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Posts de julho 2008

Tecla inválida

30 de julho de 2008 7

Fugindo e não, dos temas deste blog, porque o que vou relatar parece ficção, vou contar algo que aconteceu com minha filha.
Por questões de conveniência ela decidiu  encerrar os serviços de banda larga de uma empresa de telefonia.
Na terceira ligação, as outras duas foram interrompidas, após ficar, como todos já devem ter adivinhado, meia hora escolhendo opções e apertando teclas, precisou  gastar mais meia hora se justificando junto ao atendente quando ele finalmente emergiu das profundezas do disque 1, disque 2…
Na tal justificativa, a impressão que teve foi que estava sendo acusada de um crime, a simples conveniência não era argumento suficiente para cancelar o contrato. A tentativa de manter o cliente é válida mas, convenhamos, não em excesso.
Para se ver livre, precisou mentir, disse que estava se mudando e que, mais tarde, quando estivesse no novo endereço, entraria em contato.
Essa experiência, tenho certeza, todos nós já vivemos. A “ficção” vem agora.
Ao encerrar o atendimento, abriu-se uma nova opção de escolher números e apertar teclas, dessa vez para avaliar a qualidade do atendimento.  As possibilidade oferecidas iam desde tecla 1, não satisfatório, até tecla 5, ótimo. 
Por todas as razões acima referidas, ela escolheu tecla 1 – não satisfatório.
Acredite quem quiser,  a cada tentativa de escolher a referida tecla, ouvia uma voz – tecla inválida.
Apenas quando apertou a tecla dois – regular – a opção foi aceita.
Alguém pode me explicar por que existia a tecla 1 se era inválida ? Alguém pode me explicar, aliás, por
que existem tantas teclas e nenhuma voz quando se precisa acessar um serviço?

Postado por ana mariano

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Banal e simples

27 de julho de 2008 6

Em tudo, na vida, nos encontros, na arte, nas poesias, na prosa , em tudo, há uma linha muito tênue que separa o simples do banal. Ultrapassar essa linha é o objetivo de todos os que pretendem fazer uma obra ( e nesta palavra – obra – incluo a vida) que valha à pena.

Usando palavras simples, tanto que nem me preocupo em colocar a tradução porque acho que todos vão entender, Jorge Drexler consegue fazer isso.

Claudia Laitano ou Diana Corso, não lembro agora ( desculpem) qual das duas porque gosto de ambas, escreveu uma crônica dizendo mais ou menos isso: nas músicas que faz Jorge consegue, sem ser filósofo, pensar fundo. Exemplo? A música Hermana Duda que postei agora.

Postado por ana mariano

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Hermana duda

27 de julho de 2008 7

 

No tengo a quien rezarle pidiendo luz,
Ando tanteando el espacio a ciegas.
No me malinterpreten,
No estoy quejándome.
Soy jardinero de mis dilemas.

Hermana duda,
Pasarán los años,
Cambiarán las modas,
Vendrán otras guerras,
Perderán los mismos
Y ojalá que tú
Sigas teniéndome a tiro.

Pero esta noche, hermana duda,
Hermana duda, dame un respiro.

No tengo a quien culpar
Que no sea yo,
Con mi reguero de cabos sueltos.
No me malinterpreten,
Lo llevo bien,o por lo menos
Hago el intento.

Hermana duda,
Pasarán los discos,
Subirán las aguas,
Cambiarán las crisis
Y pagarán los mismos
Y ojalá que tú
Sigas mordiendo mi lengua.

Pero esta noche, hermana duda,
Hermana duda, dame una tregua.

Hermana duda,
Pasarán los años,
Cambiarán las modas,
Vendrán otras guerras,
Perderán los mismos
Y ojalá que tú
Sigas teniéndome a tiro.

Pero esta noche, hermana duda,
Sólo esta noche, dame un respiro.

