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Posts de abril 2008

Quem vê cara não vê coração

30 de abril de 2008 4

 No velho, tudo -gestos e roupas – escorre pra baixo. Não era tom de queixa, falava sobranceira. Um dia você ainda vai ver, meu Mocinho, coração não envelhece, só vai ficando estorvado … Como o ipê: volta a flor antes da folha.

                                    Lina, em Corpo de Baile

Postado por ana mariano

Ausência e imposto

30 de abril de 2008 10

Desculpem a ausência, mas, igual a todos, poeta também corre pra pagar imposto e depois fica esperando: saúde, segurança, educação…

 

Postado por ana mariano

A outra metade

25 de abril de 2008 24

Pedro me escreve pedindo que eu explique a  referência que fiz a Platão e o fato de sermos eternamente incompletos.

A história é a seguinte.
Em O Banquete, um dos diálogos de Platão, discute-se Eros e o amor.
Aristófanes, um dos participantes do banquete, conta que em outros tempos a natureza humana era diferente do que é hoje.
Havia três sexos: homem, mulher e andrógino, que reunia em si o homem e a mulher. O homem provinha do fogo, a mulher da terra e o andrógino da lua, que participa da terra e do sol.
Esses seres tinham a forma de um círculo, quatro braços, quatro pernas e dois rostos colocados em sentidos opostos numa só cabeça.
Por serem fortes, tornaram-se orgulhosos e, em seu orgulho, decidiram subir ao céu para  combater os deuses.
Esses, embora pudessem fazê-lo, não queriam matá-los porque, se o fizessem,  não teriam mais quem os cultuasse.
Júpiter, depois de muito meditar, encontra uma solução: repartiria aqueles seres orgulhosos  em duas metades. Dessa forma os tornaria mais fracos e ainda duplicaria o número de adoradores. E assim foi feito.
Apolo, o deus da ordem, curou as feridas dessa separação, colocou os rostos na frente e costurou os cortes no ventre, deixando o umbigo como lembrança da ruptura.
Aconteceu porém algo inesperado. Cada metade passou a procurar desesperadamente a outra e quando se encontravam queriam fundir-se novamente e, esquecidas de comer, de beber, morriam. Dessa forma, a raça humana ia se extinguindo, justamente o que os deuses queriam evitar.
Júpiter compadecido, buscou uma nova solução.
Decidiu tomar os  órgãos sexuais, que haviam ficado nas costas, e colocá-los na frente, de forma que as duas metades pudessem unir-se.
Dessa forma, nasceu o ato amoroso e, desde então, cada um de nós procura, desesperadamente, sua outra metade para nela, pelo menos por instantes, reencontrar a plenitude.

Postado por ana mariano

Saudade é um pé no saco ?

24 de abril de 2008 12

O Ricardo me perguntou se eu não acho saudade um pé no saco, respondi que sim.
O José Carlos e a Vic discordaram, acham saudade uma coisa boa.
Talvez os dois sejam mais maduros, eu e o Ricardo,  feito crianças, queremos as coisas, não nos contentamos com a saudade das coisas.
Mas, se é verdade o que nos contou Platão, que, porque estávamos ficando muito exibidos, os deuses nos cortaram pela metade e nos deram, de consolo, o sexo, se é verdade isso, e eu acho que é , sempre seremos, todos nós, incompletos.
Sentimos sempre, ou porque perdemos alguém ou alguma coisa ou porque queremos estar  mais próximos ainda de alguém,  essa saudade de estar perto, se longe, ou estar mais perto se perto, que é que eu sei! essa agonia …e aí, minha gente, aí, entra a poesia.
Mesmo os que não acreditam na cura pela palavra (Freud), mesmo esses, tenho certeza que  concordam comigo numa coisa: falar, quando se está triste, ajuda, ou seja, a palavra ajuda.
Numa época de perdas pessoais, encontrei consolo num poema da Elizabeth Bishop, aquela poeta americana que viveu muitos anos no Brasil.
Trago o poema hoje, em inglês e em português porque, por melhor que seja a tradução, sempre se perde um pouco. Chama-se Uma arte. 

Postado por ana mariano

Uma arte, Elizabeth Bishop

24 de abril de 2008 1

Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, 
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo)
não muda nada.
Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

tradução Paulo Henriques Britto
 

One art

The art of losing isn%27t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn%27t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother%27s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn%27t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn%27t a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan%27t have lied. It%27s evident
the art of losing%27s not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop, 4 de novembro de 1975

 

Postado por ana mariano

Monólogo de Orfeu, saudade

23 de abril de 2008 12

 Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
E%27 mais porque te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada…
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, – que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa fôrça, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice…
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que êle, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!

Postado por ána mariano

Devolva o Neruda que você roubou

22 de abril de 2008 10

Gostaram do Neruda?
Para versos de amor, nada como o espanhol.
Coisas que em português ficam meio piegas, meio exageradas, em espanhol, pelo menos para mim, arrepiam.
Trago no Neruda I, a tradução dos versos que postei ontem.
Eu, pessoalmente,  acho que fica mais bonito em espanhol.
É para vocês verem como no poema não basta a idéia e nem a emoção, é preciso a força das palavras.
No segundo poema, acho muito bonita a parte em que ele diz mariposa del sueno te pareces a mi alma e te pareces a la palabra melancolia.
Não sei bem porque, talvez por associação livre com os versos do Chico, ou porque esteja gerando um poema, talvez porque seja algo que exista só em português, tenho pensado muito na palavra saudade.
Não tenho ainda uma definição própria de saudade.
Trago as do Chico e do João Guimarães.
Se vocês tiverem alguma outras definições, mandem, porque saudades todos nós temos.

Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.

  Pedaço de mim, Chico Buarque

A saudade é braço-e-mão do coração, e que, certas horas, quer segurar demais em alguma pessoa ou coisa. Mas não se deve de….

  João Guimarães Rosa, Corpo de Baile

Postado por ana mariano

Neruda I

22 de abril de 2008 2


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: %22A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe%22.
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa que o meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo

                              Pablo Neruda

 

Postado por ana mariano

Neruda II

22 de abril de 2008 3

Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente,
e me ouves de longe, minha voz não te toca.
Parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.
Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Borboleta de sonho, pareces com minha alma,
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como que te queixando, borboleta em arrulho.
E me ouves de longe, e a minha voz não te alcança:
Deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com o teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longinqüo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.

   Pablo Neruda

Postado por ana mariano

Neruda

22 de abril de 2008 3

Postado por ana mariano