famoso complexo de Édipo.

 

No meu entender, a tragédia em si, não a versão do Freud, tem como foco central essa cegueira que não é dos olhos.

 

É uma tragédia sobre o conhecimento.

 

Édipo não sabe e pensa que sabe. Acusa Tirésias de ser cego dos olhos, dos ouvidos e da mente quando, na verdade, o cego dessa tríplice cegueira é ele. Ele, Édipo, é o verdadeiro enigma.

 

Quando, finalmente, sabe que não conseguiu fugir ao destino,  quando se dá conta de que matou o pai e casou com a mãe, ele fura os olhos. Será, a partir de então, um cego que vê.

 

Iguais a Édipo, nós, os que vemos, muitas vezes nos perdemos

nas aparências, na superfície, esquecendo o oculto que existe em

tudo e, principalmente, em nós mesmos.

Postado por ana mariano

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Comentários (2)

  • angela diz: 22 de fevereiro de 2008

    Só para complementar:Os cegos se perceberão reduzidos à essência humana,numa verdadeira viagem às trevas.
    Que os obrigará a parar,fechar os olhos e ver.
    Recuperar a lucidez,resgatar o afeto.

  • angela diz: 22 de fevereiro de 2008

    A razão muitas vezes atrapalha a visão.
    Para evitar a emoção tornamo-nos cegos.E tudo é um mecanismo tão profundo que só depois de um tempo,quando tudo passou conseguimos recuperar a visão.
    A pior dor é a do cego que vê.
    A luz da mera razão cega e adoece a alma.

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