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Posts de dezembro 2009

Uma porta

31 de dezembro de 2009 5

Nunca tive vontade de fazer um poema para o último dia do ano. Também nunca encontrei um  que me encantasse. Não sei bem porquê, talvez por ser tema “batido” a respeito do qual já quase tudo foi dito. Mesmo assim procurei;  afinal, esse é para ser, embora nem sempre seja, um blog poético. Os do Drummond são muito bons, mas já postei em outros anos. O Gullar é ótimo, procurei no Gullar. Encontrei um, bom, mas, de novo, nada que já não tenha sido dito. 
Porém … ao lado do poema do Ano Novo, um outro, não grande, pequeno, desses que logo se reconhece como “ baixado”, vindo num lance só, fruto trabalhado pelo inconsciente que um dia resolve sair e ir morar no papel.
Talvez o que me tenha chamado a atenção foi que o verso final do poema combina com um gesto que minha neta de um ano e meio faz  e que eu, envolta no cotidiano , demorei a entender.
Quando se mostra para ela a fotografia de algo ou de alguém de quem ela gosta ( da mãe, da avó, dela mesma ou até do meu cachorro Pablo) ela levanta o pezinho e o coloca sobre a foto. No início, não entendi,  mas tanto ela repetiu o gesto que me fez, enfim, entender: ela quer entrar na foto,  viver de novo aquele momento.
Orgulhosa do senso poético da neta ( vó é vó…) , li, no pequeno poema do Gullar, que à vida falta uma porta. E falta mesmo, pensei, uma porta nas fotos, uma porta na vida, uma porta que nos leve de volta aos momentos bons já vividos, mas que também nos deixe sair para e ir conhecer novos momentos, como os que, com certeza, teremos no novo ano.

Versos de entreter-se

À vida, falta uma parte
- seria o lado de fora -
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa

e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem resposta.

À vida falta uma porta.

                                          Ferreira Gullar

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A mais bonita da festa

29 de dezembro de 2009 3

Minha avó materna, que era muito bonita, costumava dizer: a humanidade é feia. De certa forma, ela tinha razão. Basta observar uma fila de pessoas ( num cinema, num banco, numa parada de ônibus) para constatar que nós, o povo, não primamos pela beleza. De forma geral, a humanidade é mesmo feia. E, no entanto, todos, especialmente nessa época de festas, queremos ser ou parecer jovens, magros, bonitos.
Os Infames da História, tese de doutorado de  Mary del Priore ( editora Lamparina) ,  trata da feiúra e sua rejeição. Não essa feiurinha básica, mas dos “grandes feios”: os loucos, os leprosos, os deficientes e suas tragédias.
Não vou me aprofundar tanto, até porque não preciso de tudo isso para falar de sofrimento e solidão. Basta que alguém sinta-se feio para que ele mesmo crie as condições da própria rejeição.
Outro dia, naqueles depoimentos ao final da novela, uma moça bonita e gorda, falava sobre isso. Disse que, em menina, foi rejeitada num exame para ser bailarina porque era gorda. Desde então criou um blog, fez terapia, convenceu-se de que podia ser bonita sem ser magra e terminou dizendo: ainda vou passar naquele exame, ninguém vai me impedir de ser bailarina.
Bonita frase, mostra coragem, pena ter sido dita com os olhos cheios de lágrimas a demonstrar que a dor de ser gorda continua.
Não a estou condenando, ao contrário, estou solidária, mas não pude deixar de pensar que, gorda, ela dificilmente será uma bailarina, assim como eu, baixinha, dificilmente poderia ter sido jogadora de basquete.
Não me considero fútil, mas, se pudesse, faria um pedido à estrela: que todos, pelo menos uma vez em cada idade, pudéssemos ser a pessoa mais bonita da festa.
Enquanto isso não for possível, vamos esquecer da minha avó e pensar na minha tia Zoquita que dizia: Zoquita, ninguém gosta mais de ti do que tu mesma, e tratar de ser feliz. 

Postado por ana mariano

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Loucos e santos ( mais um a falar sobre isso)

26 de dezembro de 2009 3

 

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim. Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro, quero também sua maior alegria. Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos. Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos. Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou. Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

                                                                           Oscar Wilde

 

Postado por ana mariano

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Um Natal sem Menino Jesus?

