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Posts de outubro 2008

Assombros

31 de outubro de 2008 2

Ás vezes. pequenos grandes terremotos

ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam

alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas

há vários esmagamentos.

Os mais íntimos

já me viram remexendo escombros.

Em mim há algo imóvel e soterrado

em permanente assombro.

                                    Affonso Romano de Sant´Anna

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Do livro do desassossego

29 de outubro de 2008 1

 

Minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e rangem, cordas e harpas, tímbales e tambores, dento de mim. Só me conheço como sinfonia.

                                                     Fernando Pessoa

 

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As duas faces do preconceito

24 de outubro de 2008 11

O teatro feito por um grupo vindo da favela não deve ser bom só porque foi feito por um grupo vindo da favela. Isso é o que dizem, em resumo, os  atores do grupo de teatro Nós do Morro,  fundado em 1986 na favela do Vidigal ( Rio de Janeiro) reclamando da forma paternalista como são vistos por todos,inclusive imprensa.
É sempre essa coisa “projeto social que resgata, diz o ator Pierre dos Santos, do Nós do Morro. O jornalista vem nos entrevistar já sabendo o que quer ouvir – se você não fosse do teatro estaria na esquina vendendo alguma coisa, você foi resgatado, não é ?
Segundo Pierre, essa visão, por mais bem intencionada que seja, os estaria prejudicando, pois as pessoas que os rubricam como “resgatados da marginalidade” não olham a qualidade do grupo mas sua “redenção”.
Essa rubrica passa a idéia de que o grupo estaria brincando e não exercendo a sua profissão, reclama Flávia Coutinho do mesmo grupo teatral.
Lendo a reportagem, lembrei que a mesma reclamação existe, em situação oposta.
Pessoas que, por terem uma condição social muito boa, ou por terem tido sucesso em outra profissão, quando decidem ter a arte como profissão, não importa o quanto a levem a sério, o quanto se dediquem, são sempre encarados como amadores.
Duas faces da mesma moeda,preconceito.
É rico? Não precisa disso, está só matando o tempo, não pode ser bom.
É pobre ? É ma-ra-vi-lho-so, imagina que veio da favela, o coitadinho!
Concordo com Pierre e Flávia: arte deve valer por si, idependente da biografia do autor.

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Divina serenidade

22 de outubro de 2008 2

A  diferença entre a filosofia ocidental e a oriental é tão grande que , na acepção grega do termo, a última sequer pode ser chamada de filosofia. É que, ao contrário dos gregos e de todos os que os seguiram, os orientais buscam, não entender o universo, mas nele diluir-se em divina serenidade.
Se, misturarmos as duas maneiras de filosofar e a elas acrescentarmos, como no caldeirão de uma bruxa, uma neurocientista americana, teremos nas mãos, sem dúvida, uma combinação interessante.
Foi o que pensei ao ler a reportagem sobre Jill Bolte Taylor, neuroanatomista do Banco de Cérebros de Harvard, que descreve num livro o AVC ( acidente vascular cerebral) que sofreu aos 37 anos.
Entendendo que estava tendo um derrame, Jill passou a observar de forma científica o que acontecia no seu cérebro. De uma forma ocidental, queria entender o que a vida lhe apresentava.
A hemorragia aconteceu no lado esquerdo do cérebro, ligado ao raciocínio lógico, fazendo com que prevalecesse  em Jill o lado direito, mais abstrato e emocional. O resultado, segundo a reportagem, foi a suspensão da noção de tempo e a sensação de união com o universo ( objetivo das “filosofias”orientais).
Essa sensação foi tão prazerosa que ela diz ter-se questionado sobre o benefício da recuperação. O que a teria levado a abandonar essa “divina serenidade” (sic) e encarar a reabilitação foi o desejo de ensinar aos outros como atingir a mesma tranqüilidade.
Não li o livro, ( A cientista que curou o próprio cérebro – Ediouro) não posso recomendá-lo, li apenas a reportagem sobre ele na Folha de São Paulo, mas me pareceu interessante, não apenas por descrever um AVC ( ela diz, por exemplo que mais importante que estimular, é deixar o paciente dormir; o sono, uma forma de aniquilamento, cura mais que a atividade ) mas também por descrever a adesão de uma neurocientista ao que prega a filosofia oriental. 
É mais fácil entender David Lybch pregando a meditação do que uma neurologista. Jill, porém, passou por algo muito forte. Como essas pessoas que são reanimadas após uma parada cardíaca, acho que ela nos traz um depoimento importante.

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Os famosos olhos de ressaca de Capitu

20 de outubro de 2008 5

Há expressões e trechos literários que ficam tão famosos que todos os citamos sem nem mesmo nos lembrarmos como realmente foram escritos. Hoje trago do livro Don Casmurro de Machado de Assis, os famosos olhos de ressaca de Capitu descritos (e muito bem !)  por Bentinho.

 

Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico,uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia,nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos, espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem suas pêndulas; nem por não acaber nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. 

