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Posts de julho 2009

Festival de Inverno

30 de julho de 2009 0

Enregelada , com o nariz entupido,  agasalhada com tudo a que tenho direito e rezando para que a tal gripe A não me pegue, estou passando manhãs maravilhosas no Teatro Renascença acompanhando dois cursos do festival de inverno da Prefeitura Municipal de Porto Alegre.
O primeiro, Dostoiévski e Nietzsche  é com Oswaldo Giacóia Jr., um homem inteligente e doce que me lembra, pela gentileza, o Assis Brasil. Outra hora falo sobre o que estou aprendendo com ele.
O segundo, Borges em Cinco Lições, é com Martin Kohan, um rapaz argentino que se define como torcedor do Boca e não como argentino. Culto, irreverente, ouvi-lo valeria, se não tivesse vindo até Porto Alegre, uma viagem a Buenos Aires . 
Kohan  está examinando conosco 5 contos do Borges. O primeiro: Pierre Menard, autor de Quixote , é um pequeno conto que, quando li, não gostei, achei chato, não entendi. Justamente por isso, é sobre ele que quero falar.
Nesse conto, Borges no diz que Pierre Menard, um escritor francês do início do século XX, teria escrito um Quixote ao mesmo tempo exatamente igual e infinitamente superior ao do Cervantes. Fazendo uma longa lista de obras de Menard, quase nos convencendo que o conto não é conto mas ensaio. Menard , sem copiar, teria escrito Quixote  novamente, e, sem alterar um vírgula, o faz infinitamente melhor.
Como assim? perguntei , sem me preocupar em responder. Nunca vou entender totalmente Borges, deixei passar.
 Burra, mil vezes burra! Burra e preguiçosa. Era só ter me detido um pouco mais e teria me enriquecido tanto!
Esse pequeno conto, aparentemente sem graça, abre sei lá quantas possibilidades de interpretação, tantas que dá até raiva. Para não passar vergonha, me atenho a apenas uma .
Como se pode escrever um livro exatamente igual e ao mesmo tempo melhor, mais amplo que o original?
Muito simples: lendo- o.
Pierre Menard , autor de Quixote, é um leitor e, como leitor, sem alterar uma vírgula do original, ele escreve Quixote, o transforma, o enche de novas significações, o faz muito mais amplo pois a ele acrescenta toda a bagagem, toda a  vivência, todo o conhecimento de um outro homem, um homem de outro século.
Depois dessa, juro que nunca mais vou passar por Borges sem olhar duas vezes.

 

Postado por ana mariano

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Arnaldo Antunes por Maria Bethânia

26 de julho de 2009 6

Tentei escrever alguma coisa pra acompanhar essas poesias mas tudo me pareceu supérfluo.

Postado por ana mariano

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Nós, os frágeis

24 de julho de 2009 9

Leio no Le Figaro ( 9/7/09)que surge em geriatria um novo conceito: a fragilidade. 
As pessoas que, depois da tal  “certa idade” ( e essa “certa idade” não tem idade, pode ser algo entre 50 e 90), eram divididas apenas entre dependentes e independentes, hoje são classificadas também como frágeis.
Fragilidade, dentro da faixa acima referida,  seria a luz amarela, o toque da sirene avisando que a bomba vem caindo e é preciso buscar abrigo. 
Nenhuma novidade vocês hão de dizer, claro que antes da dependência vem a fragilidade, sempre veio.
Concordo.
O ovo de Colombo, no meu entender é o prestar atenção.  O entender que a fragilidade é um  estado intermediário que deve ser,  não apenas aceito como  inevitável antes da dependência,  mas aproveitado  com sabedoria  justamente para retardar a dependência.
A fragilidade não nos diz apenas – estamos ficando velhos -  ela nos convida a fazer alguma coisa.
Falando português claro,  todos somos rolimãs ( aqueles carrinhos de madeira) rolando lomba abaixo. A fragilidade nos diz a hora de acionar o freio.
Lembro dos meus tempos de guria que saber usar o freio na medida certa sem travar demais o carrinho , sem desviá-lo da rota e sem fazê-lo capotar,  podia não ser fácil, mas fazia toda a diferença.

