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Posts de agosto 2008

Eu fico pasma

31 de agosto de 2008 4

Como é que os antigos conseguiam intuir coisas que a ciência veio a comprovar muitos séculos depois, não tenho a menor idéia, fico pasma.
Olhem só como Ovídio, século 15 a C, descreve o que havia antes da terra ser o que é.
Ele fala até que frio/calor, úmido/seco, leve/pesado se opunham uns aos outros porque estavam unidos num só corpo, num único embrião.
Não lembra a partícula inicial do Big Bang ?

Antes do mar, da Terra, e céu que os cobre
Não tinha mais que um rosto a natureza:
Este era o Caos, massa indigesta, rude,
E consistente só um peso inerte.
Das coisas não bem juntas as discordes
Priscas sementes em montão jaziam.
O sol não dava claridade ao mundo
Nem crescendo outra vez se reparavam
As pontas de marfim da Lua.
Não pendias, ó Terra, dentre os ares
Na gravidade tua equilibrada
Nem pelas grandes margens Anfitrite
Os espumosos braços dilatava.
Ar,e pélago, e Terra estavam mistos:
As águas eram pois inavegáveis
Os ares negros, movediça a Terra
Forma nenhuma em nenhum corpo havia,
E neles uma coisa a outra obstava
Pugnavam frio e quente, úmido e seco,
Mole e duro, o que é leve e o que é pesado.

Postado por ana mariano

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Não há pior surdo que aquele que

30 de agosto de 2008 2

 

Nelson Freire, ao explicar porque evita dar muitas entrevistas , diz que, quando o intérprete fica maior que a música, alguma coisa está errada.

No livro do escritor argentino Cortazar, Valise de Cronópio, leio algo semelhante.

Sob o título – Não há pior surdo que aquele que – ele critica a literatura rio-platense da época dizendo que a grande maioria dos escritores segregam uma narrativa qualquer com a mesma inocência de um bicho-da-seda.

À definição de estilo encontrada no dicionário ( maneira peculiar que cada qual tem de escrever ou falar, de expressar suas idéias e sentimentos) , Cortazar acrescenta que: Em todo grande estilo a linguagem deixa de ser um veiculo para “ expressão de idéias e sentimentos” e atinge esse estado limite em que já não conta como mera linguagem porque toda ela é presença do expressado.

E conclui com algo que Nelson Freire certamente assinaria embaixo: Um pouco o que ocorre com o raro intérprete musical que estabelece o contato direto do ouvinte com a obra e deixa de atuar como intermediário.

Quando escolho algo para colocar neste blog, sempre me pergunto se o assunto não é muito limitado, ou seja, se as pessoas que o lerem, mesmo não sendo escritores, poderão se identificam com o tema escolhido.

O de hoje me pareceu, de início, limitado. No entanto, pensei melhor e vi que é amplo, vai muito adiante.  

Todos nós, seja numa aula, tocando música, vendendo produtos, numa discussão de trabalho ou numa simples conversa, queremos nos comunicar .

Ora, segundo Cortazar, e eu concordo com ele, só vamos conseguir fazê-lo de verdade se a pessoa que nos ouve ou nos lê esquecer o intermediário, aquele que fica entre a idéia e o ouvinte, ou seja , se esquecer de nós e, através de nossas palavras, penetrar diretamente na idéia transmitida. 

No dizer de Cortazar: quando a nossa linguagem for não apenas linguagem mas presença do expressado.

Portanto, minha gente, estilo é fundamental embora o grande estilo, como tudo que é importante, não seja fácil, nada fácil…

Postado por ana mariano

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Histórias de fadas, histórias verdadeiras

29 de agosto de 2008 6

A sabedoria popular, seja a das histórias de fadas, seja a dos causos de galpão, sempre me fascinou. Muito aprendi, em menina, ouvindo pessoas que sequer sabiam ler ou escrever mas que, de uma forma intuitiva, inventavam grandes verdades.
O inconsciente, particular ou coletivo, não mente e sabe narrar melhor que ninguém esse grande caos, esse substrato sempre em ebulição dentro do qual somos todos iguais.
Um amigo meu, tradutor de Homero e de Joyce, contou que o pai, tropeiro por profissão e, mais tarde, dono de armazém no interior de Sana Catarina ( bolicheiro, como se diz aqui no sul), costumava dizer que só gostava das histórias verdadeiras: João e Maria ou Bela Adormecida, por exemplo.
Ele estava certo, essas são histórias reais e eternas.
Falam, entre outras coisas, da luta pela sobrevivência, dos medos, da inveja, da rejeição, do sonho por  um príncipe encantado.
Lembrei de tudo isso ontem, assistindo ao DVD sobre a vida e o trabalho de Nelson Freire. Ele, que foi o que se costumava chamar de menino prodígio e aos 6 anos já se apresentava em concertos no Rio de Janeiro, conta que, quando criança, sofria muito por ser diferente.  Se precisasse ir à escola logo após as aulas de piano, escondia as partituras, não queria ser desigual. Qualquer semelhança com a história do Patinho Feio sofrendo por ser cisne, não é mera coincidência.

