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Posts de março 2008

Cris

30 de março de 2008 1

Este poema que postei hoje, é uma homenagem à Cris, mulher lutadora que, infelizmente, conheci apenas por fotografia.

Postado por ana mariano

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Obituário

30 de março de 2008 0

 

Quando nasceu,  riso lhe foi dado.

Era riso fácil de espelhar na cara,

de louvar no quarto se preciso fosse.  

Um dar de ombros ajudava o riso 

a fingir bonito, a deixar de lado.

O corpo labutava em feraz seara 

tinha dedos úteis, rosto acostumado.  

Mas havia os olhos, doidos companheiros.  

Chispas de um castanho meio esverdeado, 

remexendo fogo, tacho e marmelada 

indo além do riso, quase uma risada.

Mesmo sobre o pó dos dias costumeiros,

neste olhar moreno, meio endiabrado,  

os sonhos floriam como em dois canteiros.

Ela nunca soube dos olhos que tinha,

girassóis caseiros.

Bebeu toda a vida em taça lascada

e quando a quis inteira era muito tarde,

ela já partira, sem fazer alarde.

Sempre andou na linha, disseram no enterro

vivia sorrindo, meiga e delicada.

Dos olhos canteiros, de suas florinhas,

não falaram nada.

Postado por ana mariano

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Errata

29 de março de 2008 0

Uma prima muito querida do Rio, leitora do blog e neta do tio Araujo, me escreve corrigindo a frase do avô citada por mim em - Publico?  

O que o tio Araújo dizia não era – dinheiro exige respeito – era : dinheiro não aguenta desafôro.

Desculpa, tio Araújo, o teu jeito de dizer é muito melhor que o meu.

Postado por ana mariano

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A história da amoreira

29 de março de 2008 2

Hoje vou contar a história da amoreira; essa mesma , a comum, a que suja de roxo as mãos e as calçadas, como se de luto estivessem.

 

Há muito e muito tempo, as amoras, mesmo quando maduras,  não eram vermelhas, eram brancas, alvas.

 

Acontece que dois jovens Píramo, o rapaz, e Tisbe, a moça, contra a vontade dos pais, apaixonaram-se.

 

Eram vizinhos. Através de uma fenda minúscula na parede que dividia as duas casas, sem confidente nenhum, só por acenos,  se entendiam e se afagavam.

 

Como todos sabem, quanto mais o amor se recata, mais é ativo.

 

Um dia combinaram de se encontrar ao pé de uma amoreira. Tisbe, a moça, chegou primeiro ( as mulheres têm mais pressa) e, ao chegar, avistou uma leoa ensangüentada da caçada recente de algum animal. Assustada, foge para uma gruta. Na fuga, deixa cair o véu.

 

Quando Píramo chegou ( os homens são mais lentos), encontrou o véu ensangüentado e, concluindo que sua namorada havia sido estraçalhada pela fera, saca da espada e mata-se tingindo com o seu sangue as brancas frutas .

 

Tisbe, ao sair da gruta, encontra Píramo morto, abraça-o, desesperada.

 

Encontra a espada e exclama: Teu amor, tua mão te deu a morte. Eu também tenho mãos, eu também tenho amor capaz de extremos!  ( lindo isso!)

 

E tu, árvore, que logo dois cadáveres cobrirás, conserva os sinais do que vês e, por teus frutos, difunde a cor do luto!

 

Sabem o que é isso? Ovídio ( 45aC- 17dC) , traduzido por Bocage ( 1765- 1805) e qualquer semelhança com Shakespeare ( 1564-1616) em Romeu e Julieta, não me parece ser apenas coincidência.

 

Então é assim, minha gente, não precisa ter uma idéia nova, até porque ela é muito rara. Não importa o que se conta, mas como se conta.

 

Postado por ana mariano

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Publico ?

28 de março de 2008 7

Hoje escrevo para os que também escrevem e me perguntam: publico?

 

Difícil dizer apenas sim ou não. Depende.

 

A grande maioria dos que escrevem fica no medíocre e a palavra aqui é usada como sinônimo de médio, mediano. Quase todos nós somos, como dizia Ezra Pound, Diluidores.

 

Fazemos o que outros fizeram, um pouco pior. Raros são,  continuando na classificação do Pound,  Inventores ou  Mestres.

 

Mas isso não é razão pra não se escrever ou publicar.

 

Eu tinha um tio bancário, o ti Araújo, que dizia : dinheiro exige respeito. 

Ou seja, se não o respeitamos ele some.

 

Literatura também exige respeito. Não dá para sair escrevendo e publicando. Há toda uma história de leitura, de tentativas, de erros, escrever é principalmente errar, alguém já disse.

 

Mas se, passadas as primeiras experimentações, os muitos estudos, as muitas tentativas,  tu olhares para os teus escritos e te orgulhares deles tanto quanto te orgulhas de ti , ou seja, duvidando sempre, então publica.

 

Segundo Caeiro, esse é o destino dos versos.

