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Posts de fevereiro 2008

Cultos & eficientes

29 de fevereiro de 2008 2

Aqui no Uruguai a companhia de telefones celulares tem uma propaganda no rádio que simula um programa de perguntas e respostas.

 

Alguém pergunta a um rapaz – quem escreveu Don Quixote?

 

O rapaz responde – Garcia Lorca -  ouve-se aquela buzina característica de erro, tipo a buzina do Chacrinha, o rapaz corrige – não, não, foi Neruda – campainha -  não, foi Ulisses….

 

Tudo bem, a cultura deles é espanhola, então fica mais fácil saber a resposta certa e entender a propaganda, mas, sinceramente, se trocássemos Don Quixote por Os lusíadas, muita gente no Brasil continuaria sem entender . Eu mesma, até bem pouco, não sabia bem quem era Ulisses.

 

Então, há que se concordar que o nível de cultura do povo é outro.

 

Por outro lado – e, felizmente, sempre tem um outro lado –  fui a Montevidéu e esqueci meu cartão de crédito no restaurante, só me dei conta quando cheguei ao shopping.

 

Quis ligar para o restaurante para ter certeza que estava lá e tinha sido encontrado.

 

Na nota do restaurante não havia o número do telefone.

 

Fui a um balcão de vendas da mesma companhia de telefones celulares e pedi um guia para procurar o número. Não tinham ! me encaminharam para o serviço de atendimento ao cliente do próprio shopping.

 

O Serviço de atendimento também não tinha guia , mandaram que eu ligasse 122, que é o 102 daqui, fiquei mais de 15 minutos ( e não é maneira de falar) ouvindo a musiquinha e esperando que alguém me atendesse.

 

Quando desisti, a moça do serviço ao cliente, muito gentil, tentou acessar o 122 por um telefone fixo, o mesmo resultado: musiquinha….

 

Sabem como eu consegui o número do telefone do restaurante ?

 

Liguei para o Brasil !

 

Somos menos cultos, porém mais eficientes ?  Cultura e eficiência se anulam ? Não dá para se ter tudo nesse mundo? Não sei a resposta, podem tocar a buzina .

 

Talvez, dentro do que discutimos aqui de respeitar as diferenças, o melhor seja respeitar os dois – Brasil e Uruguai-  com suas diferenças.

 

PS – mas sem esquecer de rezar para um dia sermos cultos & eficientes.

 

Postado por ana mariano

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O Quereres

27 de fevereiro de 2008 3

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres leblon sou pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock%27nroll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inseticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

                                                                   Caetano Veloso

Postado por ana mariano

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Caetano

27 de fevereiro de 2008 3

Uma amiga, poeta ainda não publicada mas de gaveta cheia, me escreve dizendo que sonhou que estava com a Bethânia, o Caetano e a dona Canô e que liam poemas e que a Bethânia disse que tinha gostado muito do Olhos de Cadela e queria me conhecer.

Nesse mundo de mentirinha onde vivem os poetas, para já ir entrando no clima desse encontro, uma música do  Caetano que, aliás,  tem tudo a ver com o respeito às diferenças sobre o qual falávamos antes.

Ah Bethânia ! O dia que eu escrever tão bonito quanto o teu irmão, com certeza tu vais querer me conhecer.

 

Postado por ana mariano

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Amor

26 de fevereiro de 2008 1

 Então por um momento os dois se apagaram na doce escuridão tão profunda que eles eram mais escuros que as negras árvores, e depois tão escuro que, quando ela tentou erguer os olhos até ele, só pode ver as ondas selvagens do universo acima dos ombros dele, e então ela disse : %22 Sim, acho que eu também te amo.

 

( Trecho citado por Clarice Lispector como algo que havia anotado, sem ter copiado também o nome do autor,  em A descoberta do mundo)

Postado por ana mariano

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Foto vergonhosa ?

25 de fevereiro de 2008 11

O editorial do jornal El País de sexta passada, chama de vergonhosa uma foto apresentada na edição anterior em que uma mulher muçulmana, vestida de burca, está exercendo seu direito de voto.

 

A vergonha, segundo o editorial, seria a mulher ter o direito de votar mas ser ainda obrigada a usar a burca.

 

A afirmação, de início, parece irrepreensível. Usar a burca ( ou burka, não importa) é, para todos nós, ocidentais, uma ausência inadmissível de liberdade.

 

Mas e se aquela mulher da foto, por ser muçulmana, sentir-se orgulhosa de votar E de usar a vestimenta ?

 

A burca faz parte da cultura muçulmana, não podemos nós, de outra cultura concluir, a priori, que a foto é vergonhosa .

 

Há pouco tempo na França, quando foi proibida a presença de qualquer símbolo religioso nas salas de aula, inclusive crucifixos, houve um movimento das alunas muçulmanas exigindo o direito de terem as cabeças cobertas pelos lenços característicos da sua religião.

 

As gueixas japonesas tinham, desde criança, os pés atados em faixas para que eles não crescessem e elas pudessem , mais tarde, ter um andar que lembrasse o “balanço dos juncos agitados pelo vento”.

 

Os ossos quebravam-se e deformavam-se ao longo dos anos, uma  tortura, não apenas psicológica mas também física . No entanto as japonesas orgulhavam-se dos pés minúsculos. As que tinham pés normais os escondiam , eram pés de camponesas.  Isso mudou ao longo do tempo, claro.

 

Temos uma tendência natural de achar que o que pensamos é o melhor para todos.

 

Embora eu esteja torcendo para que as muçulmanas possam ter o direito de escolher se querem o não usar a burca, não posso afirmar, sem conversar com aquela mulher, se a foto é ou não vergonhosa. 

