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Posts de novembro 2008

Poema de Alvaro Barcellos

30 de novembro de 2008 4

Essas casas
                                                                                                                
Nada sei sobre essas casas tão jogadas,
as moradas que as formigas com seu zelo
elegeram, e as aranhas que as adotam,
tecem teias, tecem medos – pesadelo.

O que posso eu saber dessas moradas?
Como vou saber da história das taperas?
(onde o tempo deixa marcas bem profundas
que atravessam labirintos e quimeras).

Nada sei, mas me agrada olhar pra elas
quando saio pra matear em caminhadas
pra espantar as solidões desse meu peito
como quem encontra paz nas madrugadas.

Eu não sei sobre o destino dessas casas,
onde bailam os fantasmas suas milongas,
onde o tempo se espreguiça nas varandas
e onde as tardes se demoram, bem mais longas.

                                                                  Alvaro Barcellos

                                                    ( Num céu de tantos remendos )

Postado por ana mariano

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Sérios demais

25 de novembro de 2008 12


Minha mãe, quando menina, sempre que sabia que vinham  visitas  ficava um bom tempo  se “desarrumando” . Fazia com que o penteado parecesse “despenteado”, escolhia um vestido muito simples mas que a enfeitasse, deixava os pés descalços.
Assim, pensava ela, as visitas diriam- que menina linda, se assim “desarrumada” ela já é bonita, imaginem como não será arrumada! 
Ao postar o trecho do novo livro do Saramago, eu queria chamar a atenção para a maneira cuidadosamente simples como ele escreve, algo assim parecido com o que a minha mãe fazia.
Já comentei aqui a afirmação do Cortazar:  ficamos todos sérios demais ao escrever.
Cortazar, era um crítico muito exigente, extremamente cuidadoso com a forma assim ao recomendar escrever de modo menos sério não quis dizer de maneira descuidada, ao contrário. Acho que ele se referia a algo parecido com o que fazia minha mãe.
Machado de Assis, em sua genialidade, conversava amigávelmente com o leitor.
Lobo Antunes, apesar de ser um escritor bem hermético ( confesso que não consegui ler Hei de amar uma pedra, vou tentar mais uma vez) mas, Lobo Antunes em Os cus de Judas ao descrever a despedida do soldado e de sua esposa  o fez de uma forma que me deu vontade de voltar várias vezes à mesma página, em razão, principalmente, da genial simplicidade da última frase, algo absolutamente coloquial –
… minha filha, a família veio ver-me com a curiosidade com que se assiste a salvo a um tremor de terra…. minha mulher encostada a uma coluna sem falar, nenhum cuspo na boca, sabe como é, a língua seca como a das galinhas, as luzes da minha cidade lá de cima, Vi passar o boingue em que ias da janela da sala e senti um aperto que nem quê.
Quando nos arrumamos demais para uma festa ( cabelo, maquiagem, salto, jóias…) ficamos sérias demais, e, muitas vezes,  mais feias do que somos no dia a dia. 
Escrever bem sem perder a naturalidade, esse o difícil pulo do gato?

Postado por ana mariano

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Saramago - A viagem do elefante

23 de novembro de 2008 0

 

O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro e empurrou-o para longe. A paisagem fez-se visível no que sempre havia sido, pedras, árvores, barrancos, montanhas. Os três homens não estão aqui. O cornaca abre a boca para falar, mas torna a fechá-la. O maníaco dos barritos começou a perder consistência e volume, a encolher-se, tornou-se meio redondo, transparente como uma bola de sabão, se é que os péssimos sabões que se fabricam neste tempo são capazes de formar aquelas maravilhas cristalinas que alguém teve o génio de inventar, e de repente desapareceu da vista. Fez plof e sumiu-se. Há onomatopeias providenciais. Imagine-se que tínhamos de descrever o processo de sumição do sujeito com todos os pormenores. Seriam precisas, pelo menos, dez páginas. Plof.

