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Posts de novembro 2009

Calor e vento norte

29 de novembro de 2009 2

Num verão, há alguns anos,  houve uma revolta num presídio aqui em Porto Alegre. O diretor da casa atribuiu como causa imediata do fato ( sem descartar , é claro, outros fatores )  o vento norte.
A gozação foi geral. Todos os jornais comentavam, em tom de piada, a afirmação de que o vento norte poderia ter alguma influencia no comportamento dos presos.
Eu,  apesar de entender e de concordar com o diretor  – na estância todos sabem que calor e vento norte tornam agressivos, gente e bicho -   fiquei quieta. Até hoje me arrependo desse silêncio, sempre me comparo, em escala menor, a  São Pedro negando Jesus antes que o galo cantasse três vezes.
Ontem, na Folha de São Paulo, um artigo de Ricardo Bonalume Neto confirma o diretor e aumenta a minha culpa.  É um artigo triste  e sério; a todas as desgraças decorrentes do aquecimento global, ele acrescenta mais uma: o aumento das guerras na África.
Um estudo feito nos Estados Unidos indica que em 2030 a incidência de conflitos na África, ao sul do deserto do Saara, será 54% maior, resultando em 393 mil mortes em combate.
“ Não alegamos que todas as guerras estão vinculadas ao clima, ou que o clima é a causa única de qualquer guerra. Tudo que dizemos é que, em média as guerras civis na África, historicamente, têm muito mais probabilidade de ocorrerem em anos quentes ( Marshall Burke, Univ. da Califórnia) .
Ei, não digo que as guerras ou  rebeliões aconteçam apenas porque o vento norte sopra, há, é claro, outros fatores ( queda da produtividade agrícola, migrações, secas, no caso das guerras; superlotação, nos casos dos presídios) mas o clima tem, com certeza, influência sobre nós. 
Muitas vezes esquecemos que, embora morando entre concreto e vidro,  somos  parte da natureza.  

Postado por ana mariano

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Caio Fernando Abreu

27 de novembro de 2009 4

Foi a Angela quem me mandou este texto. Em mais um final de ano, época onde a solidão costuma aparecer mais forte, não há como não identificar-se. 

 

Há alguns anos. Deus  ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus , enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor.

 E você sabe a que me refiro.Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer  eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal  não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos.

Era isso  aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania.

* Caio Fernando Abreu

 

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Emily Dickinson

23 de novembro de 2009 3

Emily Dickinson, poeta americana falecida em 1886, é um fenômeno. Prova definitiva de que, sendo poeta, tendo talento, a vida sonhada,o amor apenas imaginado são tão verdadeiros e importantes quanto a realidade.
Solteirona, sem praticamente jamais sair da casa paterna, deixou uma vasta obra numa linguagem moderna, quase heróica para a época, de uma temática profunda pudicamente escondida por detrás de uma aparente e louvável simplicidade.  Para se ter uma idéia, além de passar um ano num colégio,  fez, em toda a vida, apenas  duas viagens para tratar problemas de visão. Numa delas conheceu um pastor a quem, dizem, teria dedicado seus poemas de amor. Ninguém sabe com certeza. O poema que trago hoje é tradução do Ivo Bender, para mim, seu melhor tradutor .

 

Examinar, reverente, uma caixa de ébano
Depois de passados os anos;
Remover o aveludado pó
Ali deixado pelos verões.

Trazer, sob a luz, uma carta
Pelo tempo esmaecida,
Perscrutar a letra pálida
Que nos aqueceu, feito vinho.

Entre os guardados talvez se encontrem
A corola fanada de uma flor,
Colhida por mão nobre e fértil
Certa manhã, muito longe,

Ou caracóis de frontes,
Por nossa constância olvidadas;
Talvez um antiquado adorno
Em perdidas vestes usado.

Depois, tornar a guardar essas coisas
E voltar aos afazeres,
Como se a pequena caixa de ébano
Não nos dissesse respeito.