24 de dezembro de 2009 1

Sou ouvinte do Galpão Crioulo desde quando não existia televisão e ele acontecia aos domingos à noite. Chamava-se, então, Grande Rodeio Coringa e vinha logo antes do Radio Teatro. Darcy Fagundes, quem o comandava, sempre terminava o programa dizendo – e se o Patrão Velho lá de cima permitir, até domingo que vem, gaúchos e gaúchas de todas as querências.
Hoje, o Galpão acontece com Dorotel Fagundes ( sobrinho – neto do Darcy?) domingos pela manhã, desde bem cedo ( seis e meia?) até as nove horas.
Nesse último, um dos participantes falava sobre a descaracterização do Natal. Dizia que, nos Estados Unidos, em razão da importância dessa festa, do movimento que causa, seguidores de religiões não cristãs, haviam chegado ao absurdo de fazerem um movimento para desvincular o Natal do nascimento de Cristo. O argumento é que, sendo uma das festas mais celebradas no mundo, deveria acontecer por razões outras que não para comemorar o nascimento de alguém que, para um grande número de pessoas, é um homem como outro qualquer. 
Talvez porque o Natal gaúcho tradicionalista tem presépio, não tem papai-noel, o pessoal do Galpão estava indignado com essa proposta. Seria o fim do Natal, diziam.
Aqui em casa, antes da ceia, a gente reza um Pai-nosso e canta feliz aniversário para o Menino Jesus. Foi a maneira mais simples que encontrei de fazer as crianças da família entenderem que, o que se festeja na minha casa no dia de Natal, é o aniversário de Jesus.
No entanto, não sei se esse pessoal não cristão ( judeus, muçulmanos, ateus) não tem uma certa razão. Não sei se eu gostaria que no meu país comemorassem com uma grande festa o nascimento de Maomé, por exemplo, ou Buda. Talvez preferisse que a comemoração fosse em nome da fraternidade, do amor, do pensar no outro, do ama teu próximo como a ti mesmo, que foi o que, bem no fim, Jesus, seja como Deus, seja apenas como profeta, veio nos dizer.

 

Postado por ana mariano

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Você lembram disso?

23 de dezembro de 2009 0

 

 

 

Com essa pergunta, uma amiga me mandou esse vídeo. Claro que eu lembrava. Quanto tempo faz? Todos mudaram, alguns até já morreram. E, no entanto, a fome, a pobreza, a África toda, onde quer que ela esteja, continuam iguais. Algo a pensar nessa época.

Postado por ana mariano

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Processo de criação

22 de dezembro de 2009 1

 

 

O criar, esse tirar algo do nada, ou do caos de outras experiências, me fascina. Vários pintores, poetas, escritores, meus amigos, me falaram do seu sistema de criação. São muitos, vão desde correr maratona até fazer meditação. Paulo Neves, aquele poeta que eu trouxe aqui, na estrevista que deu ao Caderno de Cultura, disse que uma música do Gilberto Gil, Se quiser falar com Deus ( e Deus aqui significa a inspiração) resume o que ele pensa seja necessário para criar. Achei interessante,uma bela definição. Ouvi de novo a música cuidando para entendê-la de uma outra forma, uma forma não religiosa. Ficou legal.

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500 anos de palavras

21 de dezembro de 2009 6

 

 

 

Assisti a um filme muito gostoso: 500 dias com ela. Uma comédia, romântica pra mais de metro, mas também inteligente. Trabalha muito bem com o ir e vir do contar a história, o que não é fácil de fazer. O menino, se não for indicado ao Oscar de melhor ator, devia ser. O tema é antigo, tem mais de 500 anos, bem mais, e tem também a ver com as músicas que a Omara e a Bethania cantam acima. Fala das vezes em que a gente inventa o amor, das vezes em que se ama tanto que se projeta o próprio amor no outro e, não importa o que o outro diga ou faça, nos convencemos de que somos amados da mesma forma até cairmos na real. Quem já não passou por isso?

Postado por ana mariano

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Um poeta

21 de dezembro de 2009 1

Uma amiga me avisa sobre uma entrevista, no Caderno de Cultura da Zero Hora de sábado passado, com Paulo Neves, que, confesso, não conhecia. Ele é tradutor e autor de um livro de poesia  Viagem, espera ( Cia das Letras, 2006) . Fui conferir.
Todos dizem que traduzir faz muito bem para a escrita. Parece que sim, o cara é simples e bom. Sem palavras supérfulas. 
Coloco aqui um poema do livro,  com uma pequena análise do Fischer.