Postado por ana mariano

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Entrando no clima

20 de novembro de 2008 5

 

A vó agora está fazendo pesquisa sobre Carmen Miranda e Cassino da Urca. É o tal do romance.  Resolvi entrar no clima…

Postado por ana mariano

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Um conto filosófico

20 de novembro de 2008 1

Eso

Al preso lo interrogaban tres veces por semana para averiguar “quién le había enseñado eso“. Él siempre respondía con un digno silencio y entonces el teniente de turno arrimaba a sus testículos la horrenda picana.
Un día el preso tuva la súbita inspiración de contestar ” Marx. Sí, ahora lo recuerdo, fue Marx”.
El teniente asombrado pelo alerta, atinó a preguntar: ” Ajá. Y a ese Marx quién lo enseño? ” El preso, yan en disposición de hacer concesiones, agregó: ” No estoy seguro, pero creo que fue Hegel.”
El teniente sonrió satisfecho, y el preso, tal vez por deformación profesional, alcanzó a pensar: ” Ojalá que el viejo no se haya movido de Alemania. “
 
     Mario Benedetti

Postado por ana mariano

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Ás vezes, é assim que sinto

18 de novembro de 2008 1

Compreenda-me: pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora, e creio com frequência que não passamos de facto de débeis mentais habilidosos consertando fusíveis da alma à custa de expedientes de arame.

                                       António Lobo Antunes

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Olhem só o que eu achei

16 de novembro de 2008 2

Postado por ana mariano

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Essa rara qualidade...

15 de novembro de 2008 6

Aurelio Pastori, poeta uruguaio, parece ter essa rara qualidade de dizer muito com pouco. Digo – parece ter – porque, de sua obra, conheço, até agora, apenas alguns poemas publicados no Caderno de Cultura do jornal El País. Trago hoje três. Não me animo a traduzi-los, seria estragá-los. São fáceis de ler. Dou apenas o significado de  algumas palavras, talvez,  menos conhecidas: hamaca/rede  – huellas/pegadas – mojón/marco- orilla/beira
Agora esqueçam esses detalhes e boa leitura.

Otra tapera

La familia se fue.
Dejaron una hamaca:
   sólo el viento
   la señala.

                    Ayer la rama
                          que la sostiene
                              se inclinaba
             sobre el niño que crecía.

            

              No hay peligro ahora
                                 de que la quiebre
                    aquella nueva vida.

La rama podrá esperar
y esperar
hasta su muerte natural
siempre con su hamaca vacía.

                                   **********

Quedan envases vacíos

Quedan envases vacíos
jardines inmóviles
puertas y ventanas cerradas
la arena sin huellas
el primitivo mar.

No quedan recuerdos
se van con ellos
cuando se van.
Se termina la temporada.

El perro del vecino
está en su hora de angustia y ladra
pero el silencio de marzo crece igual.

                                 **********
Hay un camino

Hay un camino hacia la soledad
hecho de rostros que se van quedando
mudos.

Cada uno dice su última palabra
con cortesia.

Y se convierte en mojón
a la orilla del camino.


 

Postado por ana mariano

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Travessias Singulares

14 de novembro de 2008 5

A foto que tirei com esse quarteto maravilhoso marca o lançamento na feira de uma antologia de contos – Travessias Singulares – organizada por Rosel Soares e que tem por tema a relação pai e filho, como ela acontece de norte a sul no Brasil do século XIX ao século XXI. Lembram quando discutimos aqui sobre as razões dos cemitérios estarem cheios no dia das mães e quase vazios no dia dos pais? Pois nessa antologia, os que aparecem na foto – David Oscar Vaz, Charles Kiefer, Roberto Schultz , Altair Martins – e vários outros autores maravilhosos como Machado de Assis, Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, dão a sua versão para essa relação tão delicada.

Postado por ana mariano

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Uma história verdadeira, juro!

13 de novembro de 2008 5

Terça-feira, 8 horas da noite, saio da feira e tomo um táxi em frente ao Santander.