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Danças circulares

22 de novembro de 2009 1

Vocês já tinham ouvido falar em danças circulares ? Eu, não. A primeira vez foi nos 60 anos da minha prima Helena ( como diz a filha de outra prima, agora estamos com essa mania: a de fazer 60) . Fui pesquisar um pouco e fiquei pasma com a quantidade de material que encontrei. Gente, é muito legal. Não há como ficar triste e nem solitária nessas danças . Vou citar o que encontrei. ” Através da roda, do ritmo da música e pelo movimento corporal essas danças pretendem sensibilizar, socializar, resgatar valores humanos, incentivar as interações entre os grupos, promover o dialogo amoroso entre as pessoas, desenvolver o senso de organização coletiva, e principalmente “despertar” relacionamentos saudáveis . Entrando em harmonia com os ciclos da natureza , que são circulares, os participantes ( de qualquer idade) transmitem uns aos outros emoções e energias ( uma das mãos fica voltada para cima, recebendo e a outra para baixo, transmitindo) . ” Fiquei sabendo que aqui, em Porto Alegre, seguidamente há encontros no Parque da Redenção com muitos participantes. No vídeo, minha primeira experiência com as tais danças. Sou a de camisa branca ( aliás, como diria minha mãe, essa minha camisa é “ guapa” me acompanhou nos últimos três aniversários e mais numa entrevista para o JC).

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Os gregos na minha vida

21 de novembro de 2009 3

Estou fazendo um curso com Luciano Alabarse.  A evolução da tragédia.  Vamos examinar as tragédias  gregas, Shakespeare e Lorca . 
Luciano, para os que não o conhecem, é um diretor de teatro gaúcho com coragem bastante para  encenar os clássicos – Édipo, Antígona, Medeia, Hamlet, entre outros. 
Digo corajoso porque ele banca os espetáculos e, em teoria, essas são peças que assustam o grande público. 
Teatro, além de arte, é negócio, precisa de retorno financeiro.
Da primeira aula, me ficaram três ensinamentos importantes que, inevitavelmente, trago para a minha vida de todo dia.
                   O primeiro – só existe a tragédia quando se defrontam duas forças absolutamente irreconciliáveis. Se existe possibilidade de conciliação, podemos ter um drama,  jamais uma tragédia. Isso, antes, não me era claro. 
                   O segundo – herói, no sentido grego, é aquele que se modifica ao longo de uma trajetória, mesmo que saia derrotado. Não é lindo isso? 
                     Em Antígona ( peça que trata da luta dessa filha de Édipo contra  Creonte, rei de Tebas, para enterrar o corpo do irmão considerado traidor ) ela, Antígona, embora seja a figura mais forte, a “vencedora” , não é a heroína, no sentido grego do termo, porque não cede jamais, não se modifica.  O herói é Creonte, embora perca tudo e saia derrotado. Nunca me dera conta disso, se caísse no vestibular, errava na certa.
                        O terceiro – os heróis gregos têm seu destino determinado pelos deuses ( matar o pai, casar com a mãe, por exemplo) mas esse destino não lhes tira a possibilidade de escolher. 
 Na Grécia, não havia subjetividade, a culpa não era do indivíduo (lembram do filme Nunca aos domingos? ) mas do cidadão, mesmo assim, impossível não fazer um paralelo entre o destino grego e o inconsciente “descoberto” por Freud. 
                       Ambos nos levam a fazer coisas sem pensar mas não eliminam totalmente nossa capacidade de escolha e, portanto, a responsabilidade sobre nossa própria vida.

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Lágrima por lágrima

18 de novembro de 2009 4

Postado por ana mariano

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As fotos

15 de novembro de 2009 2
Oi Aninha como tu estás ? Hoje li lentamente teu blog, mas confesso que perdi a atenção depois que vi a foto do tio Mariano. Que foto! Fotos mais antigas são fascinantes. As pessoas mortas exercem um fascínio. Fiquei encarando o tio Mariano por vários minutos. Eu acho que os mortos sempre parecem ter algo a dizer, e devo ficar olhando-os para inutilmente tentar descobrir o que é. Acho que eles são mais evoluídos que nós, vivos. Não têm mais defeitos. E sabem mais. Mesmo que estejam inconscientes, em sono profundo, como às vezes penso que deve ser, ainda assim, de certa forma, eles sabem mais. É assunto recorrente, às vezes estou certo de que me vou cedo. Por outras, posso até enxergar minhas profundas rugas de 90 anos. Como penso a longo prazo, de certa forma, tanto faz. Daqui a 80 anos certamente não estarei aqui, e sob esta perspectiva não muda muito ir aos 30, 50 ou 90, mas o que se aproveitou no meio. Quando penso que vou aos 90 tenho certeza que estarei louco pra ir de uma vez. Aos 90 já se perdeu muita gente. Aos 90 já se morreu por homeopatia. É muito mais vazio do que prenchimento. é como estar no segundo grau e ver quase todos amigos graduados. Deve ser por isso que se veste terno. A morte aos 90 é uma formatura. Deveria ser até comemorada.
                                                                        Guilherme

