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Posts de dezembro 2008

Trair e coçar.....

31 de dezembro de 2008 2

Não conheço nada, ou quase nada, mais machista, nada mais bonito.

Postado por ana mariano

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Uma pequena traição

31 de dezembro de 2008 2

Se é verdade que o que os olhos não vêem o coração não sente, Drummond não vai se importar. Afinal, ele está lá no Rio de Janeiro e eu aqui no Uruguai. Estava procurando o samba da bênção do Vinícius ( achei) e encontrei essa gracinha.

Postado por ana mariano

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Passagem do Ano

31 de dezembro de 2008 2

 

Tenho o pé pequeno, 34, então, quando encontro um sapato que gosto e tem o meu número compro logo dois porque sei que não será fácil de achar outro.  Os poemas do Drummond são exatamente o meu número, e, seguindo a mesma lógica de que vai ser difícil de encontrar outros tão bons, separei dois para encerrar o ano. Um é mais alegre, coloco primeiro o mais triste.

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
                [ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
                                               Carlos Drummond de Andrade

Postado por ana mariano

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Bienais e protestos

30 de dezembro de 2008 8

Tenho um sentimento ambíguo com relação a pichadores. Em princípio, sou contra. Não posso, porém, deixar de reconhecer que existem, entre eles, artistas verdadeiros.

A transgressão de usar espaços não destinados incomoda, mas fazer arte não é, por definição, transgredir? Sem essa transgressão, esses artistas teriam espaço para mostrar o que fazem?

A discussão é longa, transgressões são necessárias para dar um mexida no estabelecido. Tinha razão Heráclito: o conflito é o pai de todas as coisas.

No que diz respeito a Caroline Pivetta da Mota, a moça que pichou o andar vazio da 28ª Bienal de São Paulo, existe, no meu entender, uma atenuante. Os curadores, num protesto contra falta de verbas, deixaram vazio um andar.

As críticas que ouvi, e com as quais concordo, é que os curadores extrapolaram sua função de curadoria e tornaram-se artistas, fizeram arte na Bienal, a arte do espaço vazio.

Qual a atitude mais recriminável ? A de pessoas que, em protesto, deixam vazio um espaço quando há uma fome de espaço grassando entre tantos que não têm oportunidade de mostrar sua arte ? A de pessoas que, em protesto, preenchem esses espaço vazio com tinta? Não esqueçam que o patrimônio público, o nosso patrimônio, não foi destruído, a tinta do protesto pode facilmente ser coberta por outras tintas, as de parede.

Postado por ana mariano

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Poemas de um quieto senhor

28 de dezembro de 2008 7

Uma amiga manda de presente esses poemas. São de um tio, um quieto tio que gosta de praia e poesia. Lembram quando coloquei aqui poemas do uruguaio Aurelio Pastori e comentei que alguns poetas dizem muito com pouco ? Pois o “tio” Cláudio ( um tio assim precisa ser partilhado) tem essa rara qualidade.

 

Calada a Noite, Calada…..
 
Calada a noite, calada.
Pelo ar, estrelas dançando.
Pelo ar, estrelas em bando
Num jogo de tudo ou nada.
 
Que faz a lua cansada
No meio desse desmando?
Como se andasse esperando
Notícia nunca chegada?
 
Calada noite, calada.
E o coração navegando
Nas asas de um não-sei-quando
Além de qualquer estrada.

Adeus Pinhal
 
Adeus Pinhal.Vou-me embora.
Chega a hora de voltar.
No tempo nada demora…
Nada vem para ficar.
 
Eu vejo o outono apontando.
Posso senti-lo no ar.
Adeus Pinhal.Até quando
Possa outra vez retornar.
 
Até que eu possa, de novo.
Compartilhar com teu povo.
Dessa paz, desse teu mar.
 
Desse timido sorriso
Que me traz o que preciso
Quando o tempo é de ficar.
 
            Claudio Jacobus Furtado

 

 

 

Postado por ana mariano

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Neste ano, não fiz árvore

25 de dezembro de 2008 3


Neste ano, não fiz árvore, fizeram por mim.

