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Do sentimento de não estar de todo

19 de abril de 2008 1

                                                              Jamais réel e toujours vrai

                                                                                                           Sempre serei como um menino para muitas coisas, mas um desses meninos que, desde o começo, carregam consigo o adulto, de maneira que, quando o monstrinho chega verdadeiramente a adulto ocorre que, por sua vez, carrega consigo o menino, e nel mezzo del cammin dá-se uma coexistência poucas vezes pacífica de pelo menos duas aberturas para o mundo.

 

Pode-se entender isto metaforicamente, porém indica um temperamento que não renunciou à visão pueril como preço da visão adulta e essa justaposição que faz o poeta e talvez o criminoso, e também o cronópio e o humorista ( questão de doses diferentes, de acentuação aguda ou esdrúxula, de escolhas : agora jogo, agora mato) manifesta-se no sentimento de não estar de todo em qualquer das estruturas, das teias que a vida arma e em que somos simultaneamente aranha e mosca.

..

 Adolescente, acreditei como todos que meu contínuo estranhamento era o sinal anunciador do poeta, e escrevi os poemas que se escrevem então e que sempre são mais fáceis de escrever do que a prosa nessa altura da vida que repete no indivíduo as fases da literatura.

           

 Com os anos descobri que se todo poeta é um estranhado, nem todo estranhado é poeta na acepção genérica do termo.

 Os humoristas, alguns anarquista, não poucos criminosos e muitos contistas e romancistas situam-se neste setor pouco definível em que a condição de estranhado não acarreta necessariamente uma resposta de ordem poética.

….

 

              (Julio Cortazar, Do sentimento de não estar de todo)                                                  

                                                                                                            

Postado por ana mariano

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Comentários (1)

  • César diz: 19 de abril de 2008

    Interessante isso de colocar contista,romancista, humorista, criminoso e alguns ( portanto, nem todos) anarquistas na mesma panela.Muito bom. César

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