Postado por ana mariano

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Canções, histórias e poemas

26 de agosto de 2008 4

Todos nós temos, eu acho, músicas, histórias, canções que ouvimos em criança e das quais não lembramos muito bem ou não sabemos a autoria. Elas vão se perdendo, é uma pena.
Minha mãe, apesar de ter nascido em Bagé, viveu, até casar, no Rio. Passava as férias, sei lá, entre São Paulo e Minas, Estado do Rio, por ali. Talvez por isso, gostava de cantar músicas sertanejas ( no bom sentido) tipo Luar do Sertão e muitas outras.
De uma, lembro bem, dizia assim: Tem duas cruz entrelaçada bem na estrada/escreveram por detrás/ numa casa de caboclo um é pouco/ dois é bão, três é demais…
Trágico não é ? Mas eu gostava, a melodia era, é, bonita.Não tenho a menor idéia de quem seja o autor ou autores e nem o resto da letra.
Meu pai não cantava, no máximo, cantarolava algum tango, mas gostava de contar histórias e dizer poemas. Eu ouvia como se fossem invenções dele. Só bem mais tarde fui me dar conta, por exemplo, que a versão que ele contava da lenda A Salamanca do Jarau é a do Simões Lopes Neto.
Ele gostava muito desse poema, que, até pouco tempo, eu não sabia de quem era. Agora sei, é do Apparicio Silva Rillo, grande poeta de São Borja nascido em Porto Alegre e que morou também em Guaíba. Há alguns dias, ouvi uma música dele muito bonita sobre Guaíba.
O poema é maior, estou postando apenas a parte que meu pai sabia de cor e que, para mim, é a mais bonita. Gosto da cumplicidade feminina entre Nossa Senhora e as estrelas.

Lagoa

As estrelas pediram,
pediram um espelho
pra Nosso Senhor.

O Senhor, surpreendido,
estranhando o pedido
chamou por Maria.

As estrelas pediram
pediram um espelho
pra Virgem Maria.

Maria, tão boa!
cortou do infinito um pedaço de céu,
de um pedaço de céu
Ela fez a lagoa.

Ficou um buraco no forro do céu.
Chamando Maria, lhe disse o Senhor:
— Remenda o meu céu, que a idéia foi tua.
Maria, sorrindo, rasgou o seu manto
e pregou no infinito o remendo da lua.

 …….

Postado por ana mariano

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Baleias !

25 de agosto de 2008 3

Hoje o Uruguai me deu um presente : BALEIAS !!!! MUITAS!! bem em frente aqui de casa,  dançando pertinho da praia, dava até para ouvir os mugidos (? ) Não sei o nome do barulho que fazem, mas parecem mugidos.
Claro que juntou gente para ver.
Nos olhávamos e sorríamos um para os outros como se fossemos velhos conhecidos.
Vocês já notaram que essa união, esses sorrisos, acontecem sempre que a natureza nos lembra com alguma maravilha ( um por do sol, uma baleia) que estamos juntos nessa aventura e que, bem ou mal, dividimos o mesmo mundo ?

Postado por ana mariano

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Borges e Heráclito

24 de agosto de 2008 4

Por essas coincidências da vida, que se explicam, talvez, na afinidade, eu postava o aforismo de Heráclito e uma amiga me mandava por e.mail este poema do Borges do qual não lembrava e que fala a mesma coisa em outras palavras.

Arte Poética

Mirar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é um outro sonho
que sonha não sonhar, e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.

Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e de seus anos,
converter o desrespeito dos anos
numa música, num rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, no pôr-do-sol
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o pôr-do-sol.

Às vezes numas tardes uma cara
nos mira lá do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não prodígios.