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Lilith

18 de outubro de 2008 3

Não sei se vocês sabem, mas Eva foi a segunda mulher de Adão.
É, esse mesmo, o do paraíso.
A primeira chamava-se Lilith e foi criada, não de uma costela, mas do mesmo barro que Adão e, por ter sido criada da mesma forma, exigia ser tratada com igualdade.
Lilith era feminista, um pouco exagerada para o meu gosto. No sexo, não admitia que Adão deitasse sobre ela.
Não sei quem deixou quem. Se Adão encheu o saco e não a quis mais ou se Lilith, cansada das brigas, abandonou o lar. Dizem que teve um caso com o demônio  Samael e muitos filhos. Isso, ouvi dizer, não achei ainda na Bíblia aqui de casa. Estou sempre para procurar a história e vou deixando. É que a minha bíblia é versão católica  “censurada” , cheia de notas de roda- pé para terem certeza que não vou interpretar nada por conta própria.
Mas sempre alguma coisa escapa da censura. No Livro do Gênesis – E criou Deus o homem à sua imagem: criou-os à imagem de Deus e os criou varão e fêmea. ( Gênesis 1.29) . 
Ou seja, criou desde o início homem e mulher. Isso foi no sexto dia.
Aí veio o primeiro domingo ( ou sábado, para os judeus) e Deus descansou.
Depois, proibiu de comerem do fruto do bem e do mal e só  então, ( Gênesis 2.22) é que, vendo que não era bom o homem estar só ( Adão, portanto, já estava separado) Deus o adormece e,  tirando uma costela, faz a segunda mulher com quem Adão viveu feliz para sempre.
A Bíblia é cheia de metáforas.

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Extraterrestres

16 de outubro de 2008 8

Meu pai faleceu em 1967, dois anos antes do homem chegar à lua.
Ele gostava muito de histórias de ficção científica. Nessa área, Isaac Asimov era o predileto.
Na cidade, a gente perde a noção do grande-espaço-lá-fora.
Na estância porém, quando não há luzes para atrapalhar, isso é  impossível. A lua, as constelações, todos os astros estão presentes demais, são reais demais, brilhantes demais.
Nas noites quentes, nos distraíamos vendo passar os satélites. Primeiro, era um só. A gente o esperava como hoje esperam a novela das 8. Depois, vieram muitos outros.
Meu pai sempre disse que sentia muito morrer sem ter tido contato com seres de outros planetas.
Depois essa idéia saiu de moda, virou piada. Agora,  na entrevista de Serguei Krikaliov , o cosmonauta que passou mais tempo em órbita, leio a seguinte afirmação:

Pergunta – Os seres extraterrestres existem?

Serguei – Naturalmente! Não encontrei nenhum até agora. Teria o maior prazer em conhecer representantes de outras civilizações. Isso é realmente um sonho. E uma grande esperança. É por isso que estamos voando! No fundo, a pergunta pela existência dos seres extraterrestres nem é uma questão científica. Com certeza eles existem em algum lugar. Importa saber apenas onde.

Bom, com esses dois avais – meu pai e Serguei – posso confessar sem medo que acredito em extraterrestres.
Para mim, das duas, uma : ou somos uma espécie de Adão e Eva cósmicos, temos por missão povoar o universo, ou existem outros seres em algum lugar.
Isso tudo lá fora não pode ter sido criado para esse mísero terceiro planeta,
Provas ? Não tenho. Mas, como dizia Einstein : a curiosidade e a imaginação são mais importantes do que o conhecimento.

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Milágrimas

14 de outubro de 2008 3

Recebi de um amigo e achei muito bom. Veio com a música, eu não sabia postar mas meus anjos da guarda do CLICRBS ( dessa vez foi a Camila) , conseguiram inserir para mim.

Milágrimas

 

Mulher

em caso de dor ponha gelo

mude o corte de cabelo

mude como modelo

vá ao cinema dê um sorriso

ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

se amargo foi já ter sido

troque já esse vestido

troque o padrão do tecido

saia do sério deixe os critérios

siga todos os sentidos

faça fazer sentido

a cada mil lágrimas sai um milagre

caso de tristeza vire a mesa

coma só a sobremesa coma somente a cereja

jogue para cima faça cena

cante as rimas de um poema

sofra penas viva apenas

sendo só fissura ou loucura

quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura

faça uma novena reze um terço

caia fora do contexto invente seu endereço

a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal

chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal

sinta o gosto do sal

gota a gota, uma a uma

duas três dez cem mil lágrimas

sinta o milagre

a cada mil lágrimas sai um milagre

cante as rimas de um poema

sofra penas viva apenas

sendo só fissura ou loucura

quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura

faça uma novena reze um terço

caia fora do contexto invente seu endereço

a cada mil lágrimas sai um milagre

                                                               (Alice Ruiz e Itamar Assumpção)

Ouça o áudio aqui

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Cartola

11 de outubro de 2008 21

Hoje seria o aniversário do Cartola.

Há algum tempo, postei aqui a letra de As rosas não falam.

Hoje, faço outra homenagem  a esse alguém que não conheci mas que  disse por mim muito do que eu gostaria de ter dito e  não sabia como.

O mundo é um moinho. se não estou enganada, ele fez para a filha.

Um beijo, Cartola.

 

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés

letras acima 

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Entardeceres II

11 de outubro de 2008 2

A Ana Alegria, artista plástica, me manda a foto de outro entardecer . Esse, uruguaio, o sol se pondo sobre a Isla Gorriti.

Notem como as cores são diferentes: a exuberância tropical do Rio e a calma melancólica do Uruguai.

entardecer são os segundos que antecedem a escuridão.
é a luz saindo pela porta dos fundos.
e a gente esperando na porta da frente um novo dia.

As palavras acima, em itálico, que  descrevem os dois entardeceres, são de Magali Arieta.

Postado por ana mariano

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