                                                 Jorge Drexler
letras acima
 

Postado por ana mariano

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A cerimônia do chá

27 de julho de 2008 5

Há muitos anos, no Japão, assisti a uma cerimônia do chá. A pessoa que estava comigo, queixou-se todo o tempo que lhe doíam as pernas, que os doces não eram bons, o chá amargo. Eu, diferente dela, me achava no Nirvana.
Como numa boa poesia, nada estava ali por acaso Desde o  acesso ao local até a sala em si, e, dentro dela, cada quadro, cada flor, a pequena cascata, tudo tinha o seu significado, seu papel. Se não estivessem ali, o mundo seria incompleto.
A atitude dos participantes era simples e respeitosa, igual a de quem lê um magnífico poema. Sabiam que aquele momento seria único e cada um sairia dele melhorado.
Nessa cerimônia, o gesto prosaico de reunir-se para o chá renasce transformado numa lição de profunda humildade e respeito.
A frase que postei ontem é do Livro do Chá, de Kakuzo Okakura. Assim como é dele e do mesmo livro a frase que posto agora:

Aqueles entre nós que não conhecem o segredo de ajustar adequadamente a própria existência neste tumultuado mar de tolos problemas que chamamos de vida estão em constante estado de miséria, enquanto tentam em vão parecer felizes e contentes.”

Postado por ana mariano

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Simplicidade

26 de julho de 2008 8

 Os incapazes de sentir em si mesmos a pequenez das coisas grandiosas tendem a ignorar nos outros a grandiosidade das pequenas coisas.

                                                       Kakuzo Okakura , Livro do Chá

Postado por ana mariano

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Loucura e genialidade

24 de julho de 2008 14

Quem assistiu ao documentário sobre Vinícius saiu com a impressão que ele, escolhendo viver como viveu,  além de genial foi louco. Teria, ele, desenvolvido toda a sua capacidade criativa se tivesse permanecido comportado, se não tivesse se entregue à paixão, à bebida e à boemia até se matar da forma como fez? Seria o mesmo Vinícius? Acho que não.
Arthur Bispo do Rosário, por outro lado, interno da Colônia Juliano Moreira, uma espécie de hospício no Rio de Janeiro, foi quem foi não por ser louco mas por ser gênio.
Se é verdade que  nem todo louco é gênio, costumamos dizer que todo o gênio é louco.
Uma coisa que sempre me intrigou foi essa relação entre loucura e genialidade.
Loucura e genialidade, não são iguais, mas têm ,acho eu, muitos elementos em comum.
Um exemplo? A solidão povoada de vozes ( estou pensando agora em gênios escritores). Ema Bovary sou eu, disse Flaubert e tinha razão, não há maneira de se criar um grande personagem sem encarná-lo ou, ao menos, sem tê-lo como alguém vivo, presente e real. Uma espécie de esquizofrenia.
No filme As Horas, há uma cena em que Virginia Woolf fala sozinha (loucura !) ou com seus personagens ( loucura? ). Eu mesma, que não tenho nada de genial, para desespero da família, falo de meus personagens como se fossem os vizinhos do apartamento ao lado.
Outro exemplo: para ser genial, ou louco, é preciso desligar-se da realidade, tirar os pés do chão. O gênio, em princípio, volta, o louco, em princípio, não. Como aconteceu com Vinícius, o gênio pode também não voltar .
Van Gogh  teria feito aqueles céus violetas onde se pode ver os ventos, o movimento do mundo, se não fosse meio louco ? Tenho minhas dúvidas.
Notem bem, estou falando de genialidade, não de simples criatividade.
Posso ser escritora medíocre, dessas, igual a milhares de outras, sem ser louca.
Mas posso ser verdadeiramente genial sem ser, de certa forma, louca? Gostaria muito de discutir isso com voc6es.

Postado por ana mariano

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Orfeu era mesmo apaixonado ?

23 de julho de 2008 6

A história de Orfeu é conhecida: inconformado com a morte de Eurídice, seduzindo a todos com a harmonia de seu canto, Orfeu viaja ao reino dos mortos para buscá-la, os deuses permitem que ele a traga sob uma condição, a de não olhar para trás até chegarem à luz. Orfeu não consegue cumprir a condição e Eurídice se esvai como sombra que é.
 