 

 

XLVIII

 

Da mais alta janela da minha casa

Com um lenço branco digo adeus

Aos meus versos que partem para  a Humanidade

 

E não estou alegre nem triste

Esse é o destino dos versos.

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos

Porque não posso fazer o contrário

Como a flor não pode esconder a cor

Nem o rio esconder que corre

Nem a árvore esconder que dá fruto.

 

Ei-los que vão já longe na diligência

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

 

Quem sabe quem os lerá?

Quem sabe a que mãos irão?

 

Flor, colheu-me meu destino para os olhos.

Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem cansa de estar triste.

 

Ide, ide de mim!

Passa  a árvore e fica dispersa na Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

 

Passo e fico, como o Universo.

 

                                                        Alberto Caeiro

 

 

Postado por ana mariano

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A Ana Alegria

26 de março de 2008 6

Ana Alegria, artista plástica, eu conhecia há muito tempo. Um quadro dela me acompanha há anos. Mas ontem conheci outra Ana. Ela veio jantar aqui em casa e trouxe um maço de fotos ( lindas, como vocês podem ver) e um livrinho de capa vermelha. Com pudor de menina me leu seus versos maduros . Versos de uma vida inteira, nos dois sentidos.


Resposta


Não pus o meu sonho num navio

nem o depositei no ouvido de um amigo

ou em gaveta com cheiro de guardado.

Ele sempre foi comigo no fundo das valises,

na sola dos sapatos , na virada dos bolsos.

Dentro dos panos coloridos, no perfume antigo,

nas folhas de um caderno de endereços.

Ele me fez subir uma montanha branca

e mergulhar no mais azul dos mares

aquele que levou com ele os amores que me dava.

Ele é o mesmo de sempre mas me traz afazeres,

fala de algumas cores ,quer transformar palavras.

Está na palma da mão , como a linha da vida.


Zen


Na praia de inverno

a areia é das gaivotas

que nela desenharam

um jardim japonês.


Pura caligrafia

as marcas tem tres pontas

as patas são tres marcas

que a água quer lavar.

Postado por Ana Mariano

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Fotos de Ana Alegria

26 de março de 2008 1

EscolarParede AzulBandeiras

Postado por ana mariano

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Do beijo e suas conseqüências

25 de março de 2008 13

Ontem confessei publicamente neste blog o meu romantismo, e hoje, romântica incurável, confesso mais: sempre acreditei que o primeiro beijo é decisivo.

 

Pois o que eu apenas adivinhava,  agora é oficial, tem até estudo da Universidade de Albany –  A Psicobiologia Do Beijo Romântico, deu no El País, como diria um personagem.

 

Segundo esse estudo, no beijo, especialmente o primeiro, acontece um intercâmbio instantâneo de informações que pode dizer se somos ou não geneticamente compatíveis com nossos pretendentes.

 

Nossos neurônios, bombardeados de mensagens decisivas, nos informam em segundos se estamos ou não nos lábios certos.

 

Assim sendo, meus amigos, beijai-vos, nem que seja apenas com finalidades científicas.

 

Tudo bem, vocês dirão bem mais ajuizados do que eu , mas e depois?

 

Bom, depois é com vocês, ou conosco. A gente tem que se virar na bem-querença e contar com a  sorte, como bem anotou a Juliana num dos seus comentários aqui no blog.

 

O negócio é ir feito atacante, acreditando. Como dizia o Pessoa: tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

Aliás, ontem uma amiga me mandou pela internet um texto do Assis Brasil publicado na Zero Hora, falando da sóror Mariana Alcoforado ( 1640- 1723), que tem tudo a ver com isso.

 

Para os que não a leram a crônica, ou leram e esqueceram, ela era uma freira portuguesa que apaixonou-se por um patricinho ( o masculino de patricinha é patricinho ?) bom, por um homem bastante frívolo como diz de forma mais elegante o professor Assis Brasil, um nobre francês do qual sobrou só um retrato.

 

Claro que o negócio não deu certo, só que ao invés dela ficar por ali choramingando, resolveu escrever e escreveu cartas maravilhosas que são lidas até hoje, 300 anos depois. Ou seja, na tristeza, despertou.

 

O que, aliás me lembra Kiekergaard, em O diário de um sedutor, que dizia que a função do homem sedutor era apenas seduzir, acordar a mulher, parava por ali, não precisava ir adiante.

 

Eu tenho as minhas dúvidas, mas, claro, entre ser Bela Adormecida e Cinderela, prefiro Cinderela. 

 

Cá entre nós, o Kiekergaard ficou anos num fede não cheira, num chove não molha, com a noiva, terminou não casando. O meu professor, Donaldo, diria que essa informação não tem a menor importância, obra e autor não se confundem.

 

Concordo, uma coisa é o autor e outra é a obra,  mas no fundo do bem fundinho, uma coisa  está sempre se entremeando a outra.

 

Bom, vocês dirão, mas e se a coisa da bem-querença e da sorte e do vai com tudo não der certo e a gente não gostar de escrever nem bilhete ?