Também és como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

  
                                 Tradução de Rolando Roque da Silva

         ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua
Y recordar que el tiempo es otro río,
Saber que nos perdemos como el río
Y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
Que sueña no soñar y que la muerte
Que teme nuestra carne es esa muerte
De cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
De los días del hombre y de sus años,
Convertir el ultraje de los años
En una música, un rumor y un símbolo,

Ver en la muerte el sueño, en el ocaso
Un triste oro, tal es la poesía
Que es inmortal y pobre. La poesía
Vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
Nos mira desde el fondo de un espejo;
El arte debe ser como ese espejo
Que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
Lloró de amor al divisar su Itaca
Verde y humilde. El arte es esa Itaca
De verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
Que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.
                                              Jorge Luis Borges

Postado por ana mariano

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Falando em gregos...

23 de agosto de 2008 3

Falando em gregos, viva as gurias do vôlei e também a Maureen que, entrando no rio, igual e diferente, resgatou por um centímetro o que há muitos anos haviamos perdido por duas polegadas, as famosas duas polegadas da Martha Rocha.

Postado por ana mariano

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O mesmo rio

23 de agosto de 2008 6

Heráclito, aquele grego, escreveu aforismos, pequenas sentenças cheias de significados.
O mais famoso é : no mesmo rio não há como entrar duas vezes.
Ou seja, embora o rio seja sempre o mesmo, a cada instante mudam suas águas e também nós, o que nele entramos. Na vida, na exitência, no mundo, tudo é movimento.
Olhem como Donaldo Schüler fala sobre isso.

Não entramos como pedra, sempre a mesma. Nosso contato com o rio não é meramente epidérmico, o roçar da nossa epiderme na epiderme das águas.
Somos rio com o rio.
O que define o nome registrado em cartório? A filiação, o sexo, a nacionalidade. Como poderia o nome conter o que vivemos? Teria que ser profético. Como os nomes não antecipam nada, nós os retocamos todos os dias. Os nomes são móveis como os rios que nos atravessam. Somos nossos projetos, nossas lembranças, nossos sentimentos.

                               Donaldo Schüler em Heráclito e seu (dis)curso - L&PM pocket

Postado por ana mariano

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Borges

21 de agosto de 2008 3

Um colega enviou ao grupo este poema do Borges.O poema fala  sobre a riqueza da ausência. O lugar reservado ao quadro está vazio e, nele, muitos quadros podem ser imaginados. O amigo e seu quadro estão presentes justamente pela ausência.

 

`The unending gift`

    
    “Um pintor prometeu-nos um quadro.
     Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras 
                vezes, a tristeza de compreender que somos como um
                sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
    (Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
    Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
    Pensei depois: se estivesse aí, seria, com o tempo, uma coisa
                mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa;
                agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma
                e qualquer cor e a ninguém vinculada.
    Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e
                estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
    (Também os homens podem prometer, porque na promessa há
                algo de imortal.)”
 

Postado por ana mariano

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A melhor história

18 de agosto de 2008 7

Cheguei há pouco de São Paulo. No flat onde fiquei não havia possibilidade de conectar meu laptop no quarto, por isso, na correria, não mandei notícias.

 Éramos 37 escritores que atravessamos o Mampitupa para levar nossas experiências iniciais com a literatura aos paulistas. Lá, diferente do que acontece aqui e no Uruguai, as oficinas literárias não é prática muito disseminada. Estou vendendo a vocês o peixe conforme me venderam, ao final do evento.

Fiquei impressionada com a quantidade de títulos, autores, livros mas, a história mais bonita me foi contada na vinda para o aeroporto pelo motorista de taxi.

Ele e a mulher vieram do Ceará há 36 anos, ambos pobres, ela, nas palavras dele, ainda mais pobre, não conseguiu terminar nem o primeiro grau. 

Hoje, sem roubar, sem meter ã mão no bolso de ninguém, eles têm um filho professor, uma filha estudante de medicina na faculdade federal e um menino de 10 anos bolsista de um dos melhores colégios particulares de São Paulo.  

A menina fez 8 vestibulares, passou em 6, num deles em primeiro lugar e em outro, o da Unicamp, em quinto lugar.  O menino, no último ano, entre 108 estudantes, tirou o primeiro lugar

A história deste casal não tem padrinho importante escrevendo um belo prefácio, nem capa vistosa, mas, se tivesse, o título talvez pudesse ser – Trabalho e Seriedade.

Não sei se venderia, acredito que os editores não o considerariam comercialmente viável, não chamaria a atenção.

Postado por ana mariano

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