Postado por ana mariano

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Antes de nascer o mundo

22 de julho de 2009 6

A primeira vez que vi uma mulher tinha onze anos e me surpreendi subitamente tão desarmado que desabei em lágrimas.

Assim começa Antes de nascer o mundo, talvez o mais poético dos livros do sempre poético Mia Couto, aquele escritor  moçambicano sobre o qual já falei aqui .
Cada capítulo é precedido de um poema, ou da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen ou da nossa Hilda Hist.

Olhem que bonito esse da Sophia:

Alguém diz
“Aqui antigamente houve roseiras” -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Simples, bonito, essencial como um gole d´agua bebido do escuro, como diria o nosso Mario Quintana.

Postado por ana mariano

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A dona Edna não entendeu nada

21 de julho de 2009 10

Nunca  leio a coluna do Diogo Mainardi. Sei que o rapaz é inteligente, que leva com discrição e coragem uma grave tragédia pessoal, imagino que deva ser, no fundo, uma boa pessoa. Mesmo assim, não o leio. É uma forma de protesto,  não concordo com a maneira que  escolheu para se diferenciar: a grosseria. Aquela velha e batida história de falem mal mas falem de mim.
Na revista Veja do dia 15 passado um artigo sobre Edna O´Brien, festejada  escritora irlandesa cuja obra eu, infelizmente, ainda não  conheço, remete à coluna do Diogo. Então, desobedecendo meus hábitos, fui ler a coluna do Diogo.
Passo a citar “ Edna O´Brien foi arrastada a um encontro entre Chico Buarque e Milton Hatoum. O que ela afirmou assim que conseguiu escapar do encontro? Que Chico Buarque era uma fraude. O que ela afirmou em seguida durante o jantar? Que se espantou com a empáfia e com o desconhecimento literário dos dois autores”
Se essa senhora, realmente disse isso ( e Diogo, penso eu, não mentiria) ou o fez  entre amigos, sem esperar que sua opinião fosse divulgada, ou foi tão inconsequente e grosseira quanto o Diogo.
Na coluna, Mainardi chama o  Chico de cantor e buzinador de letras, jamais de compositor. Por que não ? Talvez porque o Chico compositor há de ficar e o Diogo cronista será esquecido?
Concordo com Nelson Rodrigues quando diz que a unanimidade é burra mas concordo também com Ezra Pound quando diz que a crítica já começa errada quando fala do poeta e não da poesia.
Foi aí que o Diogo se atrapalhou.  Ele nada acrescenta ao falar da pessoa Chico, ao insinuar que seja um ignorante. Não quero cair no mesmo erro e falar na pesssoa mas não posso deixar de lembrar que, filho de Sergio Buarque de Holanda, cultura, para o guri era algo de consumo diário, feijão com arroz. 
Pessoalmente, prefiro o  compositor ao escritor. Parece que muitos concordam comigo. Várias das críticas que li sobre O leite derramado não foram entusiastas: um livro elegante, disseram, bem escrito, mas não uma grande obra. Na minha  opinião, o Chico compositor vai ficar, o romancista, acho que não.
Ficarão também, com certeza, os livros do Milton Hatoum, um excelente escritor. Desafio Diogo a escrever algo parecido com Relato de um certo oriente.
Ao contrário do que afirma o título da coluna do Mainardi, a dona Edna não entendeu nada até porque ninguém pode entender nada num encontro superficial durante uma feira literária.
Embora saiba que ao escrever sobre o Diogo entrei no jogo do  falem mal mas falem de mim, não resisti. É que fiquei com vergonha , com vergonha do deslumbramento provinciano: uma festejada escritora irlandesa disse, está dito. Para mim também está dito, a
ssunto encerrado, deixa pra lá, somos humanos, m…. acontece.

Postado por ana mariano

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La voile rouge

17 de julho de 2009 4

A praia mais badalada de Saint Tropez chama-se La voile rouge. Desfiles de moda, champanhe, chaises, colchões, toalhas: alto estilo. Ao lado, uma outra , oferecendo os mesmos confortos e sofisticações, The Liberty. A diferença é que nessa ( e na praia pública ao lado) o povo anda pelado. Sabem que não fica feio? E olhem que não estou falando de mulheres maravilhosas, homens esculturais, estou falando de senhores e senhoras absolutamente comuns, mulheres com quilinhos a mais ( aquelas que as revistas de moda chamam de “ mulheres verdadeiras” ), homens com  barrigas mais pra máquina de lavar do que pra “tanquinhos”.

