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Posts de maio 2008

Vocação para a sombra

31 de maio de 2008 6

 

                Recebo, de uma amiga, matéria publicada no Jornal O Globo sobre o lançamento de uma nova tradução dos poemas de Emily Dicknson, poeta americana que, em vida, teve apenas raríssimas publicações em colunas literárias. Conheci Emily através das traduções feitas por Ivo Bender e publicadas pela L&PM, que recomendo. 
              É  admirável  a modernidade e profundeza dos versos dessa mulher que viveu no século XIX  e que, sem jamais abandonar a casa paterna, como diz Daniel Piza :  é capaz de deixar a gente pensando durante dias com apenas meia duzia de linhas.
              Na mensagem que recebi, uma excelente matéria assinada por Rodrigo Petronio da qual transcrevo uma parte, a que explica o título – Vocação para a sombra, ou seja, o poema é escrito porque precisa ser escrito, apenas isto, não para trazer fama ou reconhecimento ao seu autor.
 
            Na pequena cidade de Amherst, Massachusetts, ao revirar o quarto de sua irmã após a sua morte, em 15 de maio de 1886, Lavinia não supunha a surpresa que lhe esperava. Em um baú, depara-se com pilhas e pilhas de papeis manuscritos, dispostos em forma de livros, os famosos fascicles, que computavam ao todo cerca de 1800 poemas.
 
           Mais do que uma questão de cânone ou de marginalização artística, esse anonimato quase absoluto de Emily Dickinson, aquela que viria a ser considerada uma das mais importantes poetas da língua inglesa, nos revela que estamos diante de algo que toca o coração mesmo da poesia.
 
           Pois se o poeta é aquele que abre uma clareira na noite do mundo, como queria Heidegger, cabe a ele sustentar a poesia como sacerdócio, não como uma ocupação utilitária. Só assim é possível, contra o mundo e em benefício da poesia, descobrir um horizonte habitável. Só assim o seu poder de desvelamento será proporcional à sua capacidade de se eclipsar enquanto indivíduo.
 

Postado por ana mariano

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Minicontos II

30 de maio de 2008 4

O mundo se acelera e a literatura, espelho em que ele se mira, apressa-se também, diz Charles Kiefer na introdução à antologia de minicontos por ele organizada – brevíssimos!
O jeito como se escreve pela internet, onde você vira vc e beijo torna-se bj é, sem sombra de dúvidas, um sintoma dessa falta de tempo.
Nesta realidade, um bom texto curto tem, cada vez mais, o seu valor. Algumas linhas, umas poucas palavras e nosso dia já não é o mesmo.
Mas, como bem adverte  Kiefer: Importante é não confundir pressa com rapidez. Pressa é relaxamento. Rapidez pode ser virtude.
Dos minicontos talvez o mais famoso seja este, escrito por Monterroso, com apenas 37 letras:

” Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”.

O miniconto da Monique que postei- Amar demais – tem rapidez, não pressa. O mesmo se pode dizer desses dois, retirados da antologia – Os 100 menores contos brasileiros do século, organização de Marcelino Freire.

Amor
Maria,
quero caber todo em você.
   Manoel de Barros

Crepuscular
Pegou o chapéu, embrulhou o sol,
então nunca mais amanheceu.

   Menalton Braff

Tentem, é gostoso de fazer, só não é fácil.

Postado por ana mariano

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Minicontos

30 de maio de 2008 5

 Amar demais

        Ela teve a prova da traição.
        Quis atear fogo na casa, afogar o cachorro, jogar sal nas margaridas, morrer. Três dias depois ele apareceu: me desculpa, Marina. Por ser Beatriz, botou fogo no cachorro, afogou as margaridas, jogou sal na casa e morreu de vontade de voltar atrás.
 
                                                            Monique Revillion

 

Postado por ana mariano

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A pequena praça

26 de maio de 2008 3

 

Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me à praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficam no canto desta praça
Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Quer foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti

                                                          Sophia de Mello Andresen


Talvez um pouco triste para uma segunda-feira, mas, tão bonita esta poesia da Sophia, que não resisti.

Postado por ana mariano

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Avós

25 de maio de 2008 8

 

Em tempos pré-avoengos, em fase de preparação, estou colhendo literatura informativa.

As avós talvez tenham mudado um pouco, musculação, essas coisas, mas as netas parece que não.

Uma amiga mandou esse texto que teria sido redigido  por uma menina de 8 anos e  publicado no Jornal do Cartaxo, em Floripa.

Uma Avó é uma mulher que não tem filhos, por isso gosta dos filhos dos outros.
As Avós não têm nada para fazer, é só estarem ali.
Quando nos levam a passear, andam devagar e não pisam nas flores bonitas e nem nas lagartas.
Nunca dizem “Some daqui” !”. Normalmente são gordas, mas mesmo assim conseguem abotoar os nossos sapatos.
Sabem sempre que a gente quer mais uma fatia de bolo ou então, uma fatia maior.
As Avós usam óculos e, às vezes, até conseguem tirar os dentes.
Quando nos contam histórias, nunca pulam pedaços e não se importam de contar a mesma história várias vezes.
As Avós são as únicas pessoas grandes que sempre têm tempo para nós.
Não são tão fracas como dizem, apesar de morrerem mais vezes do que nós.
Toda a gente deve fazer o possível por ter uma Avó, ainda mais se não tiver televisão.

Postado por ana mariano

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Um sorriso

25 de maio de 2008 11

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
                        embaixo
                         te espetalas

quando
          com meu aceso facho e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
       que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
                       que busco eu
                                          em fogo
                       aqui embaixo?
                       senão colher com a repentina
                       mão do delírio
                       uma outra flor: a do sorriso
                      que no alto o teu rosto ilumina?