Postado por ana mariano

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Meu presente a vocês neste Natal

24 de dezembro de 2008 2

E como eu palmilhasse vagamente a grande loja,
e era tarde, quase hora de fechar,
misturada ao som dos meus sapatos,
a sombra de um duende de voz rouca
abriu-se num sorriso e perguntou-me:

Que presente queres dar aos teus amigos?
Não sei, respondi, alguma coisa da qual tenho só a vaga idéia.
Vamos lá então, me fale nela.
Primeiro é preciso que exista, não adianta querer o impossível.
Muito bem , disse o duende, é um começo.
Que não seja coisa rara, incomum, são muitos meus amigos e nenhum
deve ficar sem ganhar o seu presente.
Vou pesquisar os estoques disponíveis, fez o duende, já abrindo o blackberry.
Gostaria também que fosse útil, de bugigangas as gavetas estão cheias.
Bem pensado pois aqui  nós não trocamos, sem razão ou comprovante ,
o que se vende.

Quem sabe amor? eu arrisquei, já sonhadora.
Amor materno não existe nessa loja, dado de graça, esse amor não é comprável.
Disso eu sei,  respondi e nem pensava. Quero algo tolo, alegre , engraçado,
o amor feliz que inventam os namorados.
Desse nós temos, respondeu o meu duende,
pois surge sempre, não tem tempo, não tem hora.
Vou avisando porém que, quando pega,
nem todos vão saber como regá-lo.
Muitas pragas o atacam, ele é bem frágil, difícil de cuidar, não sobrevive.

Dinheiro ! pensei eu, já decidida.
Dinheiro ? nessa crise ? nem pensar!
A  senhora não tem lido nos jornais?

Saúde ! disse, então,  envergonhada, 
sou poeta mas não sou alienada.
Essa nós temos, mas não vem com garantia.
Pode mudar toda hora, todo dia .

Alegria, sugeriu , enfim, meu guia. Boa idéia pensei mas não achei,
a alegria duradoura que eu queria.
As  que encontrei traziam sempre no reverso, a porção equivalente de agonia.

Quando já tinha desistido e saía, cabeça baixa, as  mãos pensas e vazias
o duende me chamou, que retornasse.

Temos algo que as pessoas não nos pedem, pois associam com guerras e duelos.
Não é rara, nem difícil de cuidar, quando se instala faz o resto vicejar.
Contra as pragas do amor, é tiro e queda.
 Nas doenças, na tristeza, na penúria cada um procura a sua mas esquece
de para os outros querer ou desejar.
Não é barata mas, no fim, vale seu preço.

E foi assim, pessoal que escolhi o presente pra vocês nesse Natal
                 uma cestinha repleta de CORAGEM.
Não foi tão simples, custei a encontrar,  tenho certeza que vocês a vão usar.

                                          ( peço desculpas a Drummond pela brincadeira)

                           

Postado por ana mariano

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Nós, os tecodontes

21 de dezembro de 2008 3

Porque acho os jacarandás a cara de Porto Alegre ou, pelo menos, a cara que eu quero que minha cidade tenha, comparo o Sergius Gonzaga, nosso Secretário de Cultura,  a um enorme  jacarandá.
Enorme porque ele é grande mesmo e maior ainda me parece pois o olho de baixo para cima ( tenho 1,59m). Jacarandá porque igual à  árvore que, todos os anos,  pontualmente, inaugura a primavera, o Sergius nunca nos deixa na mão: algum evento cultural, muito bem organizado e planejado, está sempre acontecendo na cidade. 
Pois foi esse Sergius que, no dia da entrega do Prêmio Açorianos, literalmente roubou a cena  ao discursar sobre a sempre anunciada morte do livro. Para quem não estava lá ou  não o leu no Caderno de Cultura da Zero de sábado, recomendo que entre na internet e procure. Não vai ser igual a ouvi-lo em pessoa, mas, vale a pena. Transcrevo aqui, a parte final de Nós, os tecodontes. 