Menino Deus

A criança olhava o céu

e via um ponto onde o céu

parecia ter se dobrado

e afundado no tempo.

Tudo então que estava perto

e com seu corpo coexistia,

o rio, os morros, a rua,

as palmeiras altas, o vento,

pairava já na lonjura

e era saudade e doía.

“O céu dobra duas vezes no poema, viu só? Uma pela repetição da palavra, outra na vista da

criança, que é um pequeno deus, um menino-deus a conferir ordem ao que lhe rodeia; mas um

deus de tipo integrado ao meio, não um deus baixado de alguma esfera celestial, como aliás

qualquer criança, cujo corpo é sempre a medida de todas as coisas, altas como as palmeiras,

molhadas como o rio ou súbitas como um vento. Nessa criança, no miolo de sua sensibilidade,

estamos nós, os leitores; fomos postos lá dentro por um golpe muito singelo dado pela

delicadeza do narrador, do observador, que estava bem quieto, só olhando a cena, e que flagrou

o espetáculo do surgimento da consciência na criança – exatamente ali, quando e onde tudo é

belo e integrado, corpo mais natureza sem espaços inúteis ou baldios, o poeta nos mostrou a

brotação da saudade, esta beleza triste que dói.”

                                                                               Luíz Augusto Fischer

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Instrucciones para dar cuerda al reloj

20 de dezembro de 2009 5

Allá en el fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegam sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo, como un abanico se va llenando de sí mismo e de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
Qué más quiere, qué mas quiere? Átelo pronto a su muñeca, déjelo latir en libertad, imítelo anhelante. El miedo herrumbra las áncoras, cada cosa que pudo alcanzarse y fue olvidada va corroyendo las venas del reloj, gangrenando la fría sangre de sus pequeños rubíes. Y allá en el fondo está lá muerto si no corremos y llegamos antes y comprendemos que ya no importa.

                                                ***

 Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com a mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a teu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

(Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas)

Postado por ana mariano

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Ataque de pânico

19 de dezembro de 2009 1

 

 

 

Pelas tantas vezes em que falei sobre cinema, vocês já adivinharam que gosto muito. Não sei o nome de atores ( a não ser dos antigos) e nem diretores, mas, tirando filme de tiro e correria, sendo bom, gosto de quase tudo. Sendo bom, e esse é o problema. Ultimamente, onde eu tenho encontrado os filmes mais inteligentes e criativos é no setor chamado infantil. Chamado, porque quem os faz, igual como quando a gente enfeita os gregos com Freud, os enfeita com tantas das vantagens do conhecimento que, algumas partes, só adultos entendem. Tudo isso é para dizer que ontem assisti a um filme bem bom com algumas cenas ótimas. É antigo, mas eu não havia visto. Chama-se Os Sem Floresta, em inglês Over the Hedge e o tema inicial é ecológico, o avanço da cidade sobre a mata. Um grupo de pequenos de animais acorda na primavera vendo que a cerca de um condomínio havia invadido o lugar onde moravam. Um deles …, não, não vou contar a história porque uma vez , na Nova Zelândia, inventei de contar Babe, o porquinho para o motorista de táxi e quase mato a família de vergonha. Enfim, o filme é inteligente e tem uma cena genial: um dos bichinhos finge estar morrendo e fala tudo aquilo que, dizem, os moribundos vêem: um túnel, uma luz, mamãe é você? e termina gritando Rosebud! É a piada mais engraçada do filme e 100% das crianças não sabem de que se trata. ( Para os mais jovens: Cidadão Kane do Orson Welles, considerado por muitos o maior filme de todos os tempos, baseado na vida do W. Hearst, um clássico, onde o mais clássico é a cena inicial quando o protagonista morre a sua última palavra é Rosebud. O filme todo é explicando o que é Rosebud e porque foi sua última palavra.) Por falar em Orson Welles, não deu para deixar de comparar o pânico que ele causou ao irradiar A Guerra dos Mundos, com o fenômeno desse vídeo Ataque de Pânico, feito por um rapaz uruguaio de 30 anos, que já foi visto no you tube por mais de três milhões de pessoas, e que, em 72 horas, deu a ele um milhão de dólares e um contrato em Hollywood para fazer um filme com um orçamento de 30 ou 40 milhões de dólares, não tenho bem certeza. Dizem que o cara está nas nuvens, só pode…

Postado por ana mariano

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