 

                                                                              Ferreira Gullar

Postado por ana mariano

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Os muitos estágios do luxo

23 de maio de 2008 19

Leio na Folha que o luxo tem muitos estágios. Cinco, para ser exata.
No primeiro, onde se incluem a maior parte dos ricos no Brasil, países árabes e China, o que importa é a ostentação da marca. Entra-se em fila para comprar o último lançamento em bolsa da marca X ou Y. O jeans precisa ostentar a grife tal.
O segundo estágio, já começando no Brasil, é o do consumidor que compra com conhecimento de causa e busca qualidade. Ao invés de comprar um vinho de R$ 3.000,00  apenas para impressionar os amigos, escolhe um de R$ 80,00 que sabe ser bom,
No terceiro estágio, entra em pauta o estilo de vida e as questões culturais. Se gosta de caminhadas, embora possa pagar, escolhe um pequeno hotel agradável no interior, ao invés de um 5 ou 6 estrelas num grande centro urbano. O seu relógio será Omega porque o pai tinha um.
O quarto estágio, chamado de utópico pelo jornal, se preocupa com os valores da marca, o que se esconde por trás dela, algum apelo ecológico, camisetas de algodão orgânico, por exemplo. É o consumo responsável.
No último estágio, o consumidor é tão rico que torna-se imprevisível. Seu luxo, por exemplo, pode ser a filantropia, o exemplo dado é Bill Gates.
A cada estágio , fica mais difícil para as empresas e a mídia, atrair o consumidor.

Ele comprará uma calça, ela, uma bolsa, não por ser o último lançamento da marca X, mas porque a dele/dela já está se rasgando e encontrou uma, de ótima qualidade, e muito cômoda. A marca, não tem real importância.
Essas mudanças, embora previsíveis, são lentas e, pelo menos no Brasil, as grandes marcas ainda não precisam se preocupar. A ordem, segundo o jornal, ainda é ostentar.

Por alguns anos, no Brasil e no mundo, as mulheres continuarão fazendo fila por uma bolsa e contando o fato para as amigas, que, é claro, também estarão na mesma fila .

 

Postado por ana mariano

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Sentimento de Culpa

22 de maio de 2008 8

 

No Caderno de Cultura do último sábado, há um artigo do professor da Unicamp Oswaldo Giacoia Jr ( já falei sobre ele aqui) comentando o livro O sentimento de Culpa do Paulo Sergio Guedes e Julio Walz. Procurei o livro aqui em casa mas acho que meu filho "roubou", vou tentar recuperar.
Não sou especialista, ou sou, mas apenas como um dos muitos que têm em si, de forma consciente ou inconsciente, este sentimento.
O que achei interessante, o que não havia pensado antes, é que o sentimento de culpa não estaria relacionado apenas com a noção de certo e errado mas também com uma onipotência infantil, a não aceitação da nossa  fraqueza e finitude.
O culpado pensa que o curso do universo pode ser alterado e dele depende essa alteração.
Então fica culpado por duas coisas: ser quem é e sentir-se obrigado a ser quem não é. A responsabilidade, segundo fomos ensinados é boa. Mas deixa de ser quando é ilusória, não ligada á capacidade de decidir a própria vida.
É o menino que pensa que o avô morreu porque ele não foi visitá-lo. Ou o conjuge infeliz que não deixa o casamento porque, sem ele " a família vai acabar " , quando a verdade fosse, talvez, justamente o contrário, ele e os outros viveriam melhor.
O sentimento de culpa patológico e nocivo nos impede de ser feliz ou pior, nos faz ter culpa por querermos ser felizes.
Pegando um exemplo , que nem sei se está certo: a mãe que sai para trabalhar admite que sente culpa por deixar o filho sozinho mas, talvez não admita, que também sente-se culpada por ficar mais feliz longe da criança podendo pensar apenas nela mesma.
Esta "segundo culpa"  , que só agora começa a ser admitida porque veio à tona através de pesquisas,  é muito comum. No meu tempo, ser mãe era estado de graça e gostar de estar longe do filho, pecado mortal.
Sentimento de culpa é assunto pra mais de metro. Mas é muito bom estar se falando mais nele.

Só porque pode parecer clichê não quer dizer que estaja errado: estamos nesse mundo para assumirmos nossas vidas e tentarmos ser felizes, não sempre, que é impossível, mas o maior número de vezes e com o menor sentimento de culpa possível.

Postado por ana mariano

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Leminski

18 de maio de 2008 10

 Gosto muito desses quatro versos  do Quintana

Da primeira vez que me assassinaram/perdi um jeito de sorrir que eu tinha/Depois, de cada vez que me mataram/foram levando alguma coisa minha.

Do resto do poema, não gosto tanto.

Mas quero é falar um pouco do Paulo Leminski, ao qual  fui apresentada há alguns anos por um amigo. Não conheço muito a obra dele, até porque é difícil de se encontrar. Do que conheço, a melhor definição é essa de Leila Perrone Moisés:

Samuai e malandro, Leminski ganha a aposta do poema, ora por um golpe de lâmina, ora por um jogo de cintura. Tão rápido que nos pega de surpresa; quando menos se espera, o poema já está ali. E então o golpe ou a ginga que o produziu parece tão simples que é quase um desaforo.

Olhem se não é verdade o que a moça diz.

 

 

 

Postado por ana mariano

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Leminski II

18 de maio de 2008 4

coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL

****

acordei bemol
tudo estava sustenido

sol fazia
só não fazia sentido

****
nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
              clima
****

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha ssim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha
ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra 

Postado por ana mariano

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