O Trenzinho do Caipira, música de Villa Lobos ( Bachiana nº 2), ganhou, num arranjo de Edu Lobo, letra (belíssima) de Ferreira Gullar. Numa de suas crônicas na Folha de São Paulo ( 06/12/09), Gullar relembra o fato. Trago para vocês, não apenas pela beleza da música e da letra, mas pela descrição do processo criativo. Olhem como o passar do tempo (o andar da carroça, como se diz) e a mudança de enfoque torna algo impossível em algo possível de ser feito em vinte minutos.
" ... certa tarde, sozinho no apartamento ( na antiga rua Montenegro, hoje Vinivius de Moraes) pus na vitrola um disco com a "Bachianas" e ouvi, pela primeira vez, a do trenzinho do caipira. Entrei em transe. É que, quando menino, meu pai, que fazia comércio ambulante, me levava nas viagens de trem entre São Luís e Teresina. O trem saía de madrugada e, ao amanhecer, cortava o Campo dos Perdizes, um vasto pantanal, povoado de garças, marrecos, nham bus, pássros de todo tamanho e cor. Eu ficava deslumbrado, a cada viagem.Deslumbramento esse que que voltou quando ouvi a "Tocata" da "Bachiana nº 2". Tive o ímpeto, naquele instante, de pôr letra na música, mas não consegui. E não tentei uma vez só, não, mas várias, ao longo dos anos, sem resultado. Pois bem, em 1975, ao escrever o "poema Sujo" em Buenos Aires, evoco aquelas viagens que fazia com meu pai e, então, enquanto antes era a música de Villa-Lobos que me fazia lembrar da " Bachiana nº 2", agora elas é que me fizeram lembrar da "Bachiana nº 2" e, assim, a letra que não conseguira escrever em 20 anos, escrevi em 20 minutos".
Postado por ana mariano





