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Outono

01 de abril de 2008 1

Não, não vamos brigar por causa disso. Você pode dizer que não há mistério algum, apenas a Terra se afastando aos poucos do sol. Equinócio, até pode usar essa palavra tão sonora, uma oportunidade rara para usá-la. Se você for um pouco esotérico, diga que é apenas o início do ano novo astrológico, o sol a zero grau de Áries recomeçando sua trajetória de Hércules pelos 12 trabalhos do Zodíaco. Diga isso, eu aceito, é assim mesmo.

Mas e esses azuis sobre o rio que não estavam aqui no verão, de onde vêm? Aquelas brumas ao entardecer, do outro lado do Guaíba, esses dourados e vermelhos pelas copas das árvores? As frutinhas dos cinamomos que amarelam e caem ao chão deixando manchas escuras, essas estranhas flores cor-de-rosa das paineiras? Mais que tudo, esse como um suspiro percorrendo as coisas e os seres, de onde vem?

Há uma espécie de silêncio atrás de tudo. Tempo de olhar mais lento, procurar fotos antigas, de preferência em preto e branco ou tão desbotadas que ficaram sépia. Essa vontade de apoiar o rosto na palma aberta da mão para, além da janela, desejar o longe. Longe no tempo, que dói mais fundo que longe no espaço, porque nesse você dá um jeito, um dia compra um passagem e vai até lá. Aqui não há jeito para ser dado. Há só esse suspiro de romance para donzelas tão antigas que sequer sabiam que sexo existia. Suspire também: é o ritmo da Natureza, dizem. Fazemos parte, fale mais baixo então. Escreva cartas, não precisam ser enviadas. Ninguém precisa saber. Há segredos, sim, por trás do tempo, e somos todos folhas.


Caio Fernando Abreu

Postado por Ana Mariano

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Comentários (1)

  • angela diz: 1 de abril de 2008

    Lindo o texto do Caio!Outono associo a triste e belo. Lembra plátanos dourados, o cair das folhas evoca a brevidade dos nosso dias.
    Viver cíclico, transformação em uma velocidade alucinante.
    Talvez a sabedoria esteja em caminhar devagar,apreciar e saborear calmamente cada segundo da vida.

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