 

Talvez esteja errada (coloco o assunto para discussão) mas, na minha opinião, não se pode enfiar liberdade, ou o que nós entendemos por liberdade, goela abaixo, como quem alimenta ganso para fazer paté.  Há que respeitar-se as diferenças.

 

 

Postado por ana mariano

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Impossível não rir junto

24 de fevereiro de 2008 1

Postado por ana mariano

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A vida como ela é

23 de fevereiro de 2008 3

Um uruguaio havia me contado a história, hoje saiu uma matéria no El País.

 

No século XIX, 4 índios charruas, uma mulher e três homens, que haviam participado de uma batalha ( Batalha de Salsipuedes) foram retirados da prisão e levados para a França para serem expostos como curiosidades.

 

Um deles, o cacique Vaimaca Perú ( 1780 – 1833), e um dos outros índios, certamente por não aceitarem essa situação, fizeram greve de fome e morreram pouco depois. O casal remanescente teria sido vendido a um circo.

 

A mulher teria falecido de tuberculose em 1834, logo após o nascimento de uma filha cujo destino é desconhecido. Se essa mulher teve também filhos, há descendentes diretos dos charruas vivendo na França.

 

No século XX, os restos mortais de Vaimaca Perú foram localizados no Museu do Homem em Paris e, em 2002, transladados para Montevidéu onde recebeu honras de herói.

 

Hoje, seus restos mortais, assim como os de outras 31 personalidades uruguaias ( entre os quais apenas uma mulher, a poeta Delmara Agustini ) descansam no Panteão Nacional.

 

Portanto, Vaimaca Perú, levado para ser exposto como curiosidade, ( assim como Inês, a que depois de morta foi rainha) depois de morto voltou e é  reverenciado em sua terra natal como herói, ultimo lanceiro índio a combater com Artigas.

 

Para quem estiver interessado, o estudo feito sobre o DNA de Vaimaca Perú está publicado no site www.fhuce.edu,uy/antrop/abiol/vaimaca.html .

 

Ante tudo isso, roubando o título do post de hoje de Nelson Rodrigues, eu me pergunto como ainda queremos domar a vida e os rumos que ela toma?

 

A vida sabe de si, nunca a teremos como nossa, de papel passado e compromisso.

 

 

 

 

Postado por ana mariano

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Coincidências

22 de fevereiro de 2008 5

Dizem que não há coincidência, que tudo acontece por alguma razão. Estou começando a pensar que é assim e a aceitar os recados que as tais coincidências mandam.

 

No livro que estou terminando de ler, Sagarana, o João fala nessas madeiras aparentemente secas mas que, se colocadas como moirões nas cercas, logo brotam.

 

O que li chamou minha atenção por duas razões. Primeiro porque lembrei de ter visto isso  lá na estância, e, segundo, porque achei a imagem bonita e boa para pensar.

 

O pedaço de madeira aparentemente seca que todos acham que pode ter apenas uma serventia, surpreende transformando-se em árvore.

 

Acontece o mesmo com os homens, nunca se pode rotulá-los, é preciso dar-lhes oportunidades.

 

Pois estava com essa imagem quando dois amigos me mandaram a foto que vocês estão vendo.

 

Será algum recado?

 

 

Postado por ana mariano

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A cegueira dos que vêem

22 de fevereiro de 2008 2

Com o título – retorno às três coisas óbvias – uma amiga me manda uma mensagem com esse trecho do Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.

 

%22Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas,ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais. Provavelmente só no mundo de cegos,as coisas serão o que verdadeiramente são.  Dentro de nós tem uma coisa que não tem nome,essa coisa é o que somos.%22

 

Saramago é mais um que enxerga a divisão que comentamos aqui, aquela sobre a qual o Fernando Pessoa fala e sobre a qual eu falo também em algumas poesias.

 

Dentro de nós tem uma coisa que não tem nome,essa coisa é o que somos

 

Os psicanalistas dirão: o que existe é o id, o ego e o superego. Os neurologistas falarão em neurônios e neurotransmissores, nós, os poetas, podemos falar tranqüilamente que somos dois ( ou mais…).

 

 Mas, na verdade, quero comentar hoje a primeira parte da citação, a que fala sobre a cegueira.

 

Provavelmente só no mundo de cegos,as coisas serão o que verdadeiramente são

 

A imagem do cego que vê é antiga, vem desde os gregos.

 

Em Édipo Rei, Tirésias, o adivinho cego, é o único que vê realmente pois, para ele, as aparências não existem.

 

Porque Freud usou a tragédia para ilustrar sua teoria, a versão de Édipo que chegou até nós através da psicanálise dá ênfase à questão do incesto, do desejo pela mãe, o famoso complexo de Édipo.

 

No meu entender, a tragédia em si, não a versão do Freud, tem como foco central essa cegueira que não é dos olhos.

 

É uma tragédia sobre o conhecimento.

 

Édipo não sabe e pensa que sabe. Acusa Tirésias de ser cego dos olhos, dos ouvidos e da mente quando, na verdade, o cego dessa tríplice cegueira é ele. Ele, Édipo, é o verdadeiro enigma.

 

Quando, finalmente, sabe que não conseguiu fugir ao destino,  quando se dá conta de que matou o pai e casou com a mãe, ele fura os olhos. Será, a partir de então, um cego que vê.

 

Iguais a Édipo, nós, os que vemos, muitas vezes nos perdemos

nas aparências, na superfície, esquecendo o oculto que existe em

tudo e, principalmente, em nós mesmos.

Postado por ana mariano

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Medo

21 de fevereiro de 2008 2

O medo é uma pressa que vem de todos os lados, uma pressa sem caminho…

                                            João Guimarães Rosa

Postado por ana mariano

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