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Olhos de criança

12 de novembro de 2009 4


Fiquei sabendo do artigo escrito pelo professor Voltaire Schilling sobre a Bienal do Mercosul por um amigo. Eu estava viajando quando foi publicado. Li, depois, os vários textos , contra e a favor, publicados por outros entendidos. Pessoalmente, não perco Bienais mas, vamos combinar , ainda que politicamente incorreto, o artigo do professor Voltaire disse o que muitos pensam sobre elas. A frustração existe, acho eu, porque nem tudo é bom e também porque as pessoas vão esperando obras e, no meu entender pouco entendido, Bienais são, fundamentalmente, idéias. Alguma coisa parecida com o que postei antes, escrito por Fabio Cypriano, sobre obras do Helio Oiticica. Ao MARGS e ao Santader eu já havia ido, conforme contei aqui. Essa semana, fui ver as obras na Usina do Gasômetro e nos armazéns do cais do Porto. Digo uma coisa a vocês: nunca mais visito uma Bienal sem uma criança. Bienais precisam ser vistas com olhos de criança, sem preconceitos, descobrindo o novo.. Com um ano e meio, Maria Luiza, deu a nós três, que a acompanhávamos, uma grande lição. Se deixou levar, vibrava, quando pouco havia a ser visto, ela inventava. Tocava as obras ( quando a deixavam) com curiosidade mas respeito. Um dos armazéns está cheio de areia, a areia pode ser tocada mas ela parecia saber que aquela areia não era uma areia comum era algo especial, era arte, tocava com cuidado. Ela e eu achamos lindo o vídeo da bailarina. A instalação sobre a comunidade do Morro da Cruz, também é comovente. Pena que não deixam tocar na bola. A caminho A caminho Examinando Areia Uma pipoquinha, que ninguém é de ferro Uma pipoca, que ninguém é de ferro Trocando impressões Trocando impressões

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Encontro

09 de novembro de 2009 3

Obrigada a todas vocês que me proporcionaram esse novo encontro com meu pai. Obrigada às que fizeram comentários tão carinhosos ( não, Angela, não sou eu e meu irmão, são duas primas irmãs). Melhor que eu, sobre esse encontro, fala Drummond.

 

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.
                                                                    Carlos Drummond de Andrade

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Tio Mariano

08 de novembro de 2009 7

MarianinhoLinaGem-2 O Tio Mariano era o homem mais inteligente que eu conhecia. O pai mesmo dizia isto e olha que o pai sabia curar TODAS as doenças! Verdade que tinha o Papa. E o presidente dos Estados Unidos. O próprio tio Mariano falava muito bem do presidente dos Estados Unidos e de como ele não deixava os comunistas tomarem conta de tudo. Mas estas pessoas eu nem conhecia…De perto, inteligente mesmo, eu não conhecia alguém mais que o tio Mariano. Era uma questão de ter conhecimento das coisas. Era isto. Sobre vacas, ovelhas, peões, campos era até natural que ele soubesse. Ele tinha estudado no Texas, cuidava da estância, tinha obrigação de conhecer. Acontece que havia o resto. O tio Mariano sabia tudo sobre o universo inteiro! Até sobre estrelas, satélites, cometas, foguetes e assuntos assim.A gente podia perguntar qualquer coisa e ele dava a resposta, mas eu me interessava mesmo era pelos “causos”, fábulas e lendas sobre a gente que habitara e ainda habitava aquelas terras. Sentado na sua poltrona, segurava a cuia com o chimarrão que ia sorvendo a grandes goles até fazer um barulhinho no final e desfilava estórias incríveis, todas contadas como verdadeiras e quem era eu para duvidar, ainda mais ditas pelo tio Mariano. Às vezes pigarreava, enchia a cuia de água quente, ajeitava a bomba entre os lábios e sorvia de novo o mate quente. Nestas horas de suspense absoluto eu dava uma respirada e esperava. O melhor sempre estava por vir. Eu nunca descobri como o tio Mariano sabia tantas estórias, mas lá no fundo desconfiava que era por causa do rádio.Ele tinha um rádio enorme que ficava ao lado da sua poltrona e com ele conseguia ouvir o mundo todo! Dele brotavam muitas estações, mas a preferida do tio Mariano acho que vinha de Buenos Aires porque falava espanhol.Com este rádio também dava para a gente escutar os recados do Rádio Amador. O tio Mariano tinha um amigo que conseguia mandar recados do pai e da mãe, nem sei como. A gente tinha que ficar bem quieta nestas horas, pois junto com as falas chegavam muitos ruído. Hoje, tão cheia de minhas próprias opiniões e idéias, às vezes ainda me pego pensando “o que será que o tipo Mariano pensaria disto?” Helena

Postado por ana mariano

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