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Monólogo de Orfeu, saudade

23 de abril de 2008 12

 Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
E%27 mais porque te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa fôrça, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que êle, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!

Postado por ána mariano

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Comentários (12)

  • ana mariano diz: 24 de abril de 2008

    Vic, adoro esse poema, se procurares mais abaixo vais ver que falamos sobre ele aqui no blog, o título do post, se não me engano é Ausência e falta.

  • Ricardo diz: 23 de abril de 2008

    Agora falando mais da saudade, queria saber o que pensam vocês que acessam o blog e também a minha querida Ana, a saudade não é ruim? Tenho ela como algo odioso, que provoca dor, retrocesso- embora os filósofos digam que trás crescimento. Até pode ter algo de bom, mas não é um pé no saco?

  • ana mariano diz: 24 de abril de 2008

    Acho, Ricardo, acho saudade um pé no saco, até para ficar mais verídico, como não tenho saco, acho um pé no seio que dói também. Como já me veio na cabeça uma outra poesia que tem a ver e quero mostrar vou te responder melhor no post mais tarde. beijo

  • ana mariano diz: 24 de abril de 2008

    oi Juliana, que bom te ver por aqui. Tu sabes como me sinto no blog ? meio Sherazade, contando histórias para não morrer. É muito gostoso isso, que bom que tu não me achas professoral, seria ridículo se eu fosse.

  • Ricardo diz: 23 de abril de 2008

    Não conhecia mesmo.. até vi alguma cena e diálogo no filme, mas dizer: “… a hora derrama o seu óleo… essa agonia de viver fraco, o peito extravasado…”. Obrigado! Angela, me empresta o livro, tá? Só tá faltando eu me apaixonar, novamente… Beijo. Parabéns Ana, por conduzir o blog dessa maneira, coerente e emocionante.

  • Carlos J. diz: 24 de abril de 2008

    Saudade são lembranças de coisas boas.Melancolia são recordações de fatos dolorosos.Explicando melhor:melancolia é um pé no saco,pontapé no seio.Saudade é mão no saco e afago no seio.

  • Ricardo diz: 24 de abril de 2008

    Será que não estamos confundindo, ausência, solidão, melancolia, com saudade? “… a saudade às vezes faz bem ao coração. Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias….” Amyr Klink……. mas morrer de saudades, será que realmente é bom? É um sentimento que existe, mas sem ele não viveríamos melhor?

  • Juliana diz: 23 de abril de 2008

    Concordo com o Ricardo: Ana, muito obrigada!
    Teu blog ensina sem tom professoral. Coisa rara. Coisa bonita. Beijo carinhoso.

  • Vic diz: 24 de abril de 2008

    Discordo,SAUDADE para mim é algo MUITO BOM.Mas é tão subjetivo ,que não vou perder mais tempo.Vejam o que Drummomnd diz:

    Por muito tempo achei que a ausência é falta.

    E lastimava, ignorante, a falta.

    Hoje não a lastimo.

    Não há falta na ausência.

    A ausência é um estar em mim,

    E sinto-a, branca, tão pegada,

    aconchegada nos meus braços,

    que rio e danço e invento exclamações alegres,

    porque a ausência, essa ausência assimilada,

    ninguém a rouba mais de mim.”

  • angela diz: 23 de abril de 2008

    Ana!Agora ficou mais poético este blog,não poderia faltar o nosso grande e amado Vinícius com “Orfeu”,agora na sua totalidade…Sensível e profundo demais…Pura emoção!

  • Vic diz: 3 de maio de 2008

    Ana,voce não me respondeu…esqueceu ???

  • Vic diz: 26 de abril de 2008

    Oi Ana,não entendi como voce se sente no blog contando histórias para não morrer?Podes explicar,melhor??? Beijo

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