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Posts de junho 2008

Barão Vermelho

30 de junho de 2008 5

Da Viviane, recebo essa letra de uma música do Barão Vermelho visívelmente baseada no poema do Baudelaire. Espero que tenha sido dado o crédito ao  poeta. Literatura vive de boa literatura mas é preciso dar-se o crédito.

Embriaguem-se/ Barão Vermelho

Composição: Frejat e Rodrigo Santos

Tudo acaba nisso é a única questão
Embriagar-se é preciso
Não importa que horas são

Não ser escravo do tempo,
Nas escadarias de um palácio,
Na beira de um barranco ou na solidão do quarto

Embriague-se, embriague-se
De noite ou ao meio dia
Embriague-se, embriague-se numa boa
De vinho, virtude ou poesia

Tudo acaba nisso, é a única questão
Embriagar-se é preciso
não importa que horas são

Pra quem foge, pra quem geme,
Pra quem fala, pra quem canta,
pra não ter medo da maldade, pra acordar toda a cidade

Embriague-se, embriague-se
De noite ou ao meio dia
Embriague-se, embriague-se numa boa
De vinho,virtude ou poesia
Embriague-se…Embriague-se!

Pra quem foge, pra quem geme,
Pra quem fala, pra quem canta,
pra não ter medo da maldade, pra acordar toda a cidade

Não ser escravo do tempo,
Nas escadarias de um palácio,
Na beira de um barranco ou na solidão do quarto

Embriague-se, embriague-se
De noite ou ao meio dia
Embriague-se, embriague-se numa boa
De vinho,virtude ou poesia


Postado por ana mariano

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Dois gigantes

28 de junho de 2008 10

Em 2008 , separados por diferentes séculos e estilos, dois gigantes se encontram: Machado de Assis e Guimarães Rosa.
No caderno Mais da Folha da semana passada, numa votação, ganhou Machado, por goleada.
Confesso que fiquei triste. O meu Guimarães em segundo ? Fui reler Dom Casmurro.
Machado é mesmo muito bom, a linguagem é clara, os perfis psicológicos perfeitamente esboçados,  uma ironia (sarcasmo?)  inígualável.
Machado é  tão atual que poderia estar neste instante escrevendo num computador de última geração. Não foi por nada que Bloom o incluiu entre os gênios da literatura.
Na verdade é difícil a comparação, são diferentes.
Apesar de tudo, pela originalidade da linguagem, a delicadeza ( quase que digo bondade) , pela poesia, pelo carinho com que cria os personagens, os loucos, as crianças, pela forma como descreve a paisagem, os pequenos arroios, os grandes rios, pela universalidade que conseguiu transportar para o sertão de Minas, pelo falar criativo na boca do povo, ainda sou mais Guimarães.
Como diz Francisco Pires na Zero de hoje, citando Walnice Nogueira Galvão

 A literatura de Guimarães Rosa é indissociável do susto de que parece ser composto o labirinto da existência.

Isso, minha gente, é pura poesia.
 

Postado por ana mariano

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Embriaguem-se

27 de junho de 2008 10

Nessa época de tolerância zero, se escolherem álcool, não dirijam.

Charles Baudelaire, enviado por Charles Kiefer.

 

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo
horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem
descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vega, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que
gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso” Com vinho, poesia ou
virtude, a escolher”.

 