 

Bom, aí têm que apelar à Última Instância, Paulinho da Viola!

 

 Pintou desilusão/ não tenha medo não/ a vida poderá lhe dizer/ que tudo tem algum valor /e o bem de revelar /que a tal felicidade/, sempre tão fugaz,/ a gente tem que conquistar.

 

E é isso aí e mais nada.

A não ser este adendo: Paulinho é meu filósofo predileto.

Postado por ana mariano

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É o jeito lá da gente deles

24 de março de 2008 3

 

Jurei para mim mesma que não ia falar, mas o rosto dela, em rede mundial, crispado, tristonho, humilhado, não me sai da cabeça.

 

Estou falando da esposa do governador de Nova York, Eliot Spiltzer ( infelizmente esqueci o primeiro nome dela e coloquei fora o jornal, quem souber,diga).

 

Eu já comentei aqui neste blog que não me julgava no direito de  criticar o uso da burka ( Foto vergonhosa?) então, não questiono o jeito americano de lavar a roupa suja fora de casa, apenas estranho.  

 

Como diria a senhora que me criou – deixe, dona Ana, isso é o jeito lá da gente deles.

 

É o jeito lá da gente deles e eles que são brancos que se entendam, mas, cá entre nós, que ela estava humilhada, isso estava, e em rede mundial.

 

Não lembro agora se ele “só”  traiu ou se era sócio de uma das “ Tias Carmens “ americanas. Também não é importante, porque como já se viu em vezes anteriores, para eles, o mais grave é o sexo.

 

O novo governador, Paterson, que, talvez por ser quase cego, enxerga longe, já foi chegando e avisando que ele e a mulher traíram-se mutuamente, e foi exato – entre 1999 e 2002 –  não estranhem, é o jeito lá da gente deles.

 

Nós que exportamos tantas coisas podíamos exportar a sabedoria popular de alguns ditados. Um que certamente eu exportaria é aquele no qual vocês já devem estar pensando: entre marido e mulher não se mete a colher.

 

Sou romântica, sim, em anos bissextos acredito em Papai Noel, fada, Coelho da Páscoa. O ano todo, acredito no Paulinho da Viola – o verdadeiro amor nunca fenece, amor que morre é uma ilusão e uma ilusão deve morrer – mas, de novo, precisava pedir perdão ao povo ? não bastava pedir à mulher?

Enfim, é o jeito lá da gente deles…

Postado por ana mariano

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Presente de Páscoa

23 de março de 2008 4

A Monique me envia, e eu divido com vocês: o conto sobre o qual falamos no outro dia – A liberdade dos varais.

Gostoso como um chocolate, macio e duro, suave e amargo, tudo ao mesmo tempo, como só Monique sabe fazer.

A liberdade dos varais

                                                           

 

Olhou as roupas balançando ao vento e lamentou pelas crianças que nunca saberão um varal. Há nele uma felicidade inerente, de tarefa realizada, da fibra revendo o sol, umidade liberada aos poucos para impregnar-se da luminosidade de um dia de verão. Também a água corrente, a generosidade de mãos que se importam e o espaço para alongar nossa história recente sobre cordas de nylon, dispostas em improvisadas hastes de madeira comum. Queria para si a liberdade dos varais.

Se espichar a mão bem no alto e com um esforço alongar o corpo ao máximo, talvez sinta a densidade branca, e ao cutucar seu querubim de curta memória , dirá “olhe pra mim, veja esta lágrima que cai. Quente, inoportuna, não é mais tempo dela estar aí”. Talvez ele lhe dedique um pouco de atenção e tenha piedade dos enganos, um anjo que nos olha é sempre uma esperança de recuo, de rota em correção.

Mas não tentou. Ficou ali, à sombra do abacateiro, sentindo a brisa bater suave, os olhos fechados imaginando mundos, triste como quem desistiu.

Fazia dias que não dormia. Depois de noites de insônia concluiu que o mal de não conciliar o sono era sempre o pior sintoma do desassossego da alma, acontecia sempre que suas muitas verdades recusavam-se a reconhecer o corpo inquieto sobre a cama.

Sabia que as decisões híbridas gestam-se sob correntes subterrâneas de fel e silêncio. Mas não existiam muitos caminhos. O cheiro da roupa limpa inundou o espaço, logo um redemoinho formou-se levantando as folhas e alguma poeira.

Mãe!, alguém gritou de dentro. Ajeitou-se, limpando o rosto na manga, antes de sorrir. Olhou pra cima e viu a carinha satisfeita na sacada, os olhos brilhando com as possibilidades da mãe ociosa no quintal.            

Lembrou-se das roupas por lavar, da comida que esperava o cozimento, das meias por cerzir. E das cicatrizes que não suportariam emendas, da saudade do anjo, de si.

Resignou-se. Que esperassem a urgência da menina que corria, feliz.

 

                                                        Monique Revillion

 

 

Postado por ana mariano

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