Por uma questão de bairrismo, de regionalismo, diria que somos mais do que dinossauros. Somos tecodontes – uma espécie de avô desses monstros mais conhecidos e que andou pela paisagem rio-grandense há quase 200 milhões de anos. Catalogado cientificamente por Mario Barberena – um dos maiores paleontólogos brasileiros e uma figura maravilhosa –, o tecodonte tinha mais de cinco metros de comprimento, era carnívoro, extremamente furioso, e, diante de outros seres e das intempéries da época, rugia de forma assustadora

Sim, nós somos os últimos tecodontes. Os tecodontes dos livros, das ficções supremas e dos versos sublimes.

E porque nos foi dada a chance de adorarmos o reino da linguagem, onde vivem, como diz Drummond, as palavras de mil faces, nada tememos.

Que venham, então, os meteoritos, os asteróides, os tsunamis, os terremotos, as chuvas ácidas, as cinzas vulcânicas, as partículas corrosivas do cosmos!

Nada tememos!

Que venha algo como os labirintos infinitos de Borges, o grande nada de Brás Cubas, a explosão derradeira de A Consciência de Zeno, a loucura de Raskolnikov, o dilúvio de Macondo, o silêncio eterno de Rimbaud, o pesadelo de Gregor Samsa.

Já conhecemos todos os terrores!

Que venha o apocalipse!

Nós – orgulhosos tecodontes rugidores – encararemos o infinito sombrio… e resistiremos.

Sergius Gonzaga - Secretário de Cultura de Porto Alegre

Postado por ana mariano

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Nosso pobre cérebro imperfeito

19 de dezembro de 2008 8

Leio na Folha que Gary Marcus, psicólogo americano, lançou um livro no qual sustenta que o cérebro humano não é tão racional  quanto se pensa.
Segundo ele, ou não fomos bem projetados ou  nossa evolução aconteceu de uma forma imperfeita.  
Isso teria acontecido porque nossa consciência e nosso raciocínio lógico teriam sido “construídos” , na falta de algo melhor, aproveitando estruturas primitivas. Uma espécie de quebra-galho.
Essa imperfeição da racionalidade justificaria nossa tendência ao auto-engano, à teimosia e a aceitarmos crenças religiosas .
Em outras palavras, porque nosso cérebro não é assim tão racionais teríamos o hábito de aceitarmos o que confirma aquilo em que já acreditamos e recusarmos os argumentos e evidências em contrário.
Porque não suportamos o inexplicável, teríamos uma tendência em aceitar, com facilidade, a religião.
E porque nosso cérebro não é lá essas coisas, teríamos dificuldade em arquivar informações.
Se ele está certo quanto às razões não sei, mas que agimos da forma como ele diz, concordo e dou dois exemplos.
Na página seguinte do mesmo jornal,  a reportagem sobre o livro – Eu fui Vermeer –  conta a história de um falsário que imitava pintores do século 17, especialmente Vermeer,  aquele do filme A Moça do Brinco de Pérola. Sabendo que havia uma lacuna entre duas fases de Vermeer, ele pintou um quadro que justamente preencheria essa lacuna, um quadro que confirmava as teorias existentes sobre o pintor. Isso levou os críticos a aceitarem a peça com facilidade e a proclamarem a pintura falsa como um tesouro nacional.
Segundo o mesmo psicólogo, políticos e publicitários, teriam, de forma intuitiva o conhecimento que ele alcançou apenas através de pesquisas.
Ou seja, por vezes a intuição vale mais que o conhecimento.
Essa frase não é minha, mas como meu cérebro não tem capacidade de arquivar informações,  não lembro agora quem a disse, quando lembrar conto a vocês.

Postado por ana mariano

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Um dos poemas mais belos de Drummond

13 de dezembro de 2008 4

Tarde de maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêncios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, e tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh´alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,
colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.
Eu nada peço a ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que, precisamente, volve o rosto, e passa…
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes, morremos.

Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência de resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro
fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,
sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.
E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito
lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nunca houve testemunha.

Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram
e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória
das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,
perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

                                                                  Carlos Drummond de Andrade

Postado por ana mariano

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