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Posts de setembro 2009

O livro esquecido e outras considerações

30 de setembro de 2009 2

Ganhei de Luiz Paulo Vascocellos,  neto de um quase Barão, marido da Sandra, filho, cujo pai virou nome de rua e a mãe, de biblioteca, consagrado diretor de teatro, professor, joalheiro e poeta em vagas horas, os poemas de Comendo Pelas Beiradas. Avara, divido, com vocês, apenas dois.

 

O livro esquecido

Os livros não-lidos gemem nas estantes. Quanta melancolia naquelas palavras esquecidas, escritas, mas não-lidas, que se acotovelam, pó com pó, capa com capa, no recolhimento das prateleiras. Quanta vontade guardada, quanta grandeza esquecida, quanda luminosidade apagada. E o leitor passando ao largo, buscando outro título, outro código, outro número, outra lombada, não tão grossa, nem tão fina, olhos difusos, vontade breve. E o livro ali, ao alcance da mão, eternamente intocado.

                                       ************

Pergunto

Que mágica possui

um cheiro de pescoço

pra fazer desabrochar

a flor que avança

em busca de arrimo

e cobertor?

                                                    Luiz Paulo Vasconcellos

 

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A cortesia dos cegos

27 de setembro de 2009 7

 

O poeta seus versos para os cegos.

Não esperava que fosse tão difícil.

Sua voz fraqueja.

Suas mãos tremem.

 

Ele sente que cada frase

está submetida à prova da escuridão.

Ele tem que se virar sozinho,

sem cores e luzes .

 

Uma aventura perigosa

para as estrelas da poesia

para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os néons, a lua,

para o peixe tão cintilante sob a água

e o falcão tão alto e quieto no céu.

 

Ele pois não pode parar

sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,

telhados vermelhos que se contam no vale,

números irrequietos na camisa dos jogadores

e a desconhecida, nua, na fresta da porta.

 

Ele gostaria de omitirembora seja impossível

todos os santos no teto da catedral,

a mão que acena do trem em partida,

a lente do microscópio, o anel e seu brilho,

as telas de cinema, os espelhos, os álbuns

de fotografia.

 

Mas é enorme a cortesia dos cegos,

admirável a sua compreensão, a sua grandeza.

Eles escutam, sorriem e aplaudem.

 

Um deles até se aproxima

com o livro de cabeça para baixo

pedindo um autógrafo invisível.

 

                                                                       Wislawa Szymborska

 

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A coragem das idéias

26 de setembro de 2009 1

Um livro gostoso de ler que fez muito sucesso e até virou filme foi Quando Nietzsche Chorou.  O que ele narra, embora podendo ter acontecido, pois os personagens existiram, viveram na mesma época e no mesmo local e, ao que tudo indica, liam-se uns aos outros, é pura ficção. Ligando Freud, Breuer e Nietzsche, ele mostra que as idéias andam “pululando” no ar e, em cada época, uns poucos privilegiados as conseguem captar, mais ou menos ao mesmo tempo. Freud e Nietzsche tinham tantas idéias em comum que Freud chegava a dizer que não lia Nietzsche ( ele lia) para não se influenciar. Essas pessoas sensíveis, que conseguem captar idéias maduras são, como dizia Pound, as antenas da raça.  Graças a elas, o mundo segue adiante.
Nas descobertas científicas, sejam elas boas ( a corrida espacial ) ou ruins ( a bomba atômica) chega-se a dizer que o individualismo terminou. Hoje dependemos cada vez mais das equipes, das máquinas de precisão, dos grandes telescópios ou microscópios, dos computadores.
Nada substitui, porém, a idéia inovadora. E as idéias não prescindem do indivíduo.
Algumas, feito frutas de época, amadurecem na mente de várias pessoas ao mesmo tempo e, apenas por questão de dias, uma delas torna-se “a descobridora”. Darwin não foi o único a pensar em evolucionismo.
Outras, porém, são tão inovadoras que parecem surgir na mente de uma única pessoa e aí, é sem qualquer apoio, deve ser muito difícil assumi-las, porque, quem o fizer, poderá ser acusado de louco, de Joãozinho do Passo Certo ou cozido em fogo lento pela sociedade, pelo menos de maneira metafórica. 
Trazendo esse contexto para as pessoas comuns, a vida de todos os dias, quanto de coragem é preciso para se assumir uma idéia inovadora ? Uma troca radical de emprego, de casa, de parceiro? Muita, com certeza. Mas, sem ela, sem essa coragem, corremos o risco de ficarmos, até morrer,  na idade das trevas.