- Boa noite
- Boa noite. Moinhos de Vento, por favor.
- Sim, senhora. Que noite boa, a senhora não acha ? Fresquinha…
- É, muito boa.
- Gosto de trabalhar só de noite.
- Mesmo ?
- Trabalho só de noite, aqui e em Curitiba . Lá em Curitiba eu trabalho na Polícia Federal, aqui tenho 10 táxis. De vez em quando gosto de dirigir um para ver como andam as coisas. Quem tem 16 filhas tem que ….
- O senhor tem 16 filhas ?!
- É, 16 filhas, todas mulheres…
- E todas do mesmo casamento ?
- Não, cada uma tem uma mãe diferente.
- O senhor teve 16 mulheres assim, todas juntas, ao mesmo tempo ?
- Não, todas juntas não. Cada uma numa casa .
- Sim, mas ao mesmo tempo. Não deu confusão ?
- Não, senhora, o segredo é não chamar nunca pelo nome. A gente pode se confundir.  Tem que ser só meu amor, meu bem, princesa … pra não ter perigo de trocar o nome.
- E com qual delas o senhor está agora?
- Com nenhuma. Agora estou casado com uma guria de 19 anos. Eu tenho 73,  meu pai morreu com 108,  minha mãe está com 112.
- Puxa, vocês são longevos….
- Heim?
- Longevos, vivem muito tempo.
- É, e a senhora sabe qual o segredo? Banha de porco. Só faço comida com banha de porco, esse tal de azeite de soja é um veneno. Banha de porco e azeite de oliva, o segredo é esse.
- E como foi que o senhor conheceu sua esposa atual, a de 19 ?
- O meu Cigano me disse.
- O seu o que ?
- Meu Cigano, a senhora sabe, eu sou batuqueiro. O meu Cigano me disse que eu fosse numa tal festa de gurizada porque lá eu ia conhecer a mulher da minha vida. Que eu não tinha como me enganar, era uma morena de cabelos compridos e olhos verdes. Foi no dia do casamento da minha guria mais moça. Durante todo o casamento, eu estava numa aflição só. Louco que aquilo terminasse para poder ir na tal festa. Bem no fim, deixei tudo e fui pra casa, tomei banho, vesti uma bermuda estampada e fui pra festa. Quando cheguei, paguei R$ 3.000,00 de cerveja pra todos os guris que eu não sou bobo de algum ficar de cara feia comigo. Eu sabia que quando terminasse de dançar não ia dar mais pra nada, nem pra briga, é que era só aquelas danças da garrafa e da boquinha, as pernas velhas já estavam me doendo. Mas aí foi quando  ELA entrou. Bem igual como o cigano tinha dito. ELA chegou perto de mim e foi logo dizendo : cara, fui numa cartomante e ela me disse que eu ia conhecer um “coroa” na festa e que ele era o homem da minha vida. Já saímos dali pra casa dela e ela me apresentou pra mãe como namorado. Eu fiquei meio sem graça, a velha podia pensar que eu estava de mal intenção com a filha dela, então fui mostrando os extratos das minha aplicações nos bancos e a velha concordou. Nós já estamos juntos faz um tempo, ela me deu o meu único filho guri. Nos damos muito bem. Só que agora ela está meio de mal comigo. É que ontem, quando eu vi tinha chegado lá em casa uma namorada minha de Curitiba. Ela queria por que queria me dar R$ 400.000,00 pra eu comprar mais uns táxis. Eu disse para ela : não quero o teu dinheiro. Tu não me compra.  Agora tu viste porque eu não fico contigo lá em Curitiba ? É que aqui eu tenho essa moça que é o amor da minha vida….

Juro que não aumentei nem inventei nada. Ao contrário, não contei tudo para não ficar muito comprido. Tem ainda a história paralela de um menino, filho de uma prostituta, que ele adotou.

Cá entre nós, não dava um baita livro ? Daqueles que depois viram filme?

Será efeito da feira ?

Postado por ana mariano

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