A imagem – não olhes para trás, é muito bonita, sugere muitas interpretações, mas sempre me pergunto se, ao impor a Orfeu essa condição – não olhar para trás – os deuses não estavam apenas dando um jeito de se verem livres dele, me pergunto se, na verdade, eles algum dia pretenderam mesmo devolver Eurídice.
Acho que não, e por uma razão, a paixão de Orfeu  não era grande o suficiente.
Explico o porquê .
Talvez  até nem seja psicologicamente saudável , mas os verdadeiros apaixonados não podem viver separados, vivem. na base do  só vou se você for, como dizia, Vinícius.
Paixão, enquanto existe, pede mais do que descer ao reino dos mortos, pede sacrifícos maiores, pede até a própria morte. Exemplos ? Romeu e Julieta, entre outros.
Existe um mito, o de Alceste, bem menos conhecido, onde os deuses agiram diferente. Alceste  não sai em aventuras, não se lamenta, ele oferece a própria vida em lugar da vida do marido. Hércules, enternecido pelo sacrifício, luta com a morte e salva Alceste, os deuses permitem que os dois vivam felizes para sempre.
O prêmio foi maior porque a paixão de Alceste era mais verdadeira ?
Qual a diferença entre paixão e amor ? Qual o melhor, o mais verdadeiro ?

 

Postado por ana mariano

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Orfeu Negro

20 de julho de 2008 4

Ontem, em homenagem ao Breno Mello, nosso Orfeu gaúcho, jogador do antigo REnner, falecido dia 11, assisti Orfeu Negro, que ainda não havia visto.
Sou fascinada pelo mito de Orfeu e Eurídice, acho que existe  muita coisa a ser pensada sobre a saída de Orfeu no inferno, o dar sem dar dos deuses, o não poder olhar para trás, a perda. Mas sobre isso falo depois.
O filme, mesmo descontando o fato de ser de 59, achei médio.
A impressão que me deu é que  é filme ” para inglês ver”, como se diz.
As situações são ingênuas, mesmo para a época, os atores são bem arrumados demais, contrastam com os verdadeiros moradores do morro que aparecem como coadjuvantes. Na cena do ensaio da escola fica evidente que se quer mostrar como é o samba, mais uma vez, para inglês ver.
Depois, fiquei sabendo que o diretor era francês e que o Oscar de melhor filme estrangeiro foi para a França. Era mesmo filme pra inglês ver.
Esse o grande defeito, o filme é falso. Me lembrou o livro do Mia Couto, O outro pé da Sereia, onde  um afro- americano vem em busca das suas raízes e os africanos,  pra ganhar um dinheirinho, “constroem” uma África falsa, afro-americana.
Mas há, no filme, coisas boas . A cena da macumba resolve bem a questão do ida ao inferno.
O melhor de tudo, para mim, são as músicas – Manhã de Carnaval, O nosso amor ( pensei que essa era mais antiga), A felicidade.
Interessante também ver que os cenários do filme termionaram virando um documentário dentro do filme sobre as mudanças acontecidas no Brasil nesses 50 anos . A favela é paradisíaca, nada a ver com a atual, tomada pelo narcotráfico. Ninguém, hoje, mesmo como cenário, teria coragem de mostrar algo parecido e chamar de favela. O carnaval era na avenida, não no sambódromo, muito mais simples que o de hoje, e uns poucos policiais faziam a segurança, chega a dar saudades.
Não vi o novo filme ( de 99) assim com também não vi a peça, Orfeu da Conceição, acho que se alguém se dispusesse a remontá-la seria um grande sucesso. Quem sabe o Alabarse ?

 

Postado por ana mariano

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Quando o poeta é bom, o tema também é

18 de julho de 2008 8

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

                                       Carlos Drummond de Andrade

Postado por ana mariano

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Guardar

17 de julho de 2008 4

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la

    Em cofre não se guarda coisa alguma.

     Em cofre perde-se a coisa à vista.

 Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

  Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é estar acordado por ela,

isto é, velar por ela, ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro

Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

       por isso se declara e declama um poema:

                                                  Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Para guardar-se o que se quer guardar.

 

                                      Antonio Cicero

Postado por ana mariano

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