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Esses anúncios misteriosos

26 de setembro de 2009 3

 Embora não entendendo  bem como surgem. me divirto com os anúncios ao lado direito do blog: vão mudando a cada dia e sempre tem alguma relação com o que escrevo.

Se falo sobre o Uruguai, aparecem anúncios de viagens aéreas , propaganda de hotéis.

Acho que estou falando demais em velhice: apareceram anúncios de asilos geriátricos e colchões especiais para problemas de coluna. 

Vou parar antes que falem em cremação…

 

Postado por ana mariano

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Namastê

24 de setembro de 2009 2

Nós, mulheres, vivemos sob uma ditadura. Ela sempre existiu, foi reforçada por Vinícius : as muito feias que me perdoem mas beleza é fundamental.
Ao homem, desculpa-se muito, à mulher, quase nada. Ao contrário deles, não podemos ter barriga ( aliás, a Martha Medeiros falou a respeito recentemente)  rugas, cabelos brancos.
Pensei nisso ao ver minha foto com as primas na estância.  Mudamos bastante nestes últimos quarenta anos: algumas engordaram, outras, como eu, ganharam rugas. Helena disse: éramos jovens, bonitas e felizes e todas concordamos.
Por outro lado, acho que ficamos pensando que, hoje, quarenta anos depois, somos, por dentro, ainda mais jovens do que éramos antes, mais alegres, com menos medos, pesos e culpas.
Alguém disse: leva-se muito tempo para ser jovem.
Minha tia, no chá em que comemorou seus noventa anos, chamou as amigas da mesma idade: vamos nos servir gurias?
Por dentro, somos e seremos, sempre, guris e gurias. Vamos passar nossos creminhos, mas, se mesmo com eles, as rugas aparecerem: danem-se as rugas. Se nós não as soubermos apreciá-las, reconhecer que cada uma delas nos faz reais, mosta o riso e o choro que nos tocou na vida, quem vai saber?
Minha professora de ioga, ao final da aula, me saúda com Namastê que significa:  a deusa que existe em mim saúda a deusa que existe em ti.
Não podemos jamais esquecer essa deusa. Ela está em nós, e será, para sempre, jovem, feliz e bonita.  

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Estou numa fase Benedetti

20 de setembro de 2009 3

Ontem, postei uma foto do ano em que chegamos à lua: minha homenagem à semana farroupilha ,  ainda que meus antepassados, ou pelo menos um deles, tenham lutado do outro lado. Nada melhor para homenagear o gaúcho do que a foto de quem viveu no campo, de verdade.
Aquela fotografia me fez voltar no tempo e, porque estou numa fase Benedetti, me lembrou este poema.
Quando éramos meninos os velhos não tinham mesmo trinta anos?
Depois( na época da foto) eles tinham quarenta . A morte existia mas era ainda apenas uma palavra.

Pasatiempo


Cuando éramos niños
los viejos tenían como treinta
un charco era un océano
la muerte lisa y llana
no existía.

Luego cuando muchachos
los viejos eran gente de cuarenta
un estanque un océano
la muerte solamente
una palabra.

Ya cuando nos casamos
los ancianos estaban en cincuenta
un lago era un océano
la muerte era la muerte
de los otros.

Ahora veteranos
ya le dimos alcance a la verdad
el océano es por fin el océano
pero la muerte empieza a ser
la nuestra.

