Recebo, de uma amiga, matéria publicada no Jornal O Globo sobre o lançamento de uma nova tradução dos poemas de Emily Dicknson, poeta americana que, em vida, teve apenas raríssimas publicações em colunas literárias. Conheci Emily através das traduções feitas por Ivo Bender e publicadas pela L&PM, que recomendo.
É admirável a modernidade e profundeza dos versos dessa mulher que viveu no século XIX e que, sem jamais abandonar a casa paterna, como diz Daniel Piza : é capaz de deixar a gente pensando durante dias com apenas meia duzia de linhas.
Na mensagem que recebi, uma excelente matéria assinada por Rodrigo Petronio da qual transcrevo uma parte, a que explica o título - Vocação para a sombra, ou seja, o poema é escrito porque precisa ser escrito, apenas isto, não para trazer fama ou reconhecimento ao seu autor.
Na pequena cidade de Amherst, Massachusetts, ao revirar o quarto de sua irmã após a sua morte, em 15 de maio de 1886, Lavinia não supunha a surpresa que lhe esperava. Em um baú, depara-se com pilhas e pilhas de papeis manuscritos, dispostos em forma de livros, os famosos fascicles, que computavam ao todo cerca de 1800 poemas.
Mais do que uma questão de cânone ou de marginalização artística, esse anonimato quase absoluto de Emily Dickinson, aquela que viria a ser considerada uma das mais importantes poetas da língua inglesa, nos revela que estamos diante de algo que toca o coração mesmo da poesia.
Pois se o poeta é aquele que abre uma clareira na noite do mundo, como queria Heidegger, cabe a ele sustentar a poesia como sacerdócio, não como uma ocupação utilitária. Só assim é possível, contra o mundo e em benefício da poesia, descobrir um horizonte habitável. Só assim o seu poder de desvelamento será proporcional à sua capacidade de se eclipsar enquanto indivíduo.
Postado por ana mariano