Quando  alugava uma casa perto da Praia Mole em Santa Catarina, fui algumas vezes caminhar na praia dos nudistas que ficava ao lado. Lá, havia um não sei que de exibição que não me agradava. Nessas praias francesas, ao contrário, me pareceu haver apenas vontade de tomar sol. Posso estar enganada, mas foi o que senti.

No entusiasmo da liberdade quase que me apaixono por um senhor sisudo, fumando cachimbo, coberto apenas por irresistível chapéu a Sherlock Holmes.

Postado por ana mariano

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Não tem preço

13 de julho de 2009 2

Durante o café, leio que 1500 pessoas depositam rosas brancas na escadaria na prefeitura de Dresden. Homenagem ä uma jovem mãe muçulmana assassinada na sala do tribunal pelo simples fato de ser muçulmana. Convivência pacífica entre as religiões, pedem os alemães, e com razão.

Na mesma página do Le Figaro: em Nápoles, ex – presidiários, identificados por coletes coloridos e bonés, dão informações aos turistas e os orientam contra os ataques dos batedores de carteiras. Quem melhor que nós para protegê-los? Sabemos exatamente como agem os ladrões, dizem os ex-presidiários , e têm razão.

Hoje, véspera de 14 juillet, é dia dos bombeiros  Por toda a cidade, vai haver música e se pode dançar à vontade com os soldados do fogo.
Ce sont des beaux hommes, jeunes, forts , sexy, un fetiche ! me diz a francesinha. Ela também tem razão?

É como aquela propaganda do cartão de crédito. A passagem  custa X  O hotel X mais Y. Correr bem cedo às margens do Sena enquanto Paris ainda lava suas calçadas – não tem preço.

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Em tempos de lavandas

10 de julho de 2009 11

Postado por ana mariano

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Uma crônica de Rubem Braga

05 de julho de 2009 7

No aeroporto, encontro essa preciosidade. Dá vontade de ter olhos azuis só para fingir que foi escrita pensando em mim.

Opala

 

Vieram alguns amigos. Um trouxe bebida, outros trouxeram bocas. Um trouxe cigarros, outro apenas um pulmão. Um deitou-se na rede, e outro telefonava. E Joaquina, de mão no queixo, olhando o céu, era quem mais fazia: fazia olhos azuis.
Já do Observatório me haviam telefonado: “Vento leste, águas para o Sul, atenção senhores cronistas distritais, o diretor avisa que Joaquina hoje está fazendo olhos azuis.”
Às 19:00 enviei esta mensagem: “Confidencial para o Diretor. Neste momento uma pequena nuvem a boroeste deste apartamento dá uma tonalidade levemente cinza ao azul dos olhos de  Joaquina, que está meditando nessa direção. A bordo, todos distraídos, mas este Cronista Distrital mantém sua eterna vigilância. Lábios sem pintura de um rosa muito pálido combinam perfeitamente tonalidades cinza do azul referido.”
A voz roufenha do Diretor: “Caso necessário, dispomos de um canteiro de hortênsias, tipo Independência Petrópolis, igualmente duas ondas de Cápri, às cinco da tarde de agosto de 1951, considerada uma das melhores safras de azul de onda último quarto de século.”
Respondo secamente: “Desnecessário. “
À noite sentimos que o apartamento estava mal apoiado no bairro e derivava suavemente na direção da lua. Às seis da manhã havia uma determinada tepidez no ar quase imóvel e duas cigarras começaram a cantar em estilo vertical. Às sete da manhã seis homens vieram entelhar o apartamento vizinho, e um deles assobiava uma coisa triste. Então uma terceira cigarra acordou, chororocou e ergueu seu canto alto e grave como um pensamento. Sobre o mar.
Joaquina dormia inocente dentro de seus olhos azuis; e o pecado de sua carne era perdoado por uma luminescência mansa que se filtrava nas cortinas antigas. Havia um tom de opala. Adormeci.

                                                                                Janeiro, 1953

Postado por ana mariano

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