                                         Mario Benedetti

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Rural

20 de setembro de 2009 4

Rural 2

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A partida

17 de setembro de 2009 3

Aproveito o comentário do Pedro, no post anterior, para falar sobre A Partida, filme japonês que trata da morte:  razão de ser de todas as filosofias.  
Talvez porque o fui assistir sem grandes expectativas, sem nem mesmo saber que ganhara o Oscar de melhor filme estrangeiro, eu o achei de uma delicadeza e uma beleza extraordinárias.
Foi acusado de piegas. Não é. Há, é verdade, um que outro pecadinho: cenas nas quais o diretor afasta-se das suas raízes e, pensando, talvez, no mercado mundial ou em prêmios,  procura  inseri-lo num suposto ( e ingênuo) jeito ocidental. Essas cenas são assim como notas desafinadas numa bela sinfonia: prejudicam, mas não a estragam totalmente. 
A história, em si,  não é complicada : um violoncelista desempregado responde a um anúncio de uma funerária pensando tratar-se de uma agencia de viagem ( o anúncio fala em partidas) e,  quase sem querer, apenas porque está precisando de dinheiro, passa a trabalhar como Nokanshi, pessoa que lava, veste e prepara os defuntos para os funerais. 
A música é belíssima, a fotografia também. 
O mais bonito, porém, é a forma original com que o filme aborda um assunto já tantas vezes abordado: vida e morte.  
Focando-se no momento final da despedida – o fechar do caixão-  ele discorre, sem palavras, sobre finitude e permanência. 
Ao embelezar os corpos , Daigo, o protagonista,  dá à  finitude do corpo  um aspecto consolador de eternidade.Talvez para mostrar  a sutileza do milagre, o primeiro trabalho dele  é o de remover um cadáver já em  decomposição: ali, nada há para ser feito, chegou tarde demais. 
Em seus outros trabalhos, porém, Daigo, com competência, respeito e dignidade, consegue criar a ilusão de que o espírito, a alma, a inteligência, como quiserem chamar esse sopro que nos faz ser quem somos e que se vai quando morremos,  retornou, por alguns minutos, ao  corpo perecível. 
A paz, que Daigo consegue fazer voltar ou criar nos rostos mortos, convence : eles aceitaram a morte, reconciliaram-se com ela. Isso dá à família a chance de também reconhecer seus mortos, despedir-se deles, reconciliar-se.    
Esse filme é,sem dúvida, uma bela e original maneira de debruçar-se sobre o abismo.

Postado por ana mariano

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Desfazendo aniversários

15 de setembro de 2009 7

Andei ausente, viajando, fui ao Rio festejar o aniversário de uma prima muito querida. Hoje, no avião, li a coluna do Rubem Alves na Folha de São Paulo. O assunto:  aniversários.
Não vou colocar aqui a coluna inteira porque é muito grande mas recomendo que a leiam ( no jornal, ou pela internet). Talvez eu tenha gostado  porque é meio triste, e eu, ao contrário da minha filha e da minha prima, acho aniversário uma data meio triste. Há os que acham o natal triste, ou o ano novo, então, tenho o direito de achar aniversários tristes. Transcrevo  partes da crônica. A primeira, trata de literatura.
Hoje, dia 15 de setembro de 2009, estou desfazendo 76 anos. Minha idade pinta uma paisagem crepuscular.
O revisor se apressará a corrigir o meu erro. Eu devo ter me distraído, coisa compreensivel na minha idade… Não há nem na literatura nem na linguagem comum  exemplo desse uso estranho da palavra “desfazer” para se referir ao que acontece num aniversário. O certo é “fazer”.Ato contínuo ele deletaria o “des” e o texto ficaria liso, sem causar tropeções no leitor: hoje, 15 de setembro , o Rubem Alves está “fazendo” 76 anos. Assim tem sido a minha relação com os revisores: desentendemo-nos sobre a vida e sobre as palavras…
Aí me veio à memória uma observação de Rolland Barthes que não consigo repetir por não ter encontrado o livro: ele disse ( perdoem-me se me engano!) gostar dos textos que fazem tropeçar e não dos textos próprios para deslizar. O deslizamento deixa os pensamentos do jeito como estavam, enquanto que o tropeção e o tombo são ocasiões para o susto e a súbita iluminação.

Tudo bem, vocês tem razão, até aqui ele não falou especificamente de aniversário. Mais adiante ele fala, Diz que, na verdade, a gente comemora os anos que já não tem. O correto,segundo Rubem, seria perguntar ao aniversariante : quantos anos você não tem ? Meio triste, não é? Então não vou transcrever, ficamos só com a parte da literatura.

Estava com saudades de vocês.

Postado por ana mariano

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Porto Alegre em Cena II

11 de setembro de 2009 3

Ontem fui assistir ao espetáculo de Luiz Tatit, Zé Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski. Que me perdoem os paulistas mas eu, ignorante, não os conhecia. Um show maravilhoso! Pura poesia. Hoje eles estarão novamente no Salão de Atos da UFRGS, 21 horas, ainda há lugar, aproveitem.  

Postado por ana mariano

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