Postado por ana mariano

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Os hemisférios

26 de junho de 2008 5

Pesquisas feitas na Suécia, mostram que os cérebros de pessoas homossexuais são mais semelhantes aos cérebros do indivíduos do sexo oposto do que aos cérebros dos heterossexuais do mesmo sexo.
A orientação sexual é apenas isso, uma característica, feito ser loira ou morena,  mas fiquei contente, parece que a ciência deu um passo ( espero que à frente) para entender a homossexualidade.
O que antes se pensava ser apenas resultado de experiências de vida, o meio em que a criança se desenvolveu, agora parece ter suas razões também em fatores biológicos. Somos, e isto fica cada vez mais claro, corpo e mente, em constante interação. Não apenas corpo, não apenas alma.
O que me pareceu fantástico também é algo sobre o qual já falamos aqui outras vezes, ou seja: como os poetas ( e poesia aqui é usado no sentido de crianção), como os poetas, de uma forma intuitiva narram coisas que, milênios mais tarde, a ciência vem confirmar.
No O Banquete, Platão, através de Aristófanes, narra a história dos seres orgulhosos que, como castigo, foram partidos ao meio pelos deuses.
Os seres de Platão – homens, mulheres e andróginos – eram esféricos.
As esferas, assim como o nosso planeta, podem ser repartidos em dois hemisfério.
Os seres esféricos de Platão, divididos, buscam eternamente suas metades, seu outro hemisfério.
São nos hemisférios do cérebro que estão sendo demonstradas, agora,  semelhanças e diferenças.
Não é fantástica a analogia do que a ciência está descobrindo com aquilo que Platão nos ensinou, de forma poética, há 2.500 anos atrás?

Postado por ana mariano

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Para encerrar o ciclo

22 de junho de 2008 5

Para encerrar o ciclo da morte, postei Obituário, um poema que fala de todas as Lucindas que, por costume e criação, como falou o Augusto, precisam morrer para viver.

Postado por ana mariano

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Obituário

22 de junho de 2008 1

 

Quando nasceu,  riso lhe foi dado.

Era riso fácil de espelhar na cara,

de louvar no quarto se preciso fosse. 

Um dar de ombros ajudava o riso 

a fingir bonito, a deixar de lado.

O corpo labutava em feraz seara 

tinha dedos úteis, rosto acostumado. 

Mas havia os olhos, doidos companheiros. 

Chispas de um castanho meio esverdeado, 

remexendo fogo, tacho e marmelada 

indo além do riso, quase uma risada.

Mesmo sobre o pó dos dias costumeiros,

neste olhar moreno, meio endiabrado, 

os sonhos floriam como em dois canteiros.

Ela nunca soube dos olhos que tinha,

girassóis caseiros.

Bebeu toda a vida em taça lascada

e quando a quis inteira era muito tarde,

ela já partira, sem fazer alarde.

Sempre andou na linha, disseram no enterro

vivia sorrindo, meiga e delicada.

Dos olhos canteiros, de suas florinhas,

não falaram nada.

 

Postado por ana mariano

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Adélia Prado

22 de junho de 2008 3

Custei a gostar da poesia de Adélia Prado até me dar conta que  a qualidade maior era justamente o que me impedia, o estranhamento.
De uma forma totalmente diversa de Borges, Adélia fala parecido. A vida continuando frente à
morte.
Olhem como descreve, com grande sinceridade, sem arroubos, de uma forma coloquial, não
apenas os fatos, mas os sentimentos que acontecem num velório. 

A mãe aceitando o café, ouvindo as conversas, a ambiguidade da filha, até o fato de, num velório, quando não estamos muito envolvidos, chorarmos por motivos próprios.
Sob uma aparente simplicidade há nesta poesia, como na de Borges, um profundo entendimento da vida, dos seres humanos.
Leiam com calma, se possível, copiem para lerem enquanto escrevem, palavra por
palavra. Tomara que gostem.

Postado por ana mariano

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A boa morte

22 de junho de 2008 2

Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha admirada:
…o médico me proibiu expressamente…
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visívelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente para nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
para não amolar a tristeza.

                                                Adélia Prado

Postado por ana mariano

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Borges

21 de junho de 2008 3

Uma das minha primeiras influências (todos as temos) foi Borges. Ás vezes, de propósito, para esquecer a distância que nos separa, eu o abandono. Volto sempre. Felizmente.

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Remorso por qualquer morte

21 de junho de 2008 5

Livre da memória e da esperança,
ilimitado, abstrato, quase futuro,
o morto não é um morto: é a morte.
Como o Deus dos místicos,
de Quem devem negar-se todos os predicados,
o morto ubiquamente alheio
não é senão a perdição e ausência do mundo.
Tudo nele roubamos,
não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:
aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,
ali a calçada onde sua esperança espreitava.
Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;
repartimos como ladrões
o caudal das noites e dos dias.

                                             Jorge Luis Borges

